Luiz Inácio Lula da Silva tornou-se, neste momento, o principal alvo da ofensiva da burguesia para enfraquecer os candidatos que polarizam a eleição presidencial. Em poucos dias, avançaram tanto a investigação envolvendo seu filho, Fábio Luís Lula da Silva, como uma ação eleitoral que pretende responsabilizar o presidente pelo desfile da Acadêmicos de Niterói, que o homenageou no Carnaval deste ano.
Os dois episódios fornecem munição para uma campanha de desgaste que interessa diretamente aos setores que procuram abrir caminho para a terceira via. Lula e Flávio Bolsonaro concentram hoje os dois principais campos eleitorais e, por isso, são obstáculos para os candidatos preferidos pelos grandes capitalistas.
No caso de Lula, porém, a pressão ganhou especial intensidade.
O corregedor-geral da Justiça Eleitoral, Antônio Carlos Ferreira, determinou o prosseguimento de uma ação apresentada pelo Partido Novo contra Lula e Geraldo Alckmin em razão do desfile da Acadêmicos de Niterói.
A escola apresentou no Carnaval um enredo dedicado à trajetória de Lula. O Novo tenta caracterizar a homenagem como uma forma irregular de promoção eleitoral porque a agremiação recebeu dinheiro público para participar do desfile.
Os recursos citados na ação somam R$9,65 milhões. Desse total, R$4 milhões vieram da Prefeitura de Niterói, R$2,15 milhões da Prefeitura do Rio de Janeiro, R$2,5 milhões do governo estadual, por meio de contrato com a Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro, e R$1 milhão da Embratur.
Com base nesses repasses e na repercussão nacional do desfile, o Novo acusa Lula e Alckmin de terem sido beneficiados eleitoralmente e pede uma punição que poderia chegar à cassação das candidaturas e à inelegibilidade dos dois.
Não existe, até agora, decisão reconhecendo que Lula tenha cometido qualquer irregularidade. O TSE apenas permitiu que a acusação prossiga e que sejam produzidas provas.
A desproporção entre o fato e a consequência pretendida pelo Novo é evidente. Uma escola de samba decide homenagear o presidente, recebe recursos públicos destinados ao Carnaval e, a partir daí, um partido da direita procura produzir um processo capaz de retirar Lula da disputa presidencial.
A ofensiva judicial ocorre ao mesmo tempo em que cresce a exploração das investigações envolvendo Lulinha.
A Polícia Filial prepara o depoimento do filho mais velho de Lula depois de terminar o exame do material obtido no telefone da empresária Roberta Luchsinger. A investigação procura saber se houve atuação de particulares junto a órgãos do governo para favorecer negócios privados.
Entre os elementos analisados aparecem conversas sobre reuniões com integrantes do governo e interesses empresariais ligados, entre outros assuntos, ao Ministério da Saúde. A PF procura determinar se Lulinha teria utilizado suas relações pessoais para beneficiar determinadas empresas.
A apuração ainda está em andamento. A defesa do filho do presidente contesta a autenticidade e a forma como parte das conversas chegou à imprensa, sustentando que os diálogos divulgados não podem ser tomados isoladamente como prova.
Isso não impediu que o caso passasse imediatamente a ocupar espaço destacado na imprensa burguesa. Antes de qualquer conclusão da investigação, a acusação contra Lulinha já é utilizada para atingir Lula.
A finalidade política desse tipo de campanha não depende necessariamente de uma condenação.
Um processo que termina arquivado depois das eleições pode ter servido perfeitamente ao seu propósito se, durante a campanha, produziu dezenas de manchetes, colocou o candidato na defensiva, aumentou sua rejeição e obrigou sua campanha a responder diariamente a acusações.
O mesmo vale para o processo provocado pelo desfile de Carnaval. Mesmo que não leve à cassação pretendida pelo Novo, ele acrescenta uma nova ameaça judicial à candidatura e reforça a impressão de que Lula está permanentemente cercado por escândalos e investigações.
É dessa maneira que a burguesia procura alterar a correlação de forças da eleição.
Sua preferência é reduzir ao máximo o peso dos dois polos, Lula e Flávio Bolsonaro, e criar espaço para uma candidatura de terceira via. Os candidatos apresentados como alternativa aos dois principais concorrentes carecem, porém, de uma base popular comparável. Precisam, por isso, de uma operação política que diminua artificialmente a força dos adversários.
No caso de Lula, a tarefa é especialmente importante porque sua votação está apoiada em milhões de trabalhadores que enxergam nele, de maneira embaçada, uma defesa contra a direita tradicional e o bolsonarismo.
A campanha procura romper essa relação por meio de uma sucessão de denúncias e processos.
A burguesia não precisa necessariamente colocar a terceira via no segundo turno para obter resultado.
Se Lula ou Flávio Bolsonaro vencerem depois de uma campanha em que tenham sido profundamente desgastados, o próximo governo já começará em posição muito mais fraca. Um presidente com menor votação, maior rejeição e cercado por processos terá muito menos liberdade diante dos bancos, dos grandes empresários, do Congresso e do aparato de Estado.
Para Lula, essa pressão funciona ainda como instrumento para exigir novas concessões antes mesmo da votação.
Quanto mais ameaçada estiver sua candidatura, maior será a tentativa de convencê-lo de que precisa tranquilizar os grandes capitalistas, aproximar-se da direita, aceitar os candidatos dos bancos para os principais postos do governo e abandonar qualquer política que confronte interesses poderosos.
É esse um dos objetivos da operação em curso e ele está surtindo efeito, uma vez que o PT está se entregando todo aos braços da frente ampla.
A terceira via pode fracassar nas urnas e, ainda assim, a burguesia sair ganhando. Se não conseguir eleger diretamente seu candidato, procurará ao menos enfraquecer Lula e Flávio Bolsonaro o suficiente para que o vencedor chegue ao governo obrigado a comer na mão dos grandes capitalistas.





