O PT procura firmar alianças estaduais com candidatos do PSD, MDB, PP e outros partidos da direita. Em troca do apoio a esses nomes para os governos estaduais, a direção petista espera receber palanques regionais e votos para a reeleição do presidente Lula.
A operação é apresentada como uma demonstração de habilidade eleitoral. O PT abriria mão de candidaturas próprias nos estados, apoiaria políticos da direita e, em troca, formaria uma ampla coligação presidencial. Resta saber por que esses partidos teriam interesse em fortalecer Lula e permitir um governo petista com maior liberdade de ação.
PSD, MDB, PP e seus aliados representam setores importantes da burguesia. Impulsionam o golpe de 2016, sustentaram o governo de Jair Bolsonaro no Congresso Nacional e estiveram envolvidos em todas as ofensivas contra os direitos dos trabalhadores nos últimos anos. Quando apoiam Lula, fazem isso para controlar o governo, obter ministérios, verbas e cargos e impedir qualquer medida que atinja os interesses dos grandes capitalistas.
A experiência do atual mandato já demonstrou o valor dessas alianças. Os partidos da direita ocuparam espaço no governo, controlaram parte decisiva do Congresso e sabotaram inúmeras medidas apresentadas pelo Executivo. Impuseram derrotas, reduziram projetos, pressionaram pela manutenção da política econômica e impediram que o voto dado a Lula se transformasse em reformas a favor do povo pobre.
Apesar disso, a direção do PT pretende entregar ainda mais poder a esses partidos. Em vez de organizar uma campanha própria nos estados, procura integrar-se às combinações eleitorais da direita na esperança de que governadores, prefeitos e os piores pistoleiros do País façam campanha por Lula.
O problema aparece na própria natureza do acordo. O PT entrega uma candidatura estadual concreta. Cede seu tempo eleitoral, sua organização, seus militantes e sua força entre os trabalhadores para eleger um político da direita. A contrapartida prometida é um apoio presidencial frágil e extremamente limitado.
Essa bandidagem não possui qualquer compromisso com Lula. Suas direções procuram ficar próximas de todos os candidatos com possibilidades de vitória, negociar com lados diferentes e decidir seu apoio de acordo com as conveniências de cada estado. Um candidato do PSD, MDB ou PP pode aceitar o apoio petista e, ao mesmo tempo, permitir que seus aliados façam campanha para a direita na eleição presidencial.
Mesmo quando declaram apoio a Lula, esses políticos procuram retirar da campanha qualquer conteúdo popular. Querem o presidente separado dos sindicatos, das organizações populares e das reivindicações dos trabalhadores – embora o próprio Lula faça questão de se distanciar de sua base histórica.
O PT fica, assim, dependente dos piores inimigos dos trabalhadores. A direção partidária entrega antecipadamente sua força estadual na esperança de receber depois uma ajuda que não possui qualquer garantia.
A redução das candidaturas próprias aos governos estaduais acompanha o aprofundamento da integração do PT ao regime.
Em 2002, quando Lula chegou pela primeira vez à Presidência, o partido lançou candidatos próprios em cerca de 20 estados. Em 2006, ainda apresentou aproximadamente 18 nomes petistas para os governos estaduais. Na eleição de 2010, entretanto, o número caiu para cerca de dez, em razão dos acordos feitos para eleger Dilma Rousseff e ampliar a coligação com o MDB e outros partidos da direita. O resultado foi o golpe de 2016, fabricado pelo próprio MDB de Michel Temer.
Em 2018, mesmo após o golpe contra Dilma Rousseff e a prisão de Lula, ameaçou uma reação e disputou cerca de 17 governos estaduais com nomes do próprio partido. Em 2022, esse número caiu para 13.
A contagem de 2026 ainda depende das convenções e do registro definitivo das candidaturas. As negociações em curso, porém, apontam para uma presença petista ainda menor. O partido pretende apoiar candidatos de outras legendas em grande parte dos estados mais importantes.
Mais importante que uma diferença de um ou dois nomes é a tendência geral. O PT, que já procurou apresentar-se nacionalmente como uma organização com candidatos próprios em quase todo o País, limita cada vez mais sua participação direta e entrega seus palanques à direita.
Essa redução é um sintoma da decadência partidária. O PT perde a capacidade de apresentar um programa próprio, organizar sua militância e disputar os governos estaduais com base nas reivindicações dos trabalhadores. Sua direção enxerga a eleição como uma soma de acordos com as oligarquias apenas para conseguir se manter à cabeça do governo federal – para não fazer absolutamente nada de bom com o governo. O que interessa são os cargos para o número cada vez maior de aspirantes a burocratas, embora o número de burocratas petistas efetivamente seja cada vez mais reduzido. O PT vai dando lugar, voluntariamente, à burocracia tradicional dos partidos burgueses.
A confiança nesses partidos é ainda mais incompreensível diante do golpe de 2016. O MDB, hoje novamente apresentado como aliado indispensável, forneceu o vice-presidente que tomou o lugar de Dilma Rousseff. Michel Temer organizou um governo de ataque aos trabalhadores, aprovou a reforma trabalhista, restringiu os gastos públicos e preparou o terreno para o golpe eleitoral que levou Bolsonaro ao governo.
O PP forneceu uma parcela importante da sustentação parlamentar do governo Bolsonaro. Seus dirigentes controlaram ministérios, verbas e postos decisivos durante o mandato anterior. O PSD procura apresentar-se como uma direita moderada, mas também representa grandes empresários, banqueiros, proprietários rurais e políticos tradicionais, como o bolsonarista de ocasião Ronaldo Caiado.
Esses partidos podem divergir entre si na distribuição de cargos e na escolha de candidatos. Quando estão em causa os interesses fundamentais da burguesia, atuam em conjunto. Defendem os juros elevados, a submissão do País ao capital financeiro, as privatizações e a retirada de direitos dos trabalhadores.
O atual governo oferece novos exemplos. A direita do Congresso impediu medidas populares, protegeu os privilégios dos ricos e pressionou continuamente o governo. Sempre que Lula demonstrou a intenção de entrar em choque com o Banco Central, com os banqueiros ou com os grandes capitalistas, seus supostos aliados trabalharam para conter qualquer mudança.
Qual seria, portanto, o interesse deles em garantir um governo Lula? Esses partidos aceitam participar do governo apenas quando podem controlá-lo e obrigá-lo a aplicar a política da burguesia.
A direção do PT acredita que a soma de acordos estaduais produzirá automaticamente votos para Lula. Essa avaliação ignora o que ocorreu nas eleições anteriores.
Lula venceu em 2022 graças ao voto dos trabalhadores, principalmente da população que recebe até dois salários mínimos. Não foram Geraldo Alckmin, Simone Tebet ou os partidos tradicionais que produziram esse resultado. O que decidiu a eleição foi o deslocamento político de milhões de trabalhadores contra Bolsonaro.
Ao abandonar candidaturas próprias e entregar os estados à direita, o PT enfraquece justamente a força que pode garantir a reeleição de Lula. Diminui a presença de seus militantes, reduz a propaganda de suas propostas e impede que a campanha presidencial esteja ligada às lutas estaduais.
Um candidato próprio ao governo oferece ao partido (caso ele tivesse esse interesse) uma tribuna para denunciar os problemas locais, defender reivindicações populares e organizar trabalhadores. Quando o PT apoia um candidato da direita, precisa silenciar suas críticas, ele fica totalmente a reboque de sua política, coisa que o PT já se acostumou a fazer há muito tempo.
Em muitos estados, o eleitor deverá ouvir que precisa votar em Lula para presidente e, ao mesmo tempo, apoiar para governador um representante dos bancos, do latifúndio ou dos grandes empresários.
A contradição não fortalece Lula. Desmoraliza a campanha petista e aumenta ainda mais a desconfiança entre os trabalhadores.
Mas o problema não termina na eleição. Caso os candidatos apoiados pelo PT vençam, os partidos da direita controlarão mais governos estaduais e chegarão ao próximo mandato ainda mais fortes. Cobrarão de Lula (caso ele se reeleja) novas concessões, mais ministérios e maior controle sobre o orçamento federal.
A política eleitoral do PT prepara, assim, as condições para aumentar a pressão da direita sobre um possível novo governo. Na tentativa de obter apoio, o partido entrega os instrumentos que serão usados para conduzir a direita tradicional novamente ao primeiro plano político nacional.
A base popular de Lula precisa de aumento real dos salários, redução da jornada de trabalho, reforma agrária, moradia, emprego, serviços públicos e controle dos juros. PSD, PP e MDB representam as classes que combatem essas medidas.
Uma política voltada às necessidades dos trabalhadores exigiria organizar candidatos próprios, mobilizar a base petista e apresentar um programa de enfrentamento à burguesia. Fiel à sua estratégia tradicional, a direção do PT segue pelo caminho contrário. Abandona posições, incorpora o programa da direita e espera que os partidos golpistas garantam a reeleição de Lula.
A chamada sapiência eleitoral consiste em dar tudo antes da eleição e esperar alguma coisa em troca depois dela. Ao aumentar o poder da direita e desorganizar sua própria base, o PT trabalha contra si mesmo, contra a reeleição de Lula e contra os trabalhadores que ainda depositam suas esperanças no partido.





