O PT recebeu com entusiasmo as últimas pesquisas eleitorais que apontam o aumento da vantagem de Luiz Inácio Lula da Silva sobre Flávio Bolsonaro. Para a direção petista, os números demonstrariam que a candidatura do presidente está se fortalecendo, enquanto seu principal adversário seria enfraquecido por uma sucessão de crises políticas.
O problema é que o PT observa apenas uma parte do que está acontecendo. Há uma ofensiva para desgastar Flávio Bolsonaro, mas os acontecimentos recentes indicam que Lula também está sob ataque. O objetivo não é simplesmente favorecer o candidato do PT contra o bolsonarismo, mas enfraquecer os dois principais polos eleitorais e criar condições para uma candidatura da chamada terceira via.
Flávio Bolsonaro foi atingido por vários episódios em sequência. O Intercept publicou vazamentos que mostraram sua relação com Daniel Vorcaro. Michelle Bolsonaro também foi a público para criticá-lo, aprofundando a crise dentro do próprio campo bolsonarista. Por fim, o ministro Alexandre de Moraes impediu que ele visitasse o pai.
A burguesia, no entanto, não tem interesse em fortalecer Lula. Se atua contra Flávio Bolsonaro, não é para entregar a eleição ao PT, mas para tentar retirar do caminho uma candidatura que não controla plenamente. A mesma política exige o desgaste de Lula, cuja candidatura continua apoiada por uma parcela importante dos trabalhadores e pode escapar aos planos definidos pela direita tradicional.
É nesse ponto que entra a investigação sobre o esquema de descontos ilegais no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
A Polícia Federal concluiu a primeira etapa da Operação Sem Desconto com o indiciamento de 48 pessoas. Entre elas estão Alessandro Stefanutto, ex-presidente do INSS indicado pelo então ministro da Previdência, Carlos Lupi, e Antonio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS.
Lupi foi um ministro importante do governo Lula. Stefanutto dirigiu o INSS durante o atual mandato presidencial. O Careca do INSS, por sua vez, é o principal personagem da investigação separada que apura uma possível ligação com Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha.
O fato de Lulinha não ter sido indiciado nessa primeira etapa foi tratado por setores petistas como uma vitória. Contudo, o relatório concluído pela PF não examinou a investigação sobre o filho do presidente. Os dados bancários, fiscais, mensagens e demais materiais recolhidos ainda estão sob análise. A possibilidade de novas diligências e novos indiciamentos permanece aberta.
A investigação inicial já é politicamente negativa para o governo. Ela atingiu integrantes da direção do INSS nomeados durante o mandato de Lula, alcançou um aliado importante do governo e indiciou justamente o empresário apontado como possível ligação com Lulinha.
Portanto, o caso não terminou. Pelo contrário, a primeira fase estabeleceu as bases para que a investigação continue avançando durante a campanha eleitoral.
O PT age como se estivesse diante de uma disputa simples entre Lula e Flávio Bolsonaro. Comemora cada golpe desferido pelo STF, pela Polícia Federal ou por setores da direita contra o candidato bolsonarista, supondo que qualquer enfraquecimento de Flávio fortalece automaticamente Lula.
Essa política transforma o partido em auxiliar de uma ofensiva que também se dirige contra o próprio presidente.





