Política internacional

Crise em Ceuta: 60 mil marroquinos entram em ocupação espanhola

Travessia sem precedentes deixou pelo menos 57 mortos e levou ao envio de tropas

Entre a madrugada de quinta-feira (30) e a sexta-feira (31), cerca de 60 mil pessoas atravessaram a fronteira de Ceuta, território marroquino ocupado pela Espanha no norte da África. A maioria contornou a nado o espigão do Tarajal, que prolonga a barreira fronteiriça até o mar, ou saltou a cerca que separa a cidade do restante do Marrocos.

A estimativa de 60 mil entradas partiu das autoridades locais. O governo espanhol divulgou posteriormente uma cifra menor, de aproximadamente 50 mil. Os números ainda não foram consolidados, mas qualquer uma das duas contagens representa a maior travessia já registrada em Ceuta.

Em maio de 2021, quando ocorreu a última grande crise na cidade, pouco mais de oito mil pessoas conseguiram cruzar a fronteira. Entre 1º de janeiro e 15 de julho deste ano, o Ministério do Interior espanhol havia contabilizado apenas 2.826 entradas irregulares por terra em todo o país.

Ceuta tem cerca de 20 quilômetros quadrados e 85 mil habitantes. Em menos de dois dias, portanto, recebeu um contingente equivalente a mais da metade de sua população.

A maioria dos migrantes era formada por jovens marroquinos. Também havia argelinos e pessoas originárias de países da África Subsaariana. O governo local declarou “emergência humanitária e social absoluta” e solicitou o envio de tropas. Madri mobilizou unidades do Exército de Terra para apoiar a Guarda Civil e a Polícia Nacional.

Pelo menos 57 mortos

A delegação do governo espanhol em Ceuta informou que 57 cadáveres foram recuperados na costa. No decorrer da sexta-feira, órgãos de imprensa divulgaram contagens provisórias de nove, 18, 34, 41 e 43 mortos. A cifra mais recente fornecida pelas autoridades é de 57, mas ainda pode aumentar.

Com essas mortes, chegou a 87 o número de migrantes que morreram em 2026 tentando alcançar Ceuta pelo mar. Durante todo o ano de 2025, foram registradas 46 vítimas.

Ao fim da sexta-feira, o Ministério do Interior informou que quase todos os migrantes haviam regressado ao Marrocos. A primeira contagem oficial foi de 48.300 retornos. Outras estimativas divulgadas depois se aproximaram de 53 mil, o que reforça a divergência entre as cifras apresentadas pelas autoridades locais e pelo governo central.

Segundo o ministro do Interior, Fernando Grande-Marlaska, as “devoluções” chegaram a ocorrer a um ritmo de 150 pessoas por minuto. Centenas atravessaram os postos fronteiriços ou utilizaram aberturas na cerca para voltar. Algumas disseram à imprensa que não encontraram comida nem abrigo em Ceuta.

A Espanha anunciou um acordo operacional com o Marrocos para acelerar os retornos. O governo marroquino, entretanto, não divulgou uma contagem própria nem apresentou uma explicação pública detalhada sobre o que ocorreu na fronteira.

Sánchez responsabiliza traficantes

O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, atribuiu a travessia a redes de tráfico de pessoas que teriam explorado uma decisão recente do Supremo Tribunal da Espanha.

A sentença, publicada em 8 de julho, determinou que migrantes chegados por via marítima não podem ser devolvidos automaticamente ao Marrocos. Cada caso precisa ser examinado individualmente antes da expulsão.

Segundo Sánchez, traficantes divulgaram a informação de que a fronteira espanhola estaria aberta e que seria possível entrar no território sem documentos. Mensagens com esse conteúdo circularam pelos telefones e pelas redes sociais nas horas anteriores à travessia.

Uma mulher afirmou à imprensa ter decidido ir a Ceuta depois de receber no celular um aviso sobre a suposta abertura da fronteira. Sánchez declarou que o boato “se espalhou como fogo”.

A decisão judicial também passou a ser associada, nas redes sociais, à regularização em massa de migrantes promovida pelo governo espanhol. Nenhuma das duas medidas, entretanto, autorizava a entrada sem controle pela fronteira de Ceuta.

A mobilização ocorreu em 30 de julho, quando o Marrocos celebra a Festa do Trono, aniversário da ascensão de Mohammed VI, em 1999. Não foi apresentada prova de que a escolha da data tenha resultado de uma ação organizada por qualquer governo.

Ceuta acusa Espanha de demora

Sánchez viajou a Ceuta na sexta-feira e classificou a travessia como “um ataque” e uma “violação da soberania territorial da Espanha”. Também voltou a acusar as organizações que traficam pessoas.

O presidente do governo local, Juan Jesús Vivas, declarou que a situação era “insustentável” e acusou Madri de atender “de forma tardia e ineficiente” ao pedido de envio do exército.

A Assembleia de Ceuta aprovou por unanimidade, inclusive com os votos do Partido Socialista Operário Espanhol, uma resolução exigindo a declaração de emergência nacional, a criação de um comando único e o fechamento temporário da fronteira.

Sánchez rejeitou a medida. O governo central argumentou que a legislação espanhola de proteção civil não inclui fluxos migratórios entre os riscos que permitem declarar uma emergência nacional.

O dirigente do Partido Popular, Alberto Núñez Feijóo, qualificou a situação como “desesperada”. Ele acusou o governo de ignorar uma crise de “segurança nacional” e pediu a aplicação do artigo 23 da Lei de Segurança Nacional, o fechamento das fronteiras e uma mobilização militar mais ampla.

O ministro das Relações Exteriores, José Manuel Albares, afirmou que a integridade do Espaço Schengen permanecia garantida. Segundo ele, não é possível viajar de Ceuta ou Melilla até a Península Ibérica sem passar por controle policial e apresentar documentos.

União Europeia ameaça punir a Espanha

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, chamou as imagens das travessias de “inaceitáveis”. Ela exigiu o bloqueio das rotas, o desmantelamento das redes de contrabando e a rápida devolução dos migrantes.

A Comissão designou Magnus Brunner, responsável por Interior e Migração, e Dubravka Šuica, encarregada das relações com o Mediterrâneo, para acompanhar o caso. Brunner afirmou que nenhuma pessoa que entrou em Ceuta conseguiu alcançar o território continental da União Europeia.

Apesar disso, vários governos europeus passaram a pedir medidas contra a própria Espanha. A primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, declarou que a imigração irregular representava uma ameaça às fronteiras europeias. A Itália suspendeu temporariamente a livre circulação com a Espanha.

A primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, defendeu que a União Europeia avaliasse a suspensão espanhola do Espaço Schengen. A França reforçou os controles e enviou mais policiais e gendarmes à fronteira.

Itália, Finlândia, Dinamarca, Suécia, República Tcheca, Áustria e França foram citadas entre as defensoras de restrições contra Madri. O primeiro-ministro tcheco, Andrej Babiš, atribuiu o episódio à política espanhola de regularização e declarou: “estão substituindo espanhóis por migrantes”.

Sánchez respondeu divulgando os números de entradas irregulares na União Europeia entre 2021 e 2026. De acordo com os dados apresentados por ele, a Itália recebeu 478 mil pessoas, seguida pela rota dos Bálcãs Ocidentais, pela Grécia e somente depois pela Espanha.

“Não é hora de dividir. É hora de continuar construindo uma UE forte e unida”, escreveu Sánchez. Em outra publicação, afirmou que “a solidariedade e a empatia são opcionais; o respeito aos tratados europeus e aos dados, não”.

A presidência irlandesa do Conselho da União Europeia convocou para sábado uma reunião do Mecanismo Integrado de Resposta Política a Crises.

Suspeitas sobre o papel do Marrocos

Parte da imprensa espanhola e argelina levantou a possibilidade de que as autoridades marroquinas tenham permitido ou facilitado temporariamente as travessias.

Nas últimas horas da sexta-feira, as forças marroquinas reforçaram os controles e passaram a colaborar com o retorno dos migrantes. Uma fonte espanhola, no entanto, afirmou que a passagem havia ocorrido com o consentimento das autoridades do país vizinho.

O precedente citado por quem acusa o Marrocos ocorreu em 2021. Naquele ano, mais de oito mil pessoas entraram em Ceuta após um aparente afrouxamento dos controles marroquinos.

A crise coincidiu com o conflito diplomático provocado pelo atendimento médico dado pela Espanha a Brahim Ghali, dirigente da Frente Polisário, organização que luta pela independência do Saara Ocidental. O então ministro espanhol da Defesa classificou a atuação marroquina como uma “chantagem”.

A atual travessia ocorreu 10 dias depois de Sánchez visitar a Argélia, principal rival regional do Marrocos e apoiadora da Frente Polisário. Parte da imprensa relacionou a pressão na fronteira à reaproximação entre Madri e Argel, mas nenhum dos governos confirmou essa interpretação.

Jornais marroquinos voltaram a apresentar Ceuta e Melilla como uma questão de soberania nacional. O Marrocos reivindica os dois territórios desde sua independência, em 1956.

Ceuta e Melilla estão na costa norte da África e são as únicas fronteiras terrestres da União Europeia no continente. Apesar disso, permanecem ocupadas pela Espanha, que se recusa a discutir sua devolução ao Marrocos.

Declaração israelense aumenta especulações

As acusações contra “Israel” ganharam força depois de uma declaração do embaixador sionista na Organização das Nações Unidas, Danny Danon.

Ele afirmou que a Espanha, que “nunca perde a oportunidade de dar lições a Israel”, deveria explicar por que mantém “enclaves coloniais na África”. O ministro espanhol dos Transportes, Óscar Puente, compartilhou a publicação e escreveu: “bem, as coisas começam a ficar bastante claras”.

Puente não explicou a que se referia. Nenhuma autoridade espanhola apresentou provas de participação israelense na organização das travessias.

Comentaristas interpretaram a publicação como uma ameaça contra o governo espanhol devido ao reconhecimento do Estado palestino e às críticas de Madri ao massacre na Faixa de Gaza. Essa interpretação permanece no campo da especulação.

Nos meses anteriores, analistas ligados a organizações favoráveis a “Israel” haviam defendido que o Estado sionista ajudasse o Marrocos a assumir o controle de Ceuta como punição à política espanhola para a Palestina.

Em março de 2026, Michael Rubin, do Instituto Empresarial Americano e do Fórum do Oriente Médio, pediu ao governo Donald Trump que reconhecesse Ceuta e Melilla como territórios marroquinos ocupados. Em 2019, Yair Netaniahu, filho do primeiro-ministro sionista, conclamou árabes e muçulmanos a “libertar Ceuta”.

Marrocos e “Israel” assinaram em 2021 um acordo de defesa que inclui cooperação de inteligência, compras militares e desenvolvimento da indústria bélica. Drones e outras armas israelenses passaram a integrar o programa de modernização das Forças Armadas marroquinas.

Essas relações são utilizadas pelos defensores da tese de uma ação articulada, mas não comprovam que o Estado sionista tenha participado da mobilização na fronteira.

Estados Unidos atacam governo espanhol

O governo norte-americano reconheceu a soberania marroquina sobre o Saara Ocidental em dezembro de 2020. “Israel” tomou a mesma decisão em julho de 2023, seguido pela França em julho de 2024.

Nos Estados Unidos, Donald Trump utilizou as imagens de Ceuta para atacar os democratas. “Lembrem-se dessa imagem. Isso vai ser a gente em três anos se o lado errado entrar”, declarou.

A Casa Branca responsabilizou as “políticas globalistas de extrema-esquerda”. O Departamento de Estado culpou o governo espanhol, enquanto a Embaixada dos Estados Unidos em Madri recomendou que cidadãos norte-americanos não viajassem a Ceuta e Melilla.

Stephen Miller, assessor de Trump, publicou vídeos da travessia para atacar os democratas. A porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, também usou as imagens para afirmar que uma vitória democrata levaria à reabertura da fronteira norte-americana.

Washington e Madri mantêm ainda uma disputa sobre os gastos militares. O governo espanhol rejeita a exigência de Trump de que os países da Organização do Tratado do Atlântico Norte destinem 5% do Produto Interno Bruto à defesa.

Comentaristas relacionaram esse conflito às críticas norte-americanas contra Sánchez. O governo dos Estados Unidos, porém, não foi acusado formalmente por nenhuma investigação de organizar ou apoiar a travessia.

Migração mata milhares todos os anos

A corrida para Ceuta ocorreu dentro de um movimento migratório permanente entre a África e a Europa. Os números mostram que o problema não começou com o boato sobre a sentença espanhola nem depende de uma operação organizada por um governo.

Segundo a Organização Internacional para as Migrações, 2024 foi o ano mais mortal já registrado nas rotas migratórias. Mais de 8.700 pessoas morreram, embora outras contagens da própria organização aproximem o total de 9.200.

Em 2025, cerca de 8 mil pessoas morreram ou desapareceram durante deslocamentos migratórios. Aproximadamente 3.400 morreram nas rotas marítimas para a Europa, entre elas 1.330 no Mediterrâneo Central e mais de 1.200 na rota atlântica entre a África Ocidental e as Ilhas Canárias.

A organização Caminando Fronteras calcula que uma em cada cinco pessoas que tentou chegar às Canárias em 2024 morreu durante a travessia.

Enquanto as guerras, a pobreza e a destruição econômica empurram milhões de pessoas para fora de seus países, a União Europeia concentra recursos no bloqueio das fronteiras.

Entre 2014 e 2022, o bloco transferiu 2,1 bilhões de euros ao Marrocos para o controle migratório. Somente em 2019, a Espanha e a União Europeia entregaram mais de 460 milhões de euros às autoridades marroquinas, além de equipamentos e treinamento para a interceptação de embarcações.

A União Europeia destinou outros 900 milhões de euros ao reforço da vigilância e da repressão nas fronteiras da região. Entre 2016 e 2023, pagou 9 bilhões de euros à Turquia para impedir a passagem de migrantes. Um acordo semelhante com a Mauritânia superou 500 milhões de euros.

A Comissão Europeia propôs ainda elevar para 81 bilhões de euros os recursos destinados à migração, às fronteiras e à segurança entre 2028 e 2034.

Esses gastos não eliminaram as travessias. Ao dificultar as rotas regulares, obrigaram migrantes a percorrer caminhos marítimos mais longos e perigosos ou a recorrer a traficantes.

No caso de Ceuta, o governo espanhol responsabiliza essas redes pela difusão do boato sobre a abertura da fronteira. O precedente de 2021 sustenta as acusações contra Rabat. As suspeitas sobre “Israel” e os Estados Unidos apoiam-se em declarações políticas, relações militares e conflitos diplomáticos, mas nenhuma prova de uma operação coordenada foi apresentada.

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