Durante o lançamento das candidaturas do Partido da Causa Operária (PCO), Victor Assis, candidato ao governo de Pernambuco, chamou atenção para um fenômeno que, segundo ele, aparece com nitidez nas eleições de 2026: a progressiva dissolução das diferenças políticas entre os partidos e a substituição dos programas próprios por acordos destinados simplesmente à conquista de cargos.
Assis começou estabelecendo uma distinção entre as candidaturas do PCO e aquelas apresentadas pelas demais legendas. Para ele, o partido não escolhe personalidades que posteriormente recebem uma sigla eleitoral, mas militantes cuja candidatura é apenas uma extensão da atividade política que já desenvolvem.
“Ao contrário de todos os outros partidos, aqui nós lançamos militantes candidatos. Antes de tudo, nós somos militantes.”
Assis disse perceber interesse pelo PCO inclusive fora de seu círculo habitual de apoiadores. Segundo ele, pessoas identificadas com a direita, com o bolsonarismo, com o petismo ou com o lulismo demonstram curiosidade ou simpatia por posições do partido porque reconhecem nele uma identidade política própria.
“Porque o nosso partido tem demonstrado ter uma personalidade, coisa que você não encontra em nenhum outro.”
A observação foi o ponto de partida para o principal argumento de sua intervenção. Para Assis, tornou-se difícil estabelecer diferenças programáticas claras entre grande parte das organizações que disputarão as eleições.
O dirigente citou UP, PCB e PSOL para questionar até que ponto seus programas aparecem de maneira efetivamente distinta diante da população. Assis relacionou essa perda de identidade a um levantamento realizado pelo Diário Causa Operária sobre as candidaturas aos governos estaduais definidas nas convenções partidárias.
Segundo os números citados por ele durante o ato, o PT teria lançado candidatos próprios a governador em 12 estados, enquanto o PSOL teria dez candidaturas.
Para Assis, a diminuição não é apenas um dado eleitoral. Ela expressa uma opção política: se o partido já não considera necessário defender independentemente um programa, também deixa de considerar indispensável apresentar um candidato próprio.
“A esquerda, em seu conjunto, ela desistiu de ter candidatura própria ao governo do Estado, porque na medida em que você não tem um programa, também não é importante ter a sua própria candidatura.”
O candidato chamou atenção especialmente para o PSOL, que, segundo ele, estaria avançando rapidamente na direção de se transformar em um apêndice do PT.
Em seguida, citou o PCB. Conforme os dados apresentados em sua intervenção, o partido lançaria candidatos ao governo em apenas quatro estados. Assis destacou particularmente Pernambuco, onde o PCB decidiu apoiar o PSOL apesar da ruptura recente que atingiu sua própria organização.
Para ele, o episódio sintetiza uma tendência mais ampla: divergências políticas importantes são abandonadas quando entram em cena os cálculos eleitorais.
“A política do pessoal é fazer qualquer coisa para ganhar um cargo, se aliar a qualquer um, apoiar o candidato do Kassab, do PSD, do MDB, fazer qualquer coisa para ver se consegue alguma coisinha ali e, nesse sentido, rifando os interesses da esmagadora maioria da população.”
Assis afirmou que esse processo não se restringe à esquerda. Partidos da direita que procuram construir para si uma imagem mais ideológica também apresentam um número reduzido de candidaturas próprias. Citou como exemplos o Novo e o partido ligado ao MBL.
Foi ao tratar de Pernambuco, porém, que Assis desenvolveu de forma mais concreta sua crítica. Segundo ele, o PT e o PCdoB perderam progressivamente sua independência no estado e passaram a atuar como organizações subordinadas ao PSB.
“O Partido dos Trabalhadores e o Partido Comunista do Brasil (PCdoB) eles se tornaram uma repartição do PSB.”
Assis caracterizou o PSB como uma espécie de continuidade do antigo PSDB com uma apresentação um pouco mais à esquerda. Recordou que o partido apoiou Aécio Neves e participou politicamente do processo que culminou no golpe de Estado de 2016.
Apesar desse histórico, destacou, o PT não apenas deixou de lançar candidatura própria ao governo pernambucano em sucessivas eleições, como passou a apoiar diretamente candidatos do PSB. O dirigente mencionou ainda a relação entre as duas legendas nas eleições municipais do Recife. Segundo Assis, a influência do prefeito João Campos teria chegado ao ponto de determinar inclusive nomes apresentados por partidos formalmente distintos de sua organização.
Para o pré-candidato, essa situação revela até onde pode chegar uma política baseada não na independência dos trabalhadores, mas no cálculo de quais alianças podem proporcionar vantagens eleitorais.
Ele também criticou o comportamento de candidatos petistas que buscaram associar sua imagem a João Campos na expectativa de melhorar seus resultados nas urnas. Assis contrapôs essa aproximação ao conteúdo da política desenvolvida pelo prefeito, a quem acusou de privatizar serviços e patrimônio do Recife.
Também mencionou Tabata Amaral, esposa de João Campos, classificando-a como uma representante política do sionismo e argumentando que esse conjunto de relações torna ainda mais contraditória a tentativa de apresentar o PSB como integrante natural de um campo político de esquerda.
“Não dá para ter nenhum tipo de compromisso com essa direita, com os aliados, com aqueles que a esquerda está escolhendo para ser aliados.”
Assis fez questão de afirmar que sua crítica não se limitava ao PT e aos partidos tradicionalmente associados à chamada esquerda institucional. Para ele, organizações que reivindicam uma política revolucionária acabam reproduzindo o mesmo método quando subordinam seu programa a alianças eleitorais ou ao apoio a setores do regime político.
O caso do PCB em Pernambuco foi novamente citado como exemplo dessa contradição.
“A esquerda que se diz revolucionária segue a mesma política vergonhosa. Está aí o caso que eu citei do PCB, correndo atrás do PSOL depois de ter levado aí uma das maiores traições políticas recentes.”
Assis também incluiu nesse balanço organizações como UP e PSTU, criticando o apoio dado por setores da esquerda ao Supremo Tribunal Federal e à política de censura.
Em sua avaliação, a defesa das medidas tomadas pelo STF contra a liberdade de expressão e outros direitos democráticos demonstra que a adaptação ao regime político vai muito além dos acordos formais de coligação.
No encerramento da intervenção, Assis retornou à diferença que havia estabelecido no início.
Segundo ele, o valor das candidaturas do PCO não estaria fundamentalmente na possibilidade de ocupar determinados cargos, mas na existência de uma política anterior e independente à própria eleição.
É justamente essa política, afirmou, que permite ao partido apresentar candidatos em diversos estados sem precisar adaptar seu programa aos interesses de legendas maiores ou abandonar suas posições em troca de composições eleitorais.
“Queria destacar este ângulo de que as candidaturas do PCO são candidaturas com personalidade, são candidaturas com programa próprio.”
Para Assis, a independência eleitoral é consequência da independência política. Um partido que possui um programa definido precisa utilizar as eleições para defendê-lo; quando esse programa desaparece, a candidatura própria deixa de ser uma necessidade e pode ser negociada em função de acordos circunstanciais.
Foi nesse sentido que resumiu o caráter que atribui às candidaturas lançadas pelo PCO: “são as únicas candidaturas que vão defender até as últimas consequências os interesses da população brasileira”.




