Editorial

Melhor a ditadura de Ortega que a democracia de Lula

Ao rejeitar eleições controladas pelo imperialismo, presidente da Nicarágua defende a soberania nacional e as reformas em favor dos pobres

No ato pelo 47º aniversário do triunfo da Revolução Sandinista, realizado em 19 de julho, o presidente Daniel Ortega afirmou que os partidos a serviço do imperialismo e da burguesia não voltarão a governar a Nicarágua. É uma posição anti-imperialista, em defesa da soberania e da independência nacional e das reformas sociais que beneficiam o povo pobre.

Em seu discurso, Ortega denunciou que, embora não haja uma guerra aberta, os Estados Unidos continuam conspirando, financiando e organizando partidos para tentar retomar o governo por meio de eleições que possam ser manipuladas por eles. Em seguida, foi direto:

“E aqui se acabou a história de que os partidos postos pelos ianques, postos pelos somozistas, voltarão a chegar ao governo. Jamais, jamais, jamais. Que se esqueçam: aqui não voltarão a ver eleições para que por aí tentem eles agarrar o governo, agarrar o poder. Vamos trabalhar com a Assembleia Nacional e com as organizações correspondentes nas leis, porque é preciso fazer leis que ponham um muro, um bloqueio, aos golpistas, aos vende-pátrias, por mais dinheiro que os ianques lhes deem.”

Os capachos do imperialismo e da burguesia não devem voltar a governar a Nicarágua nem controlar o poder político. Esses setores são inimigos do povo e já o demonstraram inúmeras vezes. Foram pagos e armados pela CIA para desencadear uma guerra civil contra a Revolução Sandinista na década de 1980. Voltaram à carga em 2018, quando tentaram derrubar o governo nicaraguense e entregar novamente o País aos Estados Unidos.

A posição de Ortega é o oposto da política adotada pela esmagadora maioria da esquerda latino-americana e brasileira, que acredita na propaganda imperialista sobre a “democracia”. Trata-se do regime da burguesia e do imperialismo para manter trabalhadores e camponeses sob seu domínio.

Essa esquerda tornou-se devota do Estado burguês, de suas instituições e de sua ideologia. Funciona, assim, como correia de transmissão das ideias da burguesia e dos banqueiros internacionais. A democracia significa eleições controladas pelos capitalistas, e direitos apenas no papel e cada vez mais reduzidos e um aparato estatal repressivo, enquanto o povo pobre é explorado e submetido a uma humilhação cotidiana.

Ortega mostra corretamente que o liberalismo não oferece saída alguma aos povos oprimidos. Os sandinistas ecoam as palavras do Iman Khomeini, quando do triunfo da Revolução Iraniana: “não somos liberais”. Ou seja, aqui a “democracia” imperialista, pela quais os monopólios impõem uma ditadura nos países pobres, não tem vez. 

Se efetivada, será um raro momento em que a esquerda pequeno-burguesa (o sandinismo continua sendo um fenômeno pequeno-burguês) aprende com seus erros pregressos. A Revolução Sandinista de 1979, liderada precisamente por Daniel Ortega, não levou até o fim o combate à burguesia, deixando de expropriar os capitalistas. Como resultado, a contrarrevolução ganhou fôlego e o regime revolucionário se enfraqueceu. Por fim, a Frente Sandinista de Libertação Nacional capitulou vergonhosamente ao permitir que a reação participasse das eleições, o que culminou na vitória eleitoral de Violeta Chamorro (representante da grande burguesia local e apoiada pelos Estados Unidos) e o enterro da revolução.

Naquele momento, os sandinistas acreditaram no conto do vigário “democrático”. Essas ilusões precisam ser desfeitas.

A democracia burguesa serve ao imperialismo para enganar e dominar os países atrasados. Apoiado em uma base popular, o governo nicaraguense procura defender a soberania nacional e as conquistas sociais da nova era sandinista iniciada em 2007, após um longo processo de adaptação ao regime burguês.

O processo golpista de 2018, contudo, representou um rompimento do setor principal da burguesia nicaraguense com o sandinismo. A reação das massas ao golpe, por outro lado, levou a um enfrentamento de Ortega contra esse setor, a razão das novas medidas “autoritárias” do governo.

O presidente também destacou as medidas sociais de seu governo:

“Aqui se seguirá trabalhando para os nicaraguenses. Aqui temos de seguir trabalhando para desenvolver as atividades em benefício dos pobres, as moradias para os pobres, terra para os camponeses, escola gratuita.”

A direita que se opõe a Ortega defende uma política neoliberal e atua contra as massas populares. Sua volta ao governo representa a destruição das conquistas sociais e a submissão da Nicarágua ao imperialismo. Derrotá-la é uma condição para preservar a independência nacional e as reformas de que o povo trabalhador precisa, ainda que no caso da Nicarágua elas sejam extremamente limitadas pela política nacionalista dos sandinistas.

Ortega insistiu que impedir a volta desses setores ao poder é necessário “para garantir a continuidade do trabalho das obras, dos hospitais, das universidades, das moradias, de todos os projetos que estamos desenvolvendo”.

Nesse sentido, ele se apoia na luta de classes, e não em uma polarização artificial da “democracia” com o “fascismo”, tampouco na cantilena identitária que tomou conta de toda a esquerda continental.

Lula, o PT e os outros partidos da esquerda pequeno-burguesa falam muito em defesa da soberania nacional, mas é papo furado. Nenhuma medida efetiva foi tomada. Ao contrário, a aliança com a direita tradicional e a confiança nas instituições da burguesia aumentam a submissão do Brasil, enquanto as reformas de que os trabalhadores necessitam não saem do papel.

O governo petista se submete ao Congresso Nacional, ao Judiciário, aos banqueiros e aos grandes capitalistas. Em nome da defesa das instituições, deixa de enfrentar os interesses que mantêm o Brasil subordinado ao imperialismo e impedem qualquer melhoria profunda nas condições de vida da população. Foi esse republicanismo ingênuo que permitiu o golpe de 2016, a ascensão do bolsonarismo e está permitindo o aprofundamento do desastre neoliberal no País.

A Nicarágua adota uma política diferente. Para os trabalhadores, a “ditadura” nicaraguense vale mais do que a “democracia” brasileira, pois defende a soberania nacional e mantém reformas que garantem casa, terra, escola e atendimento público ao povo pobre – medidas concretas que atendem aos interesses populares. A esquerda identitária e “democrática” brasileira, por sua vez, submete o Brasil ao imperialismo em nome da conversa mole liberal.

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