A convenção que oficializou, neste domingo (2), a candidatura de Lula a um quarto mandato presidencial apresentou a mesma composição de 2022, com o tucano Geraldo Alckmin de vice. A situação política, porém, mudou bastante.
Há quatro anos, Alckmin aparecia sobretudo como uma garantia oferecida à burguesia. Depois da prisão de Lula, da crise política provocada pelo governo de Jair Bolsonaro e da necessidade de reconstruir uma candidatura viável para o PT, a presença do antigo governador tucano servia para assegurar aos grandes capitalistas que um novo governo Lula não promoveria nenhuma ruptura.
Hoje, Alckmin já não ocupa essa posição quase simbólica. Passou quatro anos como vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, transformando-se num dos principais intermediários entre o governo e o empresariado. Ao seu redor, o PSB também ganhou outro peso.
A legenda incorporou setores vindos da antiga direita tucana e passou a abrigar figuras como Márcio França e Tabata Amaral. Deixou, portanto, de ser apenas um partido auxiliar da coalizão petista e tornou-se um dos polos de reorganização da direita tradicional dentro da chamada frente ampla.
A convenção mostrou essa mudança. Além de PSB, PCdoB, PV, PDT, PSOL e Rede, estavam presentes figuras como Simone Tebet, Marina Silva, Guilherme Boulos, Fernando Haddad e Aloizio Mercadante. A frente que em 2022 era apresentada como excepcional para derrotar Bolsonaro tornou-se a forma normal de organização política do PT.
Em São Paulo, Fernando Haddad encabeça uma aliança que reúne figuras execráveis da direita. Trata-se de uma chapa que dificilmente encontraria resistência entre setores que, poucos anos atrás, estavam organizados no PSDB e em outros partidos da direita.
No Rio de Janeiro, o PT se associou a Eduardo Paes. Em Pernambuco, tornou-se um puxadinho da Família Campos. Em outros estados, a orientação é semelhante: o partido abre mão de candidaturas próprias para apoiar representantes da burguesia local ou privilegia seus setores mais à direita.
No início do governo, ainda se falava em reindustrialização, retomada do investimento público e fortalecimento do BNDES. A condução econômica ficou, porém, cada vez mais concentrada em Fernando Haddad.
O governo aprovou um marco fiscal voltado para a contenção dos gastos públicos e manteve uma política de juros extremamente elevados. A substituição de Roberto Campos Neto por Gabriel Galípolo no Banco Central não produziu a mudança que o PT havia prometido durante anos.
O BNDES segue direcionando grandes volumes de recursos ao setor privado, enquanto o governo amplia concessões de rodovias, ferrovias, portos e outros setores da infraestrutura.
Ao mesmo tempo, o mercado financeiro já pressiona por uma nova rodada de cortes após a eleição. O crescimento da dívida pública é usado para exigir redução de despesas, reformas e novos ataques aos direitos sociais. Até uma nova reforma da Previdência voltou a ser apresentada como necessária.
A tendência, portanto, é que um eventual quarto governo Lula seja submetido a uma pressão ainda maior para aplicar uma política de ajuste.
Depois dos acontecimentos de 8 de janeiro de 2023, o PT aderiu completamente à política repressiva do Supremo Tribunal Federal. Censura, bloqueio de perfis, prisões arbitrárias e ampliação dos poderes do Judiciário passaram a ser apresentados como instrumentos legítimos de combate à extrema direita.
A mudança é importante porque não corresponde sequer à atuação dos governos anteriores do próprio PT. Mesmo quando aprovou leis repressivas, o partido procurou introduzir algumas salvaguardas formais. O Marco Civil da Internet e as ressalvas introduzidas na Lei Antiterrorismo são exemplos disso.
Nos últimos quatro anos, essa preocupação desapareceu quase por completo. A defesa das instituições passou a justificar o fortalecimento de mecanismos que, evidentemente, não permanecerão restritos ao combate ao bolsonarismo.
A mesma adaptação aparece na política internacional. Historicamente, os governos petistas procuraram manter certa margem de independência diante dos Estados Unidos e das potências europeias. Fortaleceram os BRICS, ampliaram relações com países pobres e mantiveram uma política moderadamente nacionalista em alguns assuntos.
No atual governo, essa orientação foi sendo subordinada à chamada defesa internacional da “democracia”. Governos imperialistas da Europa passaram a aparecer como aliados na luta contra o fascismo, apesar de serem responsáveis por guerras, sanções e agressões contra os povos oprimidos.
Esse processo ocorre num momento em que a própria direita tradicional se encontra em crise. O PSDB praticamente desapareceu como força nacional. O MDB perdeu grande parte do peso que possuía. As tentativas de construir uma terceira via não conseguiram superar a polarização entre Lula e o bolsonarismo.
Mesmo sem Jair Bolsonaro na disputa, Flávio Bolsonaro aparece como principal adversário do presidente. A ofensiva judicial contra o bolsonarismo não eliminou sua base política. Nesse vazio, o PT passa a incorporar uma parcela cada vez maior dos setores que antes estavam organizados nos partidos tradicionais da burguesia.
A chapa Lula-Alckmin de 2026, assim, não é uma simples repetição da eleição anterior. Em 2022, a presença de Alckmin servia para sinalizar moderação. Em 2026, ele representa um setor já instalado dentro do governo, ligado a um partido fortalecido e cercado por uma rede de alianças com a direita.





