Lula decidiu atacar a Seleção Brasileira mais uma vez. Durante uma visita ao Instituto Mauá de Tecnologia, em São Paulo, o presidente chamou de “vergonha” o fato de apenas Danilo ter voltado ao Brasil no avião fretado pela CBF após a eliminação para a Noruega.
A própria CBF autorizou os 26 jogadores a se dispersarem ainda no estádio, em Nova Jérsei. Alguns permaneceram nos Estados Unidos durante as férias. Outros seguiram para as cidades onde moram e atuam por seus clubes. Ninguém abandonou uma obrigação, desrespeitou uma convocação ou se recusou a defender o Brasil.
Qual é, afinal, a importância política de todos entrarem no mesmo avião? Nenhuma. Os jogadores foram aos Estados Unidos para disputar a Copa do Mundo. Perderam por 2 a 1 para a Noruega e foram eliminados. Pode-se discutir o desempenho, a escalação, os erros do treinador e tudo o que ocorreu dentro de campo. O itinerário das férias não muda um passe, um chute ou um gol.
Lula, porém, preferiu repetir o moralismo da imprensa burguesa. Fez ainda uma brincadeira dizendo que Carlo Ancelotti deveria contratar um robô para fazer o Brasil ganhar a Copa. Em lugar de defender os jogadores brasileiros diante da campanha de desmoralização organizada contra eles, o presidente aderiu ao deboche.
Essa posição chama a atenção porque parte de um homem que chegou à Presidência graças ao apoio do povo pobre e da classe operária. Lula conhece a origem social de muitos jogadores. São jovens que vieram de famílias trabalhadoras, das periferias e dos bairros pobres. O futebol foi o caminho pelo qual conseguiram romper a miséria e ocupar um lugar que a burguesia brasileira sempre procurou reservar para seus próprios filhos.
O fato de hoje receberem salários elevados não apaga essa origem e não os transforma em inimigos do povo. O futebol brasileiro continua produzindo atletas de primeira qualidade, disputados pelos maiores clubes do mundo. Esses jogadores não traíram o País porque perderam uma partida. Tampouco o traíram porque não embarcaram num voo da CBF depois de serem oficialmente liberados.
Enquanto critica os jogadores, Lula afaga os identitários que agem a serviço de ONGs e fundações imperialistas, abraça a burguesia golpista e entregar a ela os principais postos do governo.
O presidente não mostra a mesma indignação contra os banqueiros que recebem fortunas por meio da dívida pública. Não chama de “vergonha” a autonomia do Banco Central, que submete a economia nacional aos interesses do capital financeiro. Não faz piada com os grandes capitalistas que exploram os trabalhadores e enviam dinheiro para fora do País. Mas resolveu repreender os jogadores porque cada um tomou um rumo diferente depois da eliminação.
Esse é o esquerdismo de classe média em sua forma mais vazia. Ele não enfrenta os inimigos do povo. Prefere fiscalizar comportamentos, distribuir reprimendas e procurar pequenos pecados morais.
A histeria contra a Seleção vem exatamente desse setor reacionário da classe média que despreza o futebol brasileiro, repete tudo o que diz a rede Globo e trata qualquer derrota como prova de falta de caráter. Para esse setor, jogador brasileiro deve pedir desculpas por ganhar dinheiro, por ter férias, por morar no exterior e até por escolher o próprio voo.
Lula não deveria se colocar a reboque dessa campanha. Um presidente ligado historicamente aos trabalhadores deveria defender o patrimônio popular que é a Seleção Brasileira. Deveria lembrar que os jogadores vestiram a camisa do País e que uma derrota esportiva não autoriza ninguém a tratá-los como desertores. Deveria combater a tentativa permanente de rebaixar o futebol brasileiro diante dos países imperialistas.





