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Entrevista ao DCO: ‘Cuba vive hoje um estrangulamento’

Diário Causa Operária conversou com Rogelio Diaz-Mendez um físico cubano que atualmente vive na Suécia

Cuba atravessa uma das situações mais graves desde o triunfo da Revolução de 1959. O bloqueio imposto pelos Estados Unidos, mantido e ampliado ao longo de mais de seis décadas, deixou de atuar apenas por meio das sanções financeiras, comerciais e diplomáticas. Uma entrevista exclusiva do Diário Causa Operária mostra como a agressão entrou em uma nova etapa depois do ataque norte-americano à Venezuela e da interrupção do fornecimento de petróleo venezuelano à ilha, em janeiro de 2026.

A falta de combustível atingiu diretamente a produção de eletricidade, o transporte, o abastecimento de água, a conservação de alimentos e o funcionamento de hospitais. Os apagões podem durar mais de um dia, enquanto medicamentos, alimentos e produtos básicos tornam-se cada vez mais difíceis de encontrar. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos ameaçam retaliar os países que tentem fornecer petróleo a Cuba, impedindo que o governo cubano substitua o combustível anteriormente enviado pela Venezuela.

Os efeitos dessa política estão presentes em todos os aspectos da vida da população. No entanto, a distância entre a decisão tomada pelo governo norte-americano e o sofrimento diário faz com que a revolta recaia frequentemente sobre as autoridades cubanas, responsáveis por distribuir os poucos recursos disponíveis. O bloqueio foi concebido para provocar fome, esgotamento e descontentamento, obrigando a população a se voltar contra o governo. A meta declarada pelos Estados Unidos é derrubar o regime cubano e restabelecer seu domínio político e econômico sobre a ilha.

Nesta entrevista à Causa Operária, Rogelio Diaz-Mendez um físico cubano que atualmente vive na Suécia analisa como o bloqueio é percebido pela população, as mudanças ocorridas no último ano, os efeitos do ataque à Venezuela e as diferenças entre a crise atual e a pandemia.

Como o povo cubano vê o bloqueio? O povo cubano sente o Bloqueio o tempo todo. No apagão que dura trinta horas, na fila para conseguir um pão, no familiar que não pôde ser operado, nas escolas cada vez mais precarizadas. No transporte que é impossível, na sua roupa, na sua casa, na terrível insegurança pelo seu futuro e o de sua família. Vive-o no corpo, como um castigo permanente, não como uma abstração política.

Mas vivê-lo não significa nomeá-lo. Aí a armadilha é sofisticada: os efeitos do Bloqueio são cotidianos e brutais, mas a sua causa é invisível e distante, muito além do alcance individual e imediato. O governo está ali, presente, com os seus erros tangíveis e os seus fracassos concretos. Washington está longe, e uma imprensa hegemônica global trabalha sistematicamente para mantê-lo longe, para que a conversa seja sempre sobre o que o governo cubano não faz, nunca sobre o que lhe é negado. Para que falar do Bloqueio pareça fora da lógica elementar do que deve ser o senso comum. Nesse contexto, o governo tenta compensar redobrando um tratamento midiático do Bloqueio que, internamente, quase nunca consegue ir além da palavra de ordem, pelo que acaba saturando o tema em um nível superficial que frequentemente é lido (e usado) como justificativa universal para qualquer mau funcionamento.

O resultado é uma ambivalência que também vive dentro de cada pessoa. O mesmo cubano que sabe perfeitamente que o bloqueio existe e mata, pode estar furioso com o governo por como ele decide sobre o pouco que há, ou porque qualquer erro vá sempre para a conta do Bloqueio. Não são contradições, são as duas faces de viver preso entre uma agressão externa que te asfixia e uma gestão interna profundamente marcada por esta, que não chega a ser percebida à altura do que a resistência exige.

O que sim é comum em todos é o esgotamento. Não a rendição necessariamente, mas o peso acumulado de décadas sobrevivendo no limite. Há rendição também em muitos, embora quase nunca de forma explícita, mas sim disfarçada de liberdade a partir de um registro liberal que cada vez mais aproveita a crise para introduzir a lógica de que, quando se restaurar o capitalismo, quem for pobre será porque quer. Mas, além disso, o esgotamento é real, nestes meses já é imenso. E esse esgotamento é também, precisamente, algo que o Bloqueio produz por design.

Como mudou a situação política, econômica e de vida do povo no último ano? O último ano tem uma data-chave: 3 de janeiro de 2026. Nesse dia, com o ataque estadunidense à Venezuela e o corte militar do fornecimento de petróleo venezuelano a Cuba, que começou um pouco antes, el Bloqueio deixou de ser uma pressão crônica para se tornar uma intervenção ativa e declarada. A Doutrina Monroe revivida não como retórica histórica, mas como operação militar em curso. O que alguns já chamam de “a Donroe”.

Antes dessa data a situação já era difícil. Apagões, inflação, falta de medicamentos, turismo colapsado, emigração em massa. Mas depois de 3 de janeiro piorou qualitativamente. Porque já não é apenas escassez, é bloqueio energético físico. Não há petróleo porque a marinha estadunidense o corta em trânsito. E sem petróleo não há eletricidade, e sem eletricidade não há hospitais operando, não há cadeia de frio para alimentos, não há transporte, não há sinal de rádio nem televisão durante grande parte do dia, não há água. Uma população que já estava no limite foi cortada de sua fonte energética principal por decisão militar de uma potência estrangeira.

E tudo isso com um objetivo declarado publicamente por Washington: mudança de regime em Cuba antes do final de 2026. Não é especulação, es política oficial. O que está acontecendo não é pressão. É uma contagem regressiva com onze milhões de pessoas como reféns.

Quais são os países que mais ajudam Cuba? Em que consiste essa ajuda? A resposta a essa pergunta é também a resposta a outra: quem está disposto a desafiar publicamente a Donroe e assumir o custo de fazê-lo.

A China está há meses instalando parques solares em Cuba e aprovou um pacote de ajuda emergencial de 80 milhões de dólares para equipamentos elétricos e 60.000 toneladas de arroz. A Rússia declarou que fará tudo o que estiver ao seu alcance. O México enviou 814 toneladas de mantimentos em fevereiro. O Brasil mantém o programa Mais Médicos. Petro disse na ONU o que ninguém mais disse com tanta clareza: “Nenhum povo latino-americano deve morrer de fome”, ao mesmo tempo que da irmã Colômbia zarpava um navio com ajuda humanitária.

Mas desde que Trump anunciou que sancionaria qualquer país que abastecesse Cuba com combustível, todo o fornecimento parou. O México freou seus envios de petróleo. A licença estadunidense que autoriza o comércio de petróleo bruto russo exclui explicitamente Cuba. Ninguém envia combustível.

Isso é a Donroe em sua forma mais nua: não apenas bloquear Cuba diretamente, mas transformar os Estados Unidos no árbitro de quem pode ajudar e quem não pode, sob ameaça de retaliação econômica e militar. O império nu colocando o hemisfério inteiro sob um único veto. A esse respeito, os líderes de países amigos estão de mãos e pés atados. Podem declarar solidariedade e ajudar com doações, todas imensamente necessárias, mas os hospitais cubanos continuam sem luz.

Qual é a comparação entre la crise em Cuba durante a pandemia e hoje? São dois tipos de crise radicalmente diferentes, e essa distinção importa mais do que parece.

A pandemia foi muito dura. Mas era uma crise com agência. Cuba respondeu com o que sabe fazer: organização, ciência, mobilização social. O mundo inteiro estava igual e, portanto, todo mundo via o esforço, sentia-se parte de algo. O Estado desdobrou suas capacidades históricas no sistema de saúde, na rede comunitária e na pesquisa científica, e os resultados foram visíveis e reais. Cuba desenvolveu vacinas próprias de primeiro nível no meio do Bloqueio e da pandemia simultaneamente. Isso não é um dado menor, é uma demonstração do que o povo cubano é capaz quando pode ser protagonista de sua própria situação.

O de hoje é qualitativamente diferente. Não é uma crise que convoca, é um estrangulamento. E a diferença prática, psicológica e política entre ambas as coisas é abismal.

Na pandemia havia algo a fazer, havia como contribuir. Hoje parece não haver nada que possa ser feito a partir de Cuba que resolva algo. Não porque o povo seja menos capaz, mas porque o problema não está em Cuba, está em Washington, que controla o combustível, controla quem pode vender, controla quem pode ajudar. Uma crise assim não te convoca. Te esmaga. Te deixa sem protagonismo, sem horizonte, sem a sensação de que o esforço individual ou coletivo possa mudar alguma coisa.

E isso divide o povo de uma maneira que a pandemia não dividiu. Muita gente continua rejeitando a agressão. Mas outra, já tendo atingido seu limite humano, o que é absolutamente compreensível, quer se render. Ou se libertar, como nos traduz o tempo todo a narrativa hegemônica com sua elegância.

O mais trágico é que nem sequer basta que você, individualmente, já queira se render, o Bloqueio continuará te estrangulando. De fato, ele te diz explicitamente que só parará quando, além de querer se render, você saia às ruas para lutar contra o governo. E não você sozinho, mas junto com todos os que, como você, querem ser livres, que terão necessariamente de ser muitos porque, além disso, é necessário que você consiga derrubá-lo. Só assim parará a asfixia do Bloqueio. Só se a derrubada for alcançada e finalmente se começar a instaurar com precisão o sistema de liberdades padrão que Washington homologou.

A diferença entre 2020 e 2026 não é apenas econômica. É a diferença entre uma crise que te dá um inimigo que você pode combater e uma armadilha que foi desenhada cruelmente para que não haja saída possível exceto a que Washington decidiu de antemano.

Como a agressão à Venezuela afetou Cuba? Primeiro é preciso desmontar um mito: Cuba não é um país que só funcionava graças à Venezuela. Quando a aliança com Chávez começou no final dos anos 90, Cuba já vinha de vários anos de crescimento econômico sustentado, recuperando-se sozinha do fundo do Período Especial. Mesmo apesar de um Bloqueio recrudescido com duas leis federais extraterritoriais que aproveitaram os momentos de maior vulnerabilidade para causar o máximo de dano, sancionando terceiros países em violação aos princípios do direito internacional. A Venezuela acelerou esse processo de recuperação, mas não o criou. Aí estão os números.

O que ela de fato criou foi uma dependência energética que o próprio Bloqueio tornou inevitável. Comprar petróleo no mercado mundial é difícil, caro e complexo para Cuba porque as sanções financeiras bloqueiam suas transações internacionais, porque os navios que atracam em portos cubanos são penalizados, além de uma extensa lista de outras medidas. Sob essas circunstâncias de Bloqueio, de repente ter um aliado que fornece petróleo diretamente e sob acordos bilaterais justos era algo que não se podia senão abraçar. A Venezuela era esse aliado.

Em 3 de janeiro de 2026, quando a marinha estadunidense sequestrou Maduro e cortou o fornecimento venezuelano, Cuba tentou o óbvio: aumentar seus pedidos aos outros fornecedores. Mas a Donroe já tinha essa porta fechada. Washington anunciou que sancionaria qualquer país que abastecesse Cuba com combustível. O México freou. A Rússia ficou excluída por licença expressa. Ninguém se atreveu.

Por alguma razão não muito clara, que Washington descreveu como uma “exceção aprovada”, no final de março o Anatoly Kolodkin conseguiu desembarcar em Cuba 100 mil toneladas de petróleo bruto russo. Isso é o equivalente a 7 dias de consumo normal em Cuba. O chefe do hemisfério não aprovou nenhuma outra exceção, nem antes nem depois.

Isso é o que torna o dia 3 de janeiro diferente de tudo o anterior: não apenas eliminou a principal fonte de energia de Cuba, mas simultaneamente bloqueou qualquer substituto possível. No es que Cuba dependesse demais da Venezuela. É que Washington desenhou um cerco onde qualquer saída energética é proibida sob ameaça de retaliação. Isso não é consequência, é cerco.

Como o povo reage às ameaças do imperialismo? O povo cubano sabe o que está acontecendo. Não é ingênuo nem está desinformado sobre o bloqueio e seus responsáveis. O governo cubano é essencialmente o mesmo de 2015, quando todos parecíamos ter esperanças em um futuro de coexistência e desenvolvimento. Naquela época se gestava uma sociedade civil diversa que podia ser confrontadora contra os excessos do governo e reformadora do sistema, e ao mesmo tempo reivindicar o socialismo e o anti-imperialismo. Então, a percepção e a consciência histórica sobre o imperialismo são reais, e nenhum cubano com o mínimo de inquietação política precisa que lhe expliquem quem é Lester Mallory.

Mas há algo que a miséria faz que nenhuma consciência política pode resolver completamente: transforma as diferenças anedóticas em diferenças de vida ou morte.

Na abundância, que alguém tenha acesso a dólares, a uma rede de contatos, a um familiar no exterior, é uma vantagem. Na precariedade extrema que o Bloqueio recrudescido produz, essa mesma diferença decide quem pode comer duas vezes e quem uma, quem tem um painel solar e pode ver a novela, quem pode pagar a passagem para ir embora e quem fica.

Todo mundo vive muito pior sob a pressão extrema, mas essas desigualdades não desaparecem, pelo contrário, tornam-se letais. Ser um representante do governo nessas circunstâncias, inclusive um profundamente comprometido com a igualdade e a justiça social (o que, naturalmente, nem sempre é o caso), implica ter uma constante percepção e uma gestão muito inteligente dos privilégios.

Quando os representantes públicos rompem esse equilíbrio, às vezes de forma repugnante e injustificável, a ampliação é, além disso, imensa a partir da máquina midiática de Miami. Isso gera uma tensão e fúria legítima, que não vai se dirigir a Washington, que está longe e é abstrato, mas sim ao mais próximo e visível: o governo, que é quem distribui (ou não distribui) o pouco que há. Quem decide qual hospital tem gerador e qual opera no escuro. Quem administra a miséria, embora não a tenha criado.

Essa é uma consequência perversa do Bloqueio: não apenas produz a precariedade, mas transforma o governo no rosto visível de todo o estrago local que Washington projetou e gerou macroscopicamente de longe. Divide para vencer, não com propaganda, mas com a fome e com a raiva legítima de quem não aguenta mais e tem pela frente apenas os que estão perto. Nem mesmo os que estão dispostos a dar a vida vão querer fazê-lo de forma desigual.

Como você vê o apoio do povo ao regime ao longo dos últimos 5 anos? Em queda constante. E para entender o porquê, é preciso entender o que está acontecendo estruturalmente em Cuba, que vai além da política.

As coisas em Cuba estão, além disso, socialmente piores do que nunca precisamente por essa distribuição ampla e desigual que existe dentro da escassez geral. A forma como Cuba sobreviveu ao Bloqueio intensificado da última década tem sido tornando-se cada vez mais capitalista. Em parte porque as tentativas do governo de se recuperar acabaram comprometendo o tecido de bem-estar social, que era sua principal legitimidade histórica. Em parte porque a emigração em massa transformou as remessas na primeira fonte de renda da maioria das famílias.

O resultado é um país onde quase se reproduzem os padrões de renda da emigração, mas em uma escala infinitamente mais precária. Quem tem família no exterior e recebe remessas sobrevive. Quem não tem, o que pode ser cerca de 30% da população, está no limite da sobrevivência física. Não é uma diferença de conforto. É uma diferença de vida. Enquanto isso, os problemas próprios do governo, também históricos (falta de liberdades individuais, rigidez, erros de gestão) não são a causa da miséria, mas em tempos de crise ninguém distingue. Quando você não pode comer e também não pode falar livremente, tudo faz parte do mesmo peso insuportável.

O apoio não se perdeu por razões ideológicas, apesar de o ecossistema midiático de Miami destilar ideologia pura 24/7 em direção à ilha. Desgastou-se fundamentalmente por razões existenciais. Não é que o povo tenha deixado de acreditar na Revolução em abstrato. É que a revolução já não observa seus próprios princípios no dia a dia, e o dia a dia é a única coisa que importa quando você está no limite. Um amigo me dizia que nunca como hoje tinha visto tantos mendigos em Santiago de Cuba. Se algo era a revolução cubana, era isso: que não houvesse mendigos.

E no entanto. À margem de tudo isso, Cuba tem gente, muita gente, que trabalha todos os dias com disciplina. Médicos que atendem pacientes sem luz. Professores que dão aulas sem materiais. Assistentes sociais. Cientistas que continuam desenvolvendo vacinas em laboratórios que funcionam pela metade. Gente que não aparece nos YouTubes nem nas manchetes, que não faz declarações nem se filma, mas que está ali, tão fodida quanto qualquer outra, sustentando um país e um desejo de progresso. Esses também são Cuba.

É impossível saber o que acontecerá. Pode ser que Washington se impaciente e invada. Pode ser que Cuba produza uma Delcy. Pode ser inclusive que a Revolução sobreviva e consiga, a partir de uma coexistência respeitosa com os Estados Unidos (como parecia tão possível em 2015), voltar a prosperar e começar a corrigir todas as falhas de sua democracia popular e de seu defeituoso estado socialista de direito. Mas se, de todas as saídas possíveis, o que acabar acontecendo for o planejado no memorando Mallory, não procurem bons e maus nos confrontos civis: todos são heróis. Os maus estarão, como sempre, movendo os fios bem longe da foto.

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