Durante o ato de lançamento de sua candidatura à Presidência da República e das candidaturas do Partido da Causa Operária (PCO) em São Paulo, Rui Costa Pimenta defendeu que o partido utilize as eleições de 2026 para desenvolver uma campanha de mobilização política dos trabalhadores.
Logo no início de sua intervenção, o presidente nacional do PCO afirmou que a principal questão que deveria estar presente na consciência dos militantes, candidatos e apoiadores era o combate àquilo que chamou de “ilusão eleitoral”.
“As eleições, nem agora, nem nunca, são um instrumento para mudar o país em que a gente vive, ou qualquer outro país. As eleições não vão mudar absolutamente nada.”
Pimenta apontou como uma manifestação dessa política a corrida por cargos e a política de alianças promovida pelo PT. Segundo ele, a justificativa apresentada pelos dirigentes petistas para alianças com setores que participaram do golpe de 2016 seria a necessidade de vencer as eleições para, posteriormente, transformar o País.
O dirigente contrapôs essa promessa à experiência dos governos petistas. Destacou que Lula disputa agora um quarto mandato depois de o PT já ter governado o Brasil durante quase duas décadas e afirmou que os principais problemas sociais existentes antes do primeiro governo petista continuam sem solução.
Como exemplo, mencionou a propaganda de que o atual governo teria retirado novamente o Brasil do mapa da fome. Para Pimenta, apresentar esse resultado como uma grande realização depois de tantos anos de governos petistas revela os limites da política adotada.
“Você coloca no poder um governo de esquerda para ele falar que ele conseguiu alimentar precariamente a população nacional. E isso no Brasil! Enquanto isso, os banqueiros se apropriam de metade do orçamento federal. Isso não é uma vitória, isso não é uma conquista dos trabalhadores, isso é uma derrota, é uma derrota política e é uma derrota social.”
Segundo Pimenta, a experiência dos governos do PT teria demonstrado sua incapacidade de romper com as imposições do imperialismo e dos grandes monopólios financeiros. Ele criticou especialmente a prioridade concedida ao equilíbrio fiscal e à criação de condições favoráveis aos investidores, enquanto a população continua enfrentando baixos salários, fome e precariedade.
O presidente do PCO afirmou que uma parcela muito grande da renda dos trabalhadores é absorvida por impostos enquanto, por meio do orçamento público e dos juros, enormes somas terminam nas mãos dos bancos. Para ele, essa situação demonstra o fracasso da tentativa de transformar o País respeitando as regras estabelecidas pela burguesia.
“Por isso, nós temos que tirar a conclusão, e nós temos que tirar a conclusão agora, de que a proposta formulada pela esquerda, pelo setor majoritário da esquerda nacional, que é o PT, de mudar o país de acordo com as regras do jogo impostas pela burguesia, se demonstrou um completo fracasso e um beco sem saída para o país e para o povo brasileiro.”
Pimenta afirmou que seria “vergonhoso” o PCO participar das eleições apresentando simplesmente um conjunto de promessas, como fazem, segundo ele, os demais partidos. Também rejeitou a ideia de substituir as promessas reformistas por um pacote de promessas aparentemente mais radicais.
O programa do Partido, explicou, não deve ser apresentado como aquilo que um eventual governo realizaria dentro das instituições existentes. Sua função é orientar a luta política da classe trabalhadora.
Nesse ponto, Pimenta citou uma discussão ocorrida entre setores da esquerda sobre o valor do salário mínimo. Criticou o argumento segundo o qual as reivindicações deveriam ser limitadas pelo que o capitalismo brasileiro seria capaz de pagar.
“As nossas propostas não são para recauchutar o sistema capitalista, o nosso programa é um programa de luta pelo governo operário, pelo governo dos trabalhadores e pelo socialismo, pelo comunismo. Esse é o nosso programa, é o programa da revolução proletária.”
O dirigente afirmou que o atual mandato de Lula teria tornado ainda mais evidente a falência da tentativa de conciliação com a burguesia. Como exemplo, lembrou uma declaração do ministro da Defesa, José Múcio, sobre a possibilidade de uma invasão norte-americana ao Brasil e criticou o fato de ele continuar no cargo.
Para Pimenta, experiências desse tipo estariam levando uma parcela da população a perceber que o eleitoralismo e o reformismo não oferecem uma saída para a crise do País.
“E se esse não é o caminho, nós temos que dizer claramente para as pessoas que o caminho é a revolução, que o caminho é a derrubada da burguesia.”
Ao analisar a disputa presidencial, Pimenta afirmou que o quadro político seria marcado pelo desânimo inclusive entre os próprios eleitores dos principais candidatos. Segundo ele, tanto entre apoiadores de Lula quanto entre eleitores de Flávio Bolsonaro predominaria menos uma expectativa positiva com seus candidatos do que o desejo de impedir a vitória do adversário.
Pimenta relatou ter sido abordado por pessoas que diziam que votariam apenas para retirar o PT do governo. Do outro lado, disse ouvir eleitores justificando o voto em Lula exclusivamente pela necessidade de impedir uma vitória de Bolsonaro.
Para o dirigente, a ausência de uma perspectiva política positiva também se manifesta no debate público, reduzido em grande medida a acusações mútuas de corrupção.
“Nós todos temos acesso às redes sociais, e se a gente for ver as redes sociais, é uma competição para ver quem é o candidato menos corrupto. O PT não tem nenhum programa, não apela para nenhum desejo da população de progredir; a grande crítica que eles têm ao Bolsonaro é que ele é corrupto.”
Segundo Pimenta, o atual quadro seria um “fim de festa” do regime político. A insatisfação e a sensação de ausência de saída presentes em uma parcela da população devem ser transformadas pelo PCO em consciência sobre a necessidade de uma luta revolucionária.
Outro ponto destacado no discurso foi o caráter antidemocrático das eleições brasileiras. Pimenta criticou o período extremamente curto da campanha eleitoral em um País com mais de 200 milhões de habitantes e dimensões continentais.
Segundo ele, a limitação torna os candidatos dependentes das grandes redes de televisão para alcançar nacionalmente a população. O problema seria agravado pelo controle privado sobre os debates eleitorais.
“Quando acontecer um debate, todo mundo tem que lembrar o seguinte: nós não estamos no debate não é porque há uma lei que proíbe a nossa participação no debate, é que quem escolhe os debatidores é a rede Globo, é o SBT, é a Record, eles que escolhem, eles que dizem quem são os candidatos.”
Pimenta citou a participação de Renan Santos nos debates como exemplo do caráter político dessa seleção. Segundo ele, a burguesia estaria tentando construir uma candidatura de terceira via e utiliza os meios de comunicação para interferir diretamente na disputa.
A campanha do PCO, afirmou, deveria denunciar essa estrutura ao mesmo tempo em que explica que a saída para os problemas nacionais não está nas próprias eleições.
“Nós queremos mostrar para o maior número possível de pessoas que nós temos que sair desse jogo de cartas marcadas, que a gente precisa botar o povo na rua, que nós precisamos mobilizar a população, que nós precisamos lutar com os meios próprios da população ao invés de delegar aos partidos que estão no Congresso Nacional, que não mandam nada no país, ou pior, delegar ao STF, que é um grupo de pessoas que ninguém elegeu, ou ao presidente da República, a resolução dos problemas que dizem respeito ao povo.”
Pimenta fez então um chamado para que militantes, filiados, candidatos, apoiadores e simpatizantes se envolvam diretamente com a campanha. A finalidade, ressaltou, não seria simplesmente eleger representantes, mas aproveitar o período eleitoral para realizar uma ampla agitação política.
O dirigente defendeu uma atuação especialmente intensa nas ruas, com conversas com a população e distribuição de materiais, além do trabalho na Internet e nas redes sociais.
“Não é um problema de eleger ninguém, porque nós não vamos eleger ninguém, é praticamente impossível; é um problema de travar uma luta política num momento em que o país todo estaria discutindo a política e o destino do país.”
Ao tratar das candidaturas lançadas pelo partido, Pimenta destacou ainda a presença de trabalhadores entre os candidatos do PCO. Citou Adriano Teixeira, candidato do partido ao governo do Paraná, que atualmente trabalha como pedreiro, e candidatos índios do Mato Grosso do Sul.
Segundo ele, essa composição revela uma característica do tipo de partido que o PCO busca construir.
“O PCO tem vários candidatos operários, será o único partido que tem candidatos operários. O companheiro Adriano, que é candidato ao governo do Paraná, é um operário. Não é que ele foi pedreiro, não é como o Lula, foi operário há 200 anos atrás, ele trabalha como pedreiro hoje em dia.”
Pimenta afirmou que o partido possui ainda outros candidatos populares e operários e chamou atenção para a importância política desse fato em contraste com as candidaturas apresentadas pelos demais partidos.
Na parte final do discurso, o presidente do PCO afirmou que a campanha eleitoral não poderia deixar em segundo plano a luta contra o massacre do povo palestino. Pimenta fez uma defesa explícita dos combatentes das Brigadas Al-Qassam e afirmou que o partido deveria defender a resistência palestina em todas as oportunidades abertas pela campanha.
“Finalmente, companheiros, nós não podemos durante a campanha esquecer por um minuto as pessoas mais importantes nesse momento do planeta Terra, que são os companheiros que de armas na mão estão defendendo em Gaza o povo palestino: os lutadores das Brigadas Al-Qassam.”
Pimenta também denunciou a perseguição política contra militantes e organizações que defendem a Palestina no Brasil. Recordou que integrantes do partido são alvo de processos relacionados a essa atuação e informou que está sendo organizado um comitê de perseguidos pelo sionismo.
Segundo ele, o uso da acusação de antissemitismo contra aqueles que denunciam os crimes cometidos contra os palestinos procura impedir a oposição política ao sionismo.
O dirigente também criticou a presença de apoiadores do sionismo dentro da própria esquerda e do PT, mencionando o senador Jaques Wagner e a assessora presidencial Clara Ant. Pimenta apoiou ainda a proposta apresentada pelo jornalista Breno Altman de que não sejam dados votos a candidatos que apoiem o sionismo ou permaneçam neutros diante do massacre em Gaza.
“A questão de Gaza é o maior, mais importante divisor de águas na política nacional e mundial que existe. Gaza oferece a radiografia dos políticos em geral: aqueles que se dizem revolucionários, que se dizem defensores dos oprimidos, ou que se dizem democratas e também defensores dos oprimidos, mas mantêm uma posição não apenas a favor do sionismo, mas até mesmo a posição ambígua, são cúmplices do que está acontecendo.”
Encerrando sua intervenção, Pimenta voltou aos dois pontos que apresentou como fundamentais para a campanha do PCO: combater a crença de que as eleições poderiam transformar o Brasil e colocar a luta palestina no centro da agitação política.
“O Brasil não vai mudar pela eleição, o PT demonstrou isso por um longo período de tentativas infrutíferas, e nós temos que colocar o problema da Palestina como uma questão central, e temos que defender um programa que expresse efetivamente os anseios da população trabalhadora e de todos que defendem os direitos do povo brasileiro de fato.”



