A Petrobrás terminou o primeiro semestre de 2026 como a terceira petroleira mais lucrativa entre dez grandes companhias analisadas pelo Poder360. Foram US$ 16,6 bilhões de lucro líquido nos primeiros seis meses do ano, crescimento de 55,3% sobre os US$ 10,7 bilhões registrados no mesmo período de 2025.
A estatal brasileira ficou atrás somente da Saudi Aramco, com US$ 65,2 bilhões, e da norte-americana ExxonMobil, que lucrou US$ 18,7 bilhões. As três ocupavam as mesmas posições um ano antes.
O resultado mostra a força da Petrobrás depois de mais de três décadas de ataques. Desde a implantação da política neoliberal no Brasil, a companhia perdeu o monopólio estatal do petróleo, teve ativos vendidos, setores privatizados e seu funcionamento cada vez mais subordinado aos interesses dos especuladores financeiros. Mesmo assim, permanece entre as maiores empresas do ramo no mundo.
No segundo trimestre deste ano, a produção própria de óleo e gás chegou ao recorde de 3,34 milhões de barris de óleo equivalente por dia, ante 3,23 milhões no trimestre anterior. O lucro bruto alcançou US$ 19,5 bilhões, o maior já registrado pela Petrobrás em um único trimestre.
A questão, portanto, não é a capacidade da companhia de produzir riqueza. Os números mostram justamente o contrário. O problema é que uma parte gigantesca do dinheiro produzido pela Petrobrás não é utilizada para desenvolver a indústria brasileira, ampliar o controle estatal sobre o setor ou melhorar as condições dos petroleiros. É entregue aos acionistas.
Um colosso apesar das privatizações
A ofensiva contra a Petrobrás começou muito antes das vendas de refinarias e outros ativos ocorridas nos últimos anos. Um dos principais golpes foi a quebra do monopólio estatal do petróleo durante o governo Fernando Henrique Cardoso, abrindo a exploração das reservas brasileiras às companhias privadas.
Desde então, a privatização avançou por partes. Campos, subsidiárias, refinarias e outras estruturas construídas com recursos nacionais passaram para grupos particulares. Ao mesmo tempo, o peso dos acionistas privados transformou a distribuição de dividendos em uma das preocupações permanentes da direção da empresa.
Nem esse processo conseguiu eliminar o peso econômico da Petrobrás. Em 2026, ela continuou à frente, em lucratividade, de companhias como Shell, Chevron, TotalEnergies, Equinor, BP, Eni e Repsol.
A elevação internacional do preço do petróleo favoreceu os resultados do setor no primeiro semestre. A guerra no Irã e as restrições à circulação de navios pelo Estreito de Ormuz reduziram a oferta do Oriente Médio. No segundo trimestre, o barril foi comercializado pelas empresas analisadas por uma média de US$ 104,52, valor 54,1% superior ao do mesmo período de 2025.
A Petrobrás pôde tirar proveito dessa alta porque dispõe de reservas, tecnologia, trabalhadores especializados e uma enorme estrutura de produção. É justamente essa estrutura, construída pelo Estado brasileiro ao longo de décadas, que torna a companhia tão valiosa para os capitalistas.
Lucro brasileiro, dividendo para acionista
A Petrobrás permanece sob controle relativo do Estado, mas parte de seu capital está nas mãos de investidores privados. Assim, cada vez que são distribuídos dividendos, uma parcela dos recursos obtidos com a exploração do petróleo nacional sai da companhia para remunerar proprietários de ações.
Os valores envolvidos são enormes. Em 2024, a Petrobrás registrou R$ 36,6 bilhões de lucro líquido e anunciou a distribuição de R$ 75,8 bilhões em dividendos, considerando os recursos disponíveis para remunerar os acionistas naquele período.
O Estado brasileiro recebe dividendos por ser o acionista controlador. Mas a existência de acionistas particulares significa que bilhões também são desviados da empresa para fundos, bancos e demais investidores privados.
Esse é um dos mecanismos da privatização da Petrobrás. Não é necessário entregar toda a companhia de uma vez. Basta vender ativos, abrir áreas ao capital particular e permitir que uma parcela crescente dos ganhos produzidos pela estatal seja apropriada pelos donos de ações. Claro que, quando tiverem condições, os capitalistas e seu governo de turno irão privatizar totalmente a companhia, para ficarem com todos os seus lucros.
Enquanto isso, o Brasil necessita de investimentos pesados justamente no setor petrolífero.
Os recursos poderiam financiar novas refinarias, plataformas, oleodutos e terminais, desenvolver a indústria petroquímica e de fertilizantes, recuperar a indústria naval e ampliar a pesquisa e a tecnologia nacionais. Poderiam também servir para retomar áreas e empresas entregues aos capitalistas durante as sucessivas privatizações.
Em vez de funcionar como fonte de renda para investidores, a Petrobrás deveria ser o centro de uma política de domínio nacional de toda a cadeia do petróleo.
Refinar no Brasil reduz a dependência
Os próprios resultados da companhia mostram o efeito de investir na produção interna.
As refinarias da Petrobrás processaram 1,918 milhão de barris por dia entre abril e junho, alta de 5,6% diante do primeiro trimestre e de 10,9% na comparação com o mesmo período de 2025.
O fator de utilização chegou a 101,2%, enquanto o petróleo brasileiro representou 93% da carga processada.
Com o aumento do refino, as importações de derivados caíram aproximadamente 40%. A compra externa recuou para 67 mil barris por dia, o menor volume trimestral da série histórica da companhia.
O segmento de Refino, Transporte e Comercialização obteve US$ 5,2 bilhões de lucro bruto no trimestre, 14,6% acima dos três primeiros meses do ano e 328,9% superior ao resultado do mesmo período de 2025.
Ou seja, quanto mais petróleo a Petrobrás processa dentro do País, menor é a necessidade de comprar derivados no exterior. Além de reduzir a dependência externa, o refino mantém no Brasil uma parcela maior do valor gerado a partir do petróleo.
A direção da estatal estabeleceu como meta, no Plano Estratégico 2026-2030, produzir o equivalente a 85% do diesel consumido nacionalmente. Para o período seguinte, de 2027 a 2031, a intenção anunciada é alcançar volume equivalente à totalidade da demanda brasileira.
Se a Petrobrás tem capacidade para caminhar nessa direção, entregar refinarias, campos ou qualquer outra parte da indústria petrolífera à iniciativa privada significa enfraquecer deliberadamente a capacidade econômica do País.
Petroleiro produz, acionista recebe
A política de dividendos revela ainda outra contradição. Quem mantém plataformas, refinarias, terminais e oleodutos funcionando são os trabalhadores da Petrobrás. São eles também que desenvolveram e operam a tecnologia que permitiu à companhia atingir uma produção superior a 3 milhões de barris de óleo equivalente por dia.
Apesar disso, os petroleiros não controlam o destino do resultado produzido por seu trabalho.
Uma parcela dos bilhões obtidos pela companhia é entregue a pessoas e instituições cujo vínculo com a Petrobrás consiste apenas na propriedade de ações.
Os recursos destinados ao enriquecimento desses investidores deveriam servir, entre outras coisas, para ampliar o quadro próprio da estatal, combater a terceirização, aumentar salários e melhorar as condições de trabalho.
A Petrobrás não foi criada para garantir renda a especuladores. Sua função deveria ser controlar uma riqueza estratégica do País e utilizá-la para desenvolver a economia brasileira.
Petróleo é questão de soberania
A disparada dos preços provocada pela guerra no Irã voltou a mostrar o caráter estratégico do petróleo. Uma crise militar no Oriente Médio teve efeito imediato sobre preços, custos e lucros das principais companhias do setor.
Controlar petróleo significa controlar uma das bases da economia moderna. Combustíveis interferem diretamente no transporte, na indústria, na agricultura, nos preços das mercadorias e na capacidade militar de um país.
O Brasil não apenas dispõe de grandes reservas como construiu uma empresa capaz de explorar petróleo em escala comparável à dos maiores monopólios internacionais.
Os US$ 16,6 bilhões de lucro em seis meses, a produção recorde de 3,34 milhões de barris de óleo equivalente por dia e a terceira colocação entre as companhias analisadas desmontam a propaganda de que a empresa estatal seria incapaz de competir com os grupos privados.
A Petrobrás não chegou a essa posição graças às privatizações. Chegou apesar delas.
O resultado deste semestre mostra quanto o País perde ao permitir que capitalistas se apropriem de uma parte dessa empresa e de seus lucros. O dinheiro que sai na forma de remuneração aos acionistas poderia ser utilizado para expandir a indústria petrolífera, aumentar o refino, desenvolver setores industriais ligados à Petrobrás e melhorar as condições dos trabalhadores.
Não basta interromper novas vendas de patrimônio. É preciso recuperar o que já foi privatizado e acabar com a participação dos capitalistas na indústria petrolífera.
Todo o petróleo brasileiro deve ser estatizado. A Petrobrás e o conjunto da exploração, produção, refino e distribuição devem ficar integralmente nas mãos do Estado, sob o controle dos trabalhadores.





