O governo alemão prepara medidas secretas para impedir que autoridades regionais dificultem o transporte de tropas da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) até a fronteira da Rússia. A informação foi divulgada pela RT com base em uma investigação conjunta dos jornais britânico The Telegraph e alemão Die Welt.
Berlim pretende criar mecanismos para passar por cima dos governos estaduais caso algum deles negue licenças, escoltas policiais ou acesso prioritário às rodovias utilizadas pelos comboios militares. As medidas estão sendo discutidas porque o deslocamento dos soldados poderia começar antes de uma declaração formal de guerra, período em que os estados ainda possuem amplos poderes sobre as atividades realizadas em seus territórios.
A preocupação do chanceler Friedrich Merz está concentrada principalmente na Saxônia-Anhalt e em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, onde a Alternativa para a Alemanha (AfD) lidera as pesquisas para as próximas eleições regionais.
Na Saxônia-Anhalt, o partido aparece com 41% das intenções de voto, contra 24% da União Democrata-Cristã (CDU), de Merz. Em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, a AfD registra 36%, sete pontos acima do Partido Social-Democrata.
Apesar de ser um partido de direita, a AfD sofre perseguição política por criticar as sanções contra Moscou e a política adotada por Berlim na guerra da Ucrânia, alegando que ambas prejudicam a economia alemã. O ministro da Defesa, Boris Pistorius, acusa a organização de manter relações “inegáveis” com a Rússia e defende que seus integrantes sejam privados de informações sigilosas caso assumam governos estaduais.
O The Telegraph chamou os estados que poderiam se opor à operação de “estados traidores pró-Crêmlin”. A expressão mostra que qualquer resistência ao envolvimento direto da Alemanha numa guerra está sendo tratada como uma ameaça à segurança nacional.
Corredor para 800 mil soldados
A Alemanha ocupa uma posição central na Rede de Reforço e Sustentação da OTAN, criada para transportar soldados, armas, munições e equipamentos pesados aos países do Leste Europeu e do Báltico.
O comandante do Comando Conjunto de Operações da Alemanha, tenente-general Alexander Sollfrank, declarou em 2025 que o país poderia conduzir até 800 mil militares da OTAN em direção à Rússia em menos de seis meses.
A operação não dependeria de um ataque russo. Segundo o The Telegraph, o mecanismo poderia ser acionado diante do primeiro informe de algum serviço de inteligência ocidental de que Moscou estaria preparando uma agressão.
Essa condição permite que a OTAN inicie uma mobilização de enormes proporções sem apresentar qualquer prova pública. Bastaria que uma agência de espionagem dos Estados Unidos, da Alemanha ou de outro membro da aliança alegasse ter identificado uma movimentação suspeita.
Durante o período de paz, no entanto, os governos estaduais poderiam atrasar os comboios por meio de exigências administrativas. Poderiam negar autorizações, recusar escoltas policiais ou impedir a concessão de prioridade aos veículos militares nas estradas.
O governo Merz também prevê protestos da população contra a transformação das cidades alemãs em bases logísticas de uma guerra que colocaria o próprio país sob a ameaça de ataques.
“O problema central é como contornar um estado que não adere à ideia federal sem violar a Constituição”, declarou Roderich Kiesewetter, deputado da CDU, aos dois jornais.
A declaração resume o caráter do plano: Berlim procura uma maneira de ignorar governos eleitos sem admitir formalmente que está violando a Constituição. É um claro fechamento do regime político e esboço de uma ditadura para garantir os interesses guerristas do imperialismo alemão.
Tobias Krull, vice-presidente da Comissão de Assuntos Internos do Parlamento da Saxônia-Anhalt, confirmou que já estão sendo criados instrumentos para anular decisões estaduais. As normas nacionais de emergência também estão sendo revistas.
A Lei Fundamental alemã permite a chamada “execução federal” quando um estado deixa de cumprir uma obrigação determinada pelo governo central. Esse dispositivo nunca foi utilizado.
Outra possibilidade seria decretar estado de emergência ou lei marcial, ampliando os poderes de Berlim sobre os estados. A medida exigiria uma maioria de dois terços no Parlamento, difícil de alcançar diante da quantidade de cadeiras controladas pela AfD e pelo partido A Esquerda.
Orçamento de guerra bate recorde
A preparação logística acompanha o maior aumento dos gastos militares alemães desde a criação da República Federal, em 1949.
O orçamento de defesa de 2026 chegou a 108,2 bilhões de euros. São 82,69 bilhões no orçamento regular e outros 25,51 bilhões retirados do fundo especial da Bundeswehr, criado em 2022. O valor supera em mais de 20 bilhões de euros as despesas de 2025.
Até 2029, o orçamento regular deverá passar de 150 bilhões de euros. Incluindo transportes, pesquisas, infraestrutura e outros setores classificados como relacionados à defesa, aproximadamente 5% do Produto Interno Bruto alemão será empregado em fins militares. O total poderá chegar a 215 bilhões de euros por ano.
Em maio de 2025, Merz declarou que pretendia construir “o Exército convencional mais forte da Europa”. A frase revela as ambições do imperialismo alemão, que procura voltar a exercer uma influência militar decisiva sobre o continente.
Em abril de 2026, Pistorius apresentou a estratégia chamada Responsabilidade pela Europa. O documento define a Rússia como a “maior ameaça imediata à paz e à segurança” e prevê uma força de pelo menos 460 mil militares alemães.
A meta é elevar o contingente da ativa de cerca de 180 mil para 260 mil soldados. O número de reservistas deverá crescer de 70 mil para pelo menos 200 mil até 2035. A Bundeswehr deverá estar “pronta para a guerra” até 2039.
O aumento dos efetivos não é uma medida defensiva isolada. Ele ocorre junto da preparação das estradas, dos portos, das ferrovias e dos governos locais para uma mobilização de centenas de milhares de soldados para invadir a Rússia.
Indústria bélica funciona 24 horas
O dinheiro público destinado à guerra alimenta a reconstrução acelerada da indústria bélica alemã.
A Rheinmetall aumentou sua produção anual de projéteis de artilharia de aproximadamente 70 mil para 1,1 milhão de unidades. Trata-se de uma expansão de mais de 15 vezes. A fabricação de munição de calibre médio também foi quadruplicada.
A partir de 2027, a rede mundial da empresa deverá produzir cerca de 1,5 milhão de projéteis de artilharia por ano. Seu presidente, Armin Papperger, afirmou que a Alemanha já fabrica mais munição do que os Estados Unidos.
Na Baviera, a Rheinmetall iniciou a construção de uma das maiores fábricas de pólvora da Europa. O complexo de Aschau am Inn está sendo ampliado de cerca de 90 para 110 hectares.
A fábrica funciona 24 horas por dia e produz atualmente 1.700 toneladas de pólvora e aproximadamente 300 mil módulos de propelente por ano. A empresa espera mais do que dobrar esses números nos próximos dois anos.
A burguesia alemã está reconstruindo uma indústria voltada para a guerra em grande escala. Enquanto a população sofre com a inflação, a perda de empregos industriais e o encarecimento da energia, centenas de bilhões de euros são entregues às fabricantes de armas.
Alistamento volta depois de 15 anos
A Alemanha também mudou suas regras de serviço militar. Uma nova lei entrou em vigor em 1º de janeiro de 2026, retomando o alistamento e exigindo que os jovens passem por exames médicos.
O serviço militar obrigatório havia sido suspenso em 2011. Sua retomada busca fornecer o efetivo exigido pela expansão da Bundeswehr.
Para convencer a juventude a servir ao Exército e aceitar o aumento dos gastos militares, o governo mantém uma campanha permanente sobre uma suposta invasão russa.
Pistorius declarou que Moscou poderia atacar um integrante da OTAN “já em 2028”. O inspetor-geral da Bundeswehr, Carsten Breuer, marcou outro prazo. Segundo ele, a Rússia teria condições de realizar “um ataque convencional em larga escala, inclusive em território da OTAN, até 2029”.
Breuer afirmou ainda que o presidente Vladimir Putin pretende “enfraquecer e destruir a OTAN como aliança e desacreditar nossa forma ocidental de sociedade”.
As acusações são repetidas diariamente pela imprensa capitalista, embora não sejam acompanhadas de provas. O governo russo, por sua vez, afirma que não pretende atacar nenhum país da OTAN, a menos que a própria Rússia seja atacada primeiro. Mas, mesmo que a Rússia atacasse primeiro, como fez na guerra por procuração da OTAN através da Ucrânia, seria apenas uma autodefesa da Rússia, um país oprimido pelo imperialismo, que é o verdadeiro agressor, pois asfixia economicamente, cerca militarmente e suga da maneira que pode o produto do trabalho do povo russo.
A campanha antirrussa, no entanto, já produz o resultado desejado pela burguesia alemã. Pesquisas mostram que a maioria da população alemã, sobretudo da pequena burguesia, passou a temer uma invasão russa contra outros países europeus. Esse medo é utilizado para justificar o alistamento, o crescimento da Bundeswehr, os lucros da indústria bélica e a preparação do território para uma guerra.
O governo “democrático” de Merz
Friedrich Merz é apresentado pela imprensa como representante de uma Alemanha democrática, moderada e civilizada. Na prática, seu governo restabelece o alistamento, amplia o Exército, entrega centenas de bilhões de euros às empresas de armamentos e procura meios de anular decisões de governos regionais, centralizando poderes nas mãos do Executivo.
A CDU é um partido de direita ligado aos bancos, aos monopólios industriais e ao imperialismo alemão. A campanha contra a AfD não transforma Merz em democrata. Seu governo usa o crescimento da extrema direita como desculpa para reforçar o poder do Estado e retirar obstáculos à política de guerra.
Ao prometer o Exército mais poderoso da Europa, Merz retoma as pretensões expansionistas da burguesia alemã. O objetivo é ampliar a influência de Berlim no continente, em particular sobre o Leste Europeu, agora sob a cobertura da OTAN e em associação com os Estados Unidos.
Não se trata de um simples reforço defensivo. Um país que prepara o transporte de 800 mil soldados, reconstrói fábricas de pólvora, mobiliza centenas de milhares de reservistas e procura suspender poderes regionais está se preparando para uma guerra de grandes proporções.
A agressão contra a Rússia não começou agora. Há mais de dez anos, os Estados Unidos e as potências europeias cercam o país por meio da expansão da OTAN, do golpe de 2014 na Ucrânia, do armamento do regime de Quieve, das sanções econômicas e da guerra contra a população do Donbas.
Essa ofensiva faz parte da política geral do imperialismo contra os povos oprimidos. Seus principais alvos são China, Rússia e Irã, países cujos governos se recusam a entregar sua soberania, suas riquezas e sua política externa ao controle das grandes potências.
O governo Merz prepara a Alemanha para participar diretamente dessa guerra. Por trás do discurso sobre democracia, segurança e defesa da Europa, a burguesia alemã volta a armar o país para impor seus interesses pela força.





