Eleições

Flavio Bolsonaro é um ‘candidato ruim’ para aplicar a política da burguesia

Estadão aprova a orientação econômica de Flávio, mas considera que o senador não tem capacidade política para executar o programa exigido pelo grande capital

O editorial publicado pelo Estado de S. Paulo na segunda-feira (17), sob o título “Programa bom, candidato ruim”, oferece uma exposição bastante direta da posição dos setores mais importantes da burguesia diante da candidatura de Flávio Bolsonaro.

O Estadão, tradicional porta-voz dos grandes capitalistas e do imperialismo no Brasil, deixa claro que não vê maiores problemas na orientação apresentada pelo candidato do PL. Redução da dívida pública, contenção dos gastos, revisão de subsídios e novas reformas aparecem no editorial como medidas razoáveis. A objeção é outra: o jornal não acredita que Flávio tenha condições de executá-las.

Não se trata, portanto, de uma crítica ao conteúdo essencial da política apresentada. O que o Estadão questiona é a capacidade do candidato de transformá-la em política de governo.

Para o grande capital, não basta que um candidato se comprometa com o ajuste fiscal e com as chamadas reformas. É necessário que ele tenha condições de enfrentar resistências, controlar sua base parlamentar e social, negociar com o Congresso e garantir que as medidas prometidas sejam realmente levadas adiante.

É nessa prova que o Estadão considera Flávio reprovado.

O jornal utiliza sua passagem pelo Senado para apresentá-lo como um político de pouca capacidade de articulação. Flávio está há sete anos na Casa e, segundo o próprio editorial, não conseguiu se projetar como dirigente nem mesmo nos assuntos que procura transformar em suas principais bandeiras políticas.

Uma das situações lembradas pelo jornal envolve a proposta apresentada em 2019 para alterar a responsabilização penal de adolescentes acusados de crimes graves. Mesmo com Jair Bolsonaro ocupando a Presidência da República, Flávio não conseguiu sequer fazer a proposta avançar na Comissão de Constituição e Justiça.

Para o Estadão, episódios desse tipo mostram que existe uma enorme distância entre o personagem construído pelo plano eleitoral e o senador que atuou nos últimos anos em Brasília.

Essa cobrança aparece ainda com mais nitidez na economia.

Flávio promete controle de despesas, superávits e redução do endividamento público. O jornal não condena nenhuma dessas metas. Ao contrário, reclama que o candidato não explica com precisão como pretende alcançá-las.

A pergunta feita pelo Estadão é, essencialmente, onde serão realizados os cortes e se Flávio terá força suficiente para impô-los.

É uma preocupação inteiramente coerente com os interesses dos grandes capitalistas. Uma política de ajuste não se resume à publicação de um documento de campanha. Para retirar recursos das despesas públicas, atacar direitos e reorganizar o Estado segundo as necessidades do capital financeiro, é preciso enfrentar a resistência de milhões de trabalhadores.

A experiência de Javier Milei na Argentina serve como exemplo extremo do tipo de política que essa direita procura levar adiante: uma terapia de choque destinada a transferir o peso da crise para a população e realizar rapidamente um amplo programa de ataques econômicos.

Uma operação dessa dimensão exige, do ponto de vista da burguesia, um governo disciplinado e previsível.

É precisamente essa segurança que o Estadão não enxerga em Flávio Bolsonaro.

O editorial também utiliza o governo de Jair Bolsonaro para colocar em dúvida as promessas atuais do filho. Recorda as exceções ao teto de gastos, o crescimento do chamado orçamento secreto e outras decisões tomadas quando o bolsonarismo controlava o Palácio do Planalto.

A mensagem é bastante evidente. Para o jornal, Flávio promete agora uma disciplina que sua própria corrente política não demonstrou quando governou.

A crítica não consiste em afirmar que ele seja radical demais. O problema é praticamente o contrário.

Flavio apresenta uma política aceitável para os grandes capitalistas, mas não convence de que seja o político profissional capaz de executá-la com a eficiência necessária.

O candidato procura superar justamente essa desconfiança. Quanto mais encontra resistência por parte da imprensa burguesa, mais procura mostrar que poderia oferecer um governo seguro para o “mercado”, comprometido com o ajuste fiscal e disposto a respeitar as exigências dos grandes empresários e do capital financeiro.

É uma tentativa permanente de provar que a experiência do governo Jair Bolsonaro não se repetiria e que um novo governo bolsonarista seria mais controlado, previsível e disciplinado.

O Estadão – e a burguesia, portanto –, porém, continua recusando essas credenciais.

A posição do jornal reforça a análise que este Diário vem fazendo sobre as eleições de 2026. Os principais setores da burguesia procuram criar uma candidatura que não seja nem Lula nem Flávio Bolsonaro. Como os dois continuam concentrando a maior parte do apoio eleitoral, a chamada terceira via depende do desgaste dos dois principais polos da disputa.

Flávio tenta romper esse bloqueio apresentando-se como alguém disposto a governar segundo as necessidades do grande capital. Lula, por sua vez, também procura tranquilizar empresários, banqueiros e representantes do imperialismo com concessões e compromissos políticos.

Ainda assim, nenhum dos dois corresponde ao candidato preferido pelos setores mais poderosos da classe dominante.

Daí o esforço permanente dos monopólios de imprensa para enfraquecê-los.

Se a terceira via não conseguir chegar ao segundo turno, a campanha não terá sido inútil para a burguesia. Um presidente eleito sob forte pressão da imprensa, cercado de crises e politicamente debilitado terá menos condições de resistir às exigências do grande capital e será pressionado desde o primeiro dia de governo a fazer novas concessões.

É isso que torna o editorial do Estadão particularmente esclarecedor. O jornal não está procurando uma política muito diferente daquela apresentada por Flávio Bolsonaro. Está procurando um candidato mais eficiente para colocá-la em prática.

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