As autoridades britânicas denunciaram 1.579 pessoas por participarem de manifestações contra o genocídio cometido por “Israel” na Faixa de Gaza. Os acusados foram enquadrados por segurarem cartazes com a frase “eu me oponho ao genocídio, eu apoio a Ação Palestina”, organização que o governo britânico colocou na lista de grupos considerados terroristas.
Os processos estavam marcados para serem analisados na quinta-feira (30), no Tribunal de Magistrados de Westminster, em Londres. O volume de casos, no entanto, provocou uma confusão no próprio Judiciário e as audiências acabaram transferidas para 26 de outubro.
Segundo o grupo Defend Our Juries, centenas de acusados não foram devidamente informados sobre o adiamento. Um dos comunicados judiciais obtidos pelo portal Middle East Eye dizia que o destinatário deveria comparecer ao tribunal em 30 de julho e, no mesmo documento, orientava-o a não ir. Quem apareceu em Westminster recebeu uma nova carta informando sobre a mudança de data.
A situação é resultado da utilização em massa da Lei de Terrorismo de 2000 contra os protestos em defesa da Palestina.
Mais de 3,5 mil presos
De acordo com o Defend Our Juries, mais de 3.500 pessoas já foram detidas com base na Seção 13 da lei por carregarem cartazes de apoio à Ação Palestina.
Entre os acusados estão idosos, religiosos e pessoas que participavam de uma manifestação política pela primeira vez. Esses processos são julgados sem júri e podem resultar em até seis meses de prisão.
O cerco também chegou às manifestações realizadas pela Internet. Nos últimos dois meses, 96 pessoas publicaram vídeos declarando apoio à Ação Palestina, algumas delas afirmando também fazer parte da organização.
Nesses casos, o enquadramento pode ocorrer pelas seções 11 e 12 da Lei de Terrorismo. As acusações são levadas a júri e podem resultar em penas de até 14 anos.
Oito dos autores dos vídeos já foram presos. Sete foram retirados de suas casas durante operações policiais realizadas de madrugada. Outras 14 pessoas foram detidas no dia 5 de julho diante da sede da Scotland Yard.
Dados do próprio Ministério do Interior citados pelo Defend Our Juries dão uma medida do alcance da campanha. No período de um ano encerrado em março de 2026, 92% das prisões por supostos crimes de terrorismo no Reino Unido estavam relacionadas a alegado apoio à Ação Palestina.
O perfil médio das pessoas detidas nesses casos também desmente qualquer tentativa de apresentar a operação como combate a uma ameaça terrorista: trata-se de uma mulher britânica branca de 59 anos.
Um porta-voz do Defend Our Juries questionou se o primeiro-ministro Andy Burnham pretende assumir politicamente a manutenção desse aparato, perguntando se ele quer ser conhecido por prender “aposentados, padres e a reverenda Sue Parfitt, de 84 anos, enquanto pessoas condenadas por crimes violentos são libertadas antecipadamente”.
Proibição é disputada nos tribunais
A própria classificação da Ação Palestina como organização terrorista segue em disputa.
Em fevereiro, o Tribunal Superior havia considerado a medida ilegal e desproporcional. Em 15 de junho, porém, o Tribunal de Apelação derrubou a decisão e declarou legítima a inclusão do grupo na lista.
Na mesma quinta-feira em que deveriam começar os processos contra os 1.579 manifestantes, a Suprema Corte decidiu que a Ação Palestina poderá recorrer contra a proibição.




