O presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO), Rui Costa Pimenta, afirmou nessa sexta-feira (7), durante sua entrevista semanal à TV247, que a ofensiva da imprensa contra Lula e Flávio Bolsonaro procura abrir caminho para uma candidatura da chamada terceira via, ligada diretamente aos interesses do grande capital.
A entrevista tratou ainda da falsa notícia sobre um suposto desarmamento do Hamas, da greve dos ferroviários contra a privatização da CPTM, da exclusão do PCO das pesquisas da Quaest, da política do Banco Central, da situação da Venezuela, da tentativa de bloqueio do Discord e da perseguição contra Neymar.
Ataque contra Lula e a terceira via
Ao comentar os inquéritos envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, Pimenta afirmou que não poderia avaliar o mérito das acusações sem conhecer os elementos da investigação. Chamou a atenção, porém, para o fato de a ofensiva ocorrer depois de um período em que os ataques da imprensa estavam concentrados sobre Flávio Bolsonaro.
“Independentemente de ser verdade ou não, nós temos que dizer que, depois da candidatura do Flávio Bolsonaro ter ficado sob fogo durante um período, agora a maior parte do fogo se voltou contra a candidatura do Lula. Evidentemente, nós estamos no meio de um ataque cerrado contra a candidatura do Lula. Apareceu o filho do Lula, o Marcola também apareceu. O que é curioso é que as mesmas fontes atacam o Lula e o Bolsonaro. São os mesmos que atacam um e atacam outro. Obviamente, isso é uma tentativa de catapultar uma candidatura da terceira via, que nesse momento teria que ser o Caiado, que é a pessoa que tem o maior aparato político e poderia se erguer.”
Para Pimenta, há quatro campos principais na disputa eleitoral: Flávio Bolsonaro, representando a direita; os candidatos da terceira via; o PT; e a extrema esquerda. O grande capital, ressaltou, não tem Lula nem Bolsonaro como seus candidatos preferenciais.
“Terceira via é o problema. O problema do Brasil é essa terceira via. Terceira via é o status quo. Terceira via é o grande capital. Banco Itaú, Rede Globo. São os poderosos do Brasil. Os poderosos não são nem o Lula, nem o Bolsonaro. São personagens secundários. O grande capital não está por detrás de nenhum dos dois. Logicamente, tanto Flávio Bolsonaro quanto Lula procuram atrair o grande capital, mas o grande capital visivelmente está na política da terceira via.”
Embora Ronaldo Caiado tenha atualmente uma votação reduzida nas pesquisas, Pimenta alertou para o aparato político existente por trás de sua candidatura. Citou como um dos sinais o fato de os principais partidos da direita tradicional e do chamado centrão não terem aderido a Flávio Bolsonaro.
Segundo sua avaliação, a manobra para colocar Caiado no segundo turno é difícil, mas não pode ser descartada justamente porque envolve forças muito maiores do que o próprio governador de Goiás.
“O problema do Caiado é que é complexo você rebaixar tanto o voto do bolsonarismo quanto do PT. Esses votos não são um evento acidental, ocasional. São forças já estabelecidas, constituídas. Agora, por que eu digo que deve se prestar atenção? Porque a imprensa está trabalhando com essa hipótese. E a imprensa não é simplesmente o dono do jornal, a imprensa é porta-voz de grandes setores da burguesia e do imperialismo também. O imperialismo gostaria que o Caiado fosse presidente. Se eles vão conseguir isso ou não é outra história.”
Pimenta também rejeitou a caracterização de Lula como candidato da terceira via. Embora considere que o petista realiza uma política de conciliação com o grande capital, avaliou que sua base social impõe limites a essa orientação.
“A burguesia gostaria de ter no governo uma pessoa que aplicasse a política que está sendo levada na Argentina pelo Milei, mas que não fosse o Bolsonaro. O Lula pode até levar adiante uma parte dessa política, mas ele vai ter muita dificuldade para fazer toda essa política. Por isso que ele não é candidato da terceira via. A base social dele aguenta a política de conciliação até certo ponto, mas não aceita totalmente a política de conciliação.”
Sobre a possibilidade de Lula não participar dos debates eleitorais, considerou que a ausência poderia fornecer mais munição para os ataques da imprensa e dos demais candidatos.
“E não só isso, o debate vai ser muito assistido. E os outros candidatos vão atacar duramente o Lula se ele faltar ao debate. Quer dizer, se pode ser ruim participar, pode ser muito ruim também não participar. Eu acho que o Lula tem que considerar essa possibilidade. Não sei se não comparecer ao debate é a melhor política para ele.”
‘Hamas não vai entregar as armas’
Pimenta contestou a campanha da imprensa segundo a qual o Hamas teria concordado em se desarmar. Explicou que o previsto no acordo é o recolhimento das armas pesadas sob responsabilidade de uma autoridade palestina independente, depois do cumprimento das demais cláusulas.
“Esse caso do suposto desarmamento do Hamas é mais uma proeza da grande imprensa capitalista. É totalmente falsa essa notícia. É uma notícia que visa a desmoralizar a luta da resistência palestina. O Hamas não se entregou com nada. No acordo original, existe uma cláusula onde o Hamas se compromete não a entregar as armas, mas a recolher as armas pesadas sob os cuidados de uma autoridade palestina independente. Não entregar as armas nem para o sionismo, nem para os norte-americanos, nada.”
Entre as condições mencionadas estão a retirada completa das forças sionistas de Gaza e a entrada da ajuda humanitária prevista no acordo.
“O Hamas só concordou em recolher as armas pesadas. Ele não vai se desarmar completamente, ele não concordou com isso. Eles vão se manter armados.”
Pimenta lembrou ainda que, durante a vigência do acordo, os sionistas realizaram mais de mil ataques contra Gaza. Apesar das limitações, considerou o acordo importante por ter proporcionado uma pausa tanto para a população palestina quanto para a resistência.
Banco Central executa ‘política dos banqueiros’
Ao comentar a redução de 0,25 ponto percentual promovida pelo Banco Central, Pimenta afirmou que a medida não representa uma mudança efetiva da política monetária.
“Isso aí não tem queda. Isso é mais uma política de aparência. Embora qualquer diminuição dos juros ou qualquer aumento dos juros tenha efeito sobre o mercado financeiro, isso é uma coisa de mera aparência. O Banco Central está numa política, que é a política dos banqueiros.”
Na avaliação do presidente do PCO, essa política mantém a economia em um patamar muito baixo e agrava a crise social.
Direção sindical ‘entregou’ greve da CPTM
Sobre a greve dos ferroviários da CPTM contra a privatização, Pimenta rejeitou a campanha da imprensa de que a reivindicação dos trabalhadores seria “descabida”.
“Os ferroviários entraram em greve contra a privatização. A greve era forte, a reivindicação não é descabida nada. Por que seria descabida? Você tem determinadas partes das ferrovias que não são privadas, por que não poderia ser estatal? A imprensa quer desmoralizar, dizer que é descabida, uma loucura. Não é nada disso.”
A principal crítica foi dirigida ao acordo que retirou a reivindicação contra a privatização e colocou em seu lugar a promessa de que trabalhadores atingidos pelas demissões seriam realocados no serviço público.
“Eles aceitaram um acordo onde retiraram da pauta a reivindicação contra a privatização e ficaram apenas com uma promessa de que, com a privatização, as pessoas que seriam demitidas seriam realocadas no serviço público. Uma promessa. Eu acho errado fazer isso, acho que ninguém deve abandonar a greve por causa de uma promessa. Acreditar na promessa do Tarcísio é absurdo. Quem garante que isso vai ser cumprido? Nada. Eles abandonaram a greve sem conseguir nada. Essa é a grande realidade. As direções sindicais capitularam.”
Para Pimenta, “a privatização é uma operação criminosa, é dar o serviço público para um particular ganhar dinheiro sem fazer esforço”.
Quaest exclui PCO novamente
Pimenta denunciou também a exclusão de sua candidatura das pesquisas realizadas pela Quaest. Segundo ele, o instituto deixou o PCO de fora em duas pesquisas consecutivas.
Integrantes do Partido entraram em contato com a empresa e receberam como justificativa a alegação de que o instituto não sabia que Pimenta era candidato.
“A Quaest é um instituto de pesquisa que é ligado à Rede Globo. Eles fizeram uma pesquisa e não colocaram o nosso nome, o que é absurdo. É uma coisa não só antidemocrática, como é um desserviço ao leitor. Eles têm que dar a informação de quem são os candidatos. Nós ligamos lá na Quaest. Eles falaram que não colocaram porque não sabiam que nós éramos candidatos, o que é totalmente absurdo, porque todo mundo sabe que nós somos candidatos. Aí teve uma segunda pesquisa e eles também não colocaram a gente.”
O presidente do PCO lembrou que aparece com pelo menos 1% dos votos nas pesquisas em que seu nome é apresentado. Comparou o resultado ao desempenho de candidatos como Caiado e Zema, que contam com o apoio de setores da burguesia.
“A insistência de ocultar o nosso nome mostra que há uma preocupação deles. Nós aparecemos em todas as pesquisas até agora com pelo menos 1% dos votos. Numa eleição de candidatos que são apoiados por setores da burguesia, como Caiado, Zema, que aparecem com quatro, a gente aparecer com um é bastante voto. Sendo que nós não temos apoio nenhum de nenhuma burguesia.”
A exclusão das candidaturas da esquerda dos principais debates eleitorais também foi apontada como parte da manipulação do processo eleitoral.
“Se você tem um debate, você tem um candidato, o eleitor teria todo o direito de conhecer os candidatos. Se você apresenta só quatro candidatos, você na verdade está procurando excluir os outros candidatos da eleição. Infelizmente, a grande imprensa ainda tem um poder muito grande na opinião pública, e é um poder que é usado sistematicamente para a manipulação da opinião pública.”
Venezuela: ‘foi uma capitulação’
Ao tratar da Venezuela, Pimenta contestou as declarações do governo norte-americano de que o país estaria sendo dirigido diretamente de Washington.
“Marco Rubio falou que ele dirige a Venezuela de Washington. Não é verdade isso. O governo da Venezuela fez um acordo com os Estados Unidos. É um acordo muito ruim. É um acordo capitulador. Mas fez um acordo. Marco Rubio não dirige o governo da Venezuela. É falso. Isso apresenta o governo como se fosse um governo títere dos Estados Unidos.”
Pimenta citou uma entrevista de Delcy Rodríguez segundo a qual, depois do sequestro de Nicolás Maduro e de sua esposa, os Estados Unidos ameaçaram realizar um bombardeio generalizado contra o país caso o governo venezuelano não aceitasse um acordo.
Na sua avaliação, a direção venezuelana errou ao ceder à chantagem e deveria ter considerado inclusive a possibilidade de a ameaça norte-americana ser um blefe. Rejeitou, porém, a tese de que toda a cúpula chavista teria traído Maduro.
“É difícil você dizer que foi uma traição. Eu acho que foi uma capitulação. Os norte-americanos colocaram o revólver na cabeça deles e decidiram que não dava para resistir. É uma capitulação.”
Bloqueio do Discord é ataque à liberdade
A iniciativa da Advocacia-Geral da União (AGU) de pedir o bloqueio do Discord no Brasil foi classificada por Pimenta como “profundamente antidemocrática”.
Para ele, crimes cometidos por usuários devem ser investigados individualmente, e não utilizados como justificativa para retirar uma plataforma inteira do ar.
“Se um cidadão comete um crime e publica isso na rede social, a polícia tem que ir atrás dele e abrir inquérito por esse crime. Agora, ficar proibindo plataformas inteiras porque supostamente pessoas cometeriam um crime é como se você proibisse a utilização das ruas de São Paulo porque todo dia nessas ruas se cometem crimes. Não faz sentido.”
“Acho que é um desserviço, é um ataque às liberdades democráticas”, completou.
‘Neymar tem direito de responder’
A entrevista terminou com uma discussão sobre a perseguição contra Neymar. Pimenta comentou a decisão da procuradoria de não levar adiante uma denúncia contra o jogador por uma discussão após a partida entre Santos e Remo.
“Me parece que o Neymar é uma das pessoas no Brasil que não tem o direito de responder nada. Ele teria que ouvir insultos e falar: ‘não, tudo bem, você está certo’. Ele é insultado o tempo todo por uma minoria. A maioria do País acha que ele é um grande jogador de futebol.”
Pimenta criticou especialmente setores da esquerda que utilizam a posição política do jogador como justificativa para atacá-lo.
“Eu não vou inventar história para fazer parte de um clubinho de esquerda. Isso é absurdo e eu digo que é absurdo. ‘Ah, mas o Neymar vota no Bolsonaro.’ Ele vota em quem ele quiser. É direito dele. Não é porque ele vota no Bolsonaro que eu tenho que contar mentira, tenho que agredir o cidadão. Não tem que levar isso em consideração porque é uma perseguição política indevida.”





