O artigo A branquitude como ideologia, de Danilo Serafim, publicado no sítio Esquerda Online nesta terça-feira (18), incorre no erro fundamental de colocar em segundo plano a luta de classes. Sua proposta para a solução do racismo leva irremediavelmente ao identitarismo, uma política imperialista que só serve para propor colocar pessoas negras em postos mais elevados, desviando a luta do negro de questões fundamentais.
O artigo começa dizendo que “raça e branquitude são construções sociais, ideologias que ajudam a legitimar o poder político dominante no seio da sociedade norte-americana”, quando, na verdade, o poder é exercido pelas classes dominantes, pela burguesia. O que define o poder da burguesia é seu poder econômico, não sua cor, ainda que ela seja majoritariamente branca em países como os Estados Unidos.
Em determinado ponto, o autor escreve que “o Tea Party e os movimentos de supremacia branca nos Estados Unidos iniciaram uma campanha de questionar a cidadania de Obama em 2009, pois diziam que ele não era um afro-americano, portanto não poderia concorrer à presidência dos EUA”.
O que se nota nesse trecho é que Danilo Serafim não faz uma avaliação dos mandatos de Barack Obama e se concentra na questão racial, uma defesa do democrata. Não podemos esquecer que se tratou de um governo extremamente sanguinário. Os EUA atacaram o Afeganistão, assassinando centenas de milhares, destruíram a Síria e a Líbia, deram o golpe contra Dilma Rousseff, dentre inúmeros outros crimes.
Por que não interessa avaliar Obama? Porque isso coloca em xeque a política identitária, que vende a fábula de que é preciso colocar pessoas negras no poder.
Por outro lado, o atual presidente é criticado. O autor diz que “nesse período, Donald Trump se tornou uma figura central na política dos EUA. Essas tendências representavam outras tendências, parcialmente esquecidas. Na política de ‘identidade nacional americana’, uma espécie de inovação revanchista do povo para delimitar a comunidade política e reforçar as formas existentes de hierarquia. A da Supremacia branca sobre os demais cidadãos”. O atual presidente, com sua política reacionária de deportações, é logo caracterizado como supremacista. No entanto, durante os dois mandatos de Obama, foram realizadas mais de três milhões de deportações, número que até agora supera o registrado sob Trump.
“Essa versão de identidade nacional quase sempre foi articulada com uma concepção racializada da comunidade nacional. Nesse sentido, enxerga-se como os depositários da identidade nacional de forma unilateral a branquitude.”
Serafim escreve que “desde sempre o mundo político do chamado país da ‘democracia’, à democracia branca, ou a democracia do povo branco. Ou a ‘cidadania branca’, apresenta uma visão da democracia americana como um projeto constante de inclusão cívica branca”. Essa “inclusão cívica branca”, entretanto, não passa de uma farsa, pois a classe trabalhadora está a cada dia mais pobre. Isso não é recente, mas a concentração de renda se acentuou brutalmente durante o governo de Ronald Reagan.
O autor alega que “após a eleição de Trump em 2016, houve um rápido desenvolvimento da literatura sobre o populismo autoritário e do avanço da política de extrema direita. A branquitude tende a ser concebida como uma espécie de cola cívica ou solidariedade que une a comunidade política e nivela as hierarquias sociais. As práticas de racialização sempre exigem formas de fortificação de fronteiras”. O curioso é que o republicano ampliou sua votação entre os negros nas eleições de 2024, passando de 8% em 2020 para algo entre 12% e 15% nacionalmente.
Isso se deveu ao programa eleitoral trumpista, focado no fim das guerras e na recuperação econômica. A popularidade de Trump caiu agora que está levando adiante a política de guerras do imperialismo. Ou seja, o que move a classe trabalhadora são principalmente as questões econômicas.
“Branquitude é o termo construído da teoria crítica de raça com o objetivo de enunciar as estruturas sociais que produzem e reproduzem a supremacia branca e o privilégio branco, resultado da expansão colonial”, escreve o autor, e aqui fica muito claro o quão limitada é essa visão. Quem é oprimido: um ator negro milionário de Hollywood; ou um operários branco?
O autor alega ainda que existe um “lugar de prestígio da brancura como ‘salário público e psicológico da brancura’, que resultava em acesso a bens materiais e simbólicos, os quais os negros não podiam compartilhar”. Mas o que um trabalhador pobre compra com esse salário psicológico? Ele não serve para nada.
O identitarismo perde um tempo enorme discutindo “pacto da branquitude” e “salário público e psicológico da brancura” quando a esmagadora maioria da população vive em péssimas condições. É uma ilusão identitária acreditar que se pode combater o racismo dentro do capitalismo. Trata-se de reformismo. A única saída é a revolução proletária. Todos os setores oprimidos da sociedade, sem exceção, só poderão ser libertados com a emancipação da classe trabalhadora, derrotando a burguesia e impondo a ditadura do proletariado.
Segundo o texto, “a branquitude não é apenas a cor da pele, mas um pacto político que organiza hierarquias sociais e fratura solidariedades. O conceito de branquitude construído por Du Bois permanece até hoje como um dos maiores legados do autor para essa área de análise e pesquisa. Estudar o racismo exige estudar também os benefícios materiais e simbólicos de ser branco”. Em outras palavras, a sociedade não estaria dividida e organizada em classes, mas entre brancos e não brancos.
A política identitária leva a luta de classes para um beco do qual nunca poderá sair, pois fragmenta a classe trabalhadora, o que só pode favorecer a burguesia e não fará o racismo recuar um único milímetro.




