Há 90 anos, em julho de 1936, começava a Guerra Civil Espanhola. No dia 17, tropas estacionadas no Marrocos espanhol iniciaram o golpe militar contra o governo da Frente Popular, eleito em fevereiro daquele ano. Sob a liderança do general Francisco Franco, os golpistas contavam com o apoio dos latifundiários, dos grandes empresários, da hierarquia da Igreja Católica e, posteriormente, dos regimes fascistas da Alemanha e da Itália.
A Frente Popular reunia partidos operários, como o Partido Comunista Espanhol (PCE) e o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), com os republicanos burgueses. O Partido Operário de Unificação Marxista (POUM) também integrou a coalizão, que recebeu apoio eleitoral de setores anarquistas.
A orientação apresentada aos trabalhadores era a de que a união com a burguesia republicana permitiria conter o fascismo por meio das eleições e da defesa das instituições democráticas. Poucos meses depois da vitória eleitoral, porém, os militares deram início ao golpe.
Enquanto a direita e o alto comando do Exército preparavam a derrubada do governo, este procurava preservar a legalidade republicana e evitar que a classe operária se armasse. No início da rebelião, chegou a minimizar a gravidade da situação e recusou a distribuição de armas à população.
Se a resistência tivesse dependido do governo, o golpe teria encontrado muito menos obstáculos.
Operários derrotam os golpistas
A tentativa de Franco não triunfou rapidamente porque os trabalhadores passaram por cima do governo e enfrentaram diretamente os militares.
Em Barcelona, milhares de operários tomaram as ruas em 19 de julho. Diante da recusa do governo catalão em fornecer armas, recorreram aos arsenais disponíveis e partiram para o combate. Cercaram as tropas, capturaram fuzis e canhões e, ao final do dia, haviam derrotado a sublevação na cidade. O general Manuel Goded, um dos principais dirigentes do golpe, foi preso.
A reação se espalhou. Em Madri, centenas de milhares foram às ruas exigir armas. Houve combates em Valência, Bilbao, Gijón, Málaga e outros centros. Marinheiros se rebelaram contra seus oficiais e assumiram o controle de parte importante da frota republicana.
Onde os trabalhadores se armaram e romperam com as determinações do governo, os golpistas foram derrotados. Onde prevaleceu a confiança nos oficiais considerados “leais” e nas instituições do Estado, os fascistas obtiveram vitórias importantes, como em Sevilla, Zaragoza e Oviedo.
Em poucos dias, fracassou o plano de uma tomada rápida do poder. A Espanha ficou dividida e o golpe deu lugar à guerra civil.
A resistência abriu, ao mesmo tempo, uma situação revolucionária. Surgiram milícias, comitês de fábrica e organismos operários. Trabalhadores e camponeses passaram a controlar fábricas, terras e setores inteiros da vida social.
O governo republicano continuava formalmente no poder, mas havia perdido grande parte de sua autoridade. Em várias regiões, o poder efetivo estava nas mãos das organizações operárias armadas.
A burguesia não derrotaria Franco
Os acontecimentos mostraram qual era a força capaz de enfrentar os fascistas.
Uma parcela importante da burguesia espanhola havia aderido diretamente ao golpe. Os republicanos que permaneceram ao lado da Frente Popular não dispunham de uma força social independente capaz de derrotar Franco. Seu papel passou a ser, sobretudo, preservar o velho Estado e conter a mobilização que havia impedido a vitória dos militares.
A revolução era uma arma contra o fascismo. A tomada das terras pelos camponeses, o controle operário das fábricas e a organização de um poder independente poderiam ampliar a mobilização popular e atingir inclusive os territórios dominados pelos golpistas.
Separar a guerra contra Franco da revolução significava, portanto, enfraquecer a própria luta militar.
Foi justamente essa a política adotada pelo estalinismo.
‘Primeiro a guerra, depois a revolução’
Com a União Soviética tornando-se o principal fornecedor de armas da República, Stálin ampliou sua influência sobre o governo e sobre a condução da guerra. O PCE tornou-se um dos instrumentos fundamentais dessa política.
A orientação foi sintetizada na fórmula: primeiro ganhar a guerra, depois fazer a revolução.
Na prática, isso significava preservar a aliança com a burguesia, reconstruir o aparelho estatal e destruir os organismos independentes surgidos das jornadas de julho.
As milícias deveriam ser dissolvidas ou incorporadas ao Exército regular. Os comitês operários deveriam desaparecer. As fábricas e terras ocupadas seriam novamente subordinadas às autoridades republicanas.
O stalinismo passou, assim, a atuar como uma força de reconstrução da ordem burguesa dentro da zona republicana.
A partir do governo de Francisco Largo Caballero, formado em setembro de 1936, avançaram a recomposição do Exército regular, a dissolução dos comitês e o fortalecimento do aparato estatal. Na Catalunha, também foi dissolvido o Comitê Central das Milícias Antifascistas.
O poder que quase havia escapado completamente das mãos do governo durante o levante operário de julho era reconstruído contra aqueles que haviam derrotado os golpistas.
A repressão stalinista
A política de contenção da revolução desembocou numa perseguição aberta aos setores que resistiam à orientação oficial.
Um dos principais alvos foi o POUM. O stalinismo passou a apresentar o partido como “trotskista” e, depois, como cúmplice do fascismo.
A acusação era falsa. O POUM não era trotskista. Leon Trótski havia rompido politicamente com seus dirigentes e criticava justamente sua participação na Frente Popular e no governo catalão.
A acusação serviu, no entanto, para justificar a repressão. Militantes foram presos, perseguidos e até retirados das frentes de batalha. Andreu Nin, principal dirigente do partido, foi sequestrado, torturado e assassinado pelo aparato ligado à polícia secreta soviética.
O escritor britânico George Orwell testemunhou diretamente esses acontecimentos. Ele havia ido voluntariamente à Espanha para combater Franco e ingressou nas milícias ligadas ao POUM. Ferido na frente da guerra, retornou e encontrou antigos combatentes sendo perseguidos pelas autoridades republicanas. A polícia revistou o local onde estava hospedado e Orwell precisou fugir do país para evitar a prisão.
A experiência seria posteriormente narrada em Homenagem à Catalunha.
A ofensiva contra a classe operária chegou a um ponto decisivo em maio de 1937. A tentativa do governo catalão de retirar dos trabalhadores o controle da central telefônica de Barcelona provocou uma nova insurreição. Durante vários dias, os operários dominaram a maior parte da cidade.
Mais uma vez, porém, suas próprias direções impediram que a mobilização avançasse para a tomada do poder. A CNT e o POUM defenderam o fim dos combates e a retirada das barricadas.
Na sequência, a repressão se intensificou. O POUM foi colocado na ilegalidade, seus dirigentes foram presos e milhares de militantes passaram a ser perseguidos.
O caminho para a vitória de Franco
Enquanto a revolução era reprimida na zona republicana, Franco recebia apoio militar direto de Hitler e Mussolini.
Alemanha e Itália forneceram armas, aviões, soldados e apoio logístico. França e Reino Unido, por sua vez, mantiveram a chamada política de “não intervenção”, que dificultava o armamento da República.
Era justamente nessas chamadas democracias que a direção republicana depositava suas esperanças de uma aliança internacional contra o fascismo. Esse apoio nunca veio.
Ao mesmo tempo, o poder conquistado pelos trabalhadores em julho de 1936 era desmontado. As milícias foram dissolvidas, os comitês destruídos e as conquistas operárias e camponesas revertidas.
Pretendia-se ganhar a guerra preservando a ordem burguesa. Para isso, foi destruída a força que havia derrotado os fascistas nos primeiros dias do levante.
Franco avançou.
Em janeiro de 1939, suas tropas entraram em Barcelona. Em 1º de abril, anunciou oficialmente a vitória. Cinco meses depois, a invasão da Polônia pela Alemanha nazista daria início à Segunda Guerra Mundial.
Franco permaneceu no poder até sua morte, em 1975.
Noventa anos depois, a Guerra Civil Espanhola permanece como uma demonstração das consequências da política de subordinação dos trabalhadores à burguesia na luta contra o fascismo.
A Frente Popular ganhou as eleições, mas isso não impediu o golpe. Os republicanos burgueses não derrotaram Franco. Foram os trabalhadores armados, agindo independentemente, que impediram a vitória imediata dos militares.
Quando essa força foi desarmada em nome da unidade com a burguesia e da preservação da República, abriu-se o caminho para a vitória fascista.
A política de aliança com a burguesia “democrática” não salvou a Espanha do fascismo. Ao sufocar a revolução que havia derrotado o golpe nos principais centros do país, preparou a vitória de Franco e quase quatro décadas de ditadura.





