O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), candidato à reeleição, resolveu confirmar aquilo que o Diário Causa Operária vem afirmando insistentemente sobre a campanha contra as apostas: trata-se de uma política de direita, baseada no moralismo, nas restrições e na ideia de que o Estado deve controlar a vida da população.
Durante uma sabatina realizada nessa segunda-feira (17) no Sindicato dos Hospitais, Clínicas e Laboratórios de São Paulo (SindHosp), Tarcísio declarou: “Ou o Brasil acaba com a bet ou a bet acaba com o Brasil”. O governador comparou ainda o problema da dependência em jogos à campanha contra o cigarro e afirmou que pretende ampliar ações de saúde voltadas aos “dependentes”.
A declaração poderia perfeitamente ter saído da boca de muitos dos que, dentro da esquerda, apresentam o chamado “combate às bets” como uma política progressista.
É justamente aí que está o problema.
Este Diário vem denunciando há muito tempo que transformar as apostas em uma espécie de calamidade nacional e defender proibições, restrições e vigilância estatal não é uma política de esquerda. É o velho moralismo da direita, agora apresentado com uma embalagem supostamente social.
Tarcísio acaba de eliminar qualquer dúvida.
Não se trata de um personagem secundário. O governador de São Paulo é hoje um dos principais representantes da direita brasileira. Quando ele afirma que é preciso “acabar com a bet” e compara essa campanha à luta contra o tabagismo, está defendendo exatamente o princípio que setores da esquerda passaram a adotar: o Estado deveria impedir a população de realizar determinada atividade porque considera que ela lhe faz mal.
O governo Lula também embarcou nessa campanha. Em vez de tratar a dependência como um problema social, ampliou o discurso em favor de restrições às casas de apostas, à propaganda e ao próprio acesso aos jogos, sob o argumento de proteger a população.
O DCO já apontou diversas vezes a demagogia dessa política. Nenhuma dessas medidas acabará com o vício.
O jogo existe há séculos. A tentativa de eliminá-lo por meio de proibições não faz desaparecer a atividade, da mesma maneira que a repressão nunca acabou com o consumo de álcool, cigarro ou drogas. Quando uma atividade de grande procura é proibida, ela simplesmente passa a funcionar por outros meios, frequentemente sem qualquer controle público.
Se existe dependência, o dependente deve receber tratamento. O Estado deve oferecer atendimento médico e psicológico gratuito para quem deseja abandonar o jogo. Isso é uma política de saúde pública. Outra coisa muito diferente é aproveitar a existência de casos de dependência para estabelecer restrições sobre milhões de adultos que apostam voluntariamente.
A própria situação de São Paulo demonstra a fraude do discurso.
Segundo as informações divulgadas pelo Metrópoles, o estado possui um programa destinado ao tratamento de pessoas com dependência em jogos. No entanto, quando o jornal procurou atendimento na rede pública em 2025, encontrou enormes dificuldades. Foram visitadas sete unidades de saúde, entre Caps, UBS e UPA, e apenas na última houve informações concretas sobre como iniciar o tratamento.
Se a preocupação principal fosse realmente ajudar os dependentes, esse seria o problema a resolver.
Em vez disso, Tarcísio prefere lançar uma palavra de ordem espalhafatosa: ou o Brasil acaba com as apostas ou as apostas acabam com o Brasil.
Essa formulação é típica da direita. Um problema social é transformado numa ameaça gigantesca para justificar uma campanha repressiva. Não se procura compreender por que tantas pessoas apostam nem oferecer tratamento aos que desenvolveram dependência. O centro passa a ser combater a própria atividade.
É a mesma orientação adotada por setores da esquerda.
Durante muito tempo, tentou-se apresentar essa campanha como se fosse uma defesa dos trabalhadores pobres que estariam sendo explorados pelas casas de apostas. O argumento serviu para dar uma aparência progressista a uma política profundamente reacionária.
Agora aparece Tarcísio de Freitas defendendo essencialmente a mesma coisa.
Não foi Tarcísio que adotou uma política de esquerda. Foram setores da esquerda que adotaram uma política da direita.
O fato deveria servir para encerrar a discussão sobre o caráter político dessa campanha. Quem defende que o Estado proíba, restrinja ou dificulte as apostas porque parte da população pode desenvolver dependência está utilizando o mesmo argumento do governador paulista.
O vício é um problema real. A conclusão tirada dele é que é falsa.
Uma pessoa pode desenvolver dependência de jogos, assim como pode desenvolver dependência de inúmeras outras atividades. A função de um sistema público de saúde é fornecer tratamento a quem necessita. Não cabe ao Estado transformar todos os cidadãos em menores de idade que precisam de autorização para decidir como gastar o próprio dinheiro.
Além disso, a campanha contra as apostas esconde as condições sociais que ajudam a explicar sua expansão.
Para milhões de trabalhadores, apostar alguns reais aparece como uma possibilidade de conseguir rapidamente um dinheiro que jamais conseguirão acumular com os salários que recebem. É evidente que a esmagadora maioria não ficará rica dessa maneira. Mas a atração exercida pelas apostas não pode ser separada dos salários baixos, do endividamento e da falta de perspectiva de melhorar de vida.
Proibir a aposta não aumenta salário algum.
Restringir a propaganda não cria empregos.
Bloquear uma casa de apostas não elimina o endividamento de milhões de famílias.
O governo pode multiplicar regras e apresentar cada nova restrição como uma grande medida social. O problema que alimenta a procura pelas apostas continuará existindo.
É nesse sentido que o chamado “combate às bets” é demagógico. Promete resolver por meios administrativos e repressivos um problema que não pode ser eliminado dessa maneira.
A declaração de Tarcísio é particularmente esclarecedora porque mostra onde essa política conduz. O governador não fala apenas em tratar dependentes ou fiscalizar possíveis fraudes. Ele coloca como objetivo “acabar” com as apostas.
É a política tradicional da direita: proibir aquilo que considera um vício social e utilizar o aparelho estatal para disciplinar o comportamento da população.
A esquerda deveria estar do outro lado. Deveria defender as liberdades individuais, combater a repressão estatal e exigir tratamento gratuito para quem sofre de dependência.
Deveria, sobretudo, combater as condições econômicas que levam uma parcela enorme da população a enxergar numa aposta uma das poucas possibilidades de obter uma quantidade de dinheiro que seu trabalho não lhe permite alcançar.
Mas setores da esquerda preferiram acompanhar a campanha moralista. O governo Lula seguiu pelo mesmo caminho, procurando apresentar sucessivas restrições como se fossem uma defesa da população.
Agora um dos principais representantes da direita brasileira aparece dizendo praticamente a mesma coisa.
Tarcísio prestou um serviço involuntário ao debate. O que vinha sendo apresentado como uma política progressista apareceu em sua forma mais clara: uma cruzada moralista para restringir uma atividade praticada voluntariamente por milhões de pessoas.
O problema do vício deve ser tratado pelo sistema de saúde. O problema da pobreza deve ser enfrentado com emprego, salário e melhores condições de vida.
Proibir e restringir as apostas não resolverá nenhum dos dois.
Se ainda havia alguma dúvida sobre o caráter político da campanha contra as bets, Tarcísio de Freitas tratou de resolvê-la.




