A Argentina chegou à semifinal da Copa do Mundo neste sábado (11), depois de vencer a Suíça em um jogo bastante sofrido e com uma senhora ajuda da arbitragem. A classificação confirmou o que já havia ficado evidente na partida anterior, quando a equipe de Lionel Messi escapou de uma eliminação diante do Egito: a FIFA escolheu a seleção argentina para ser a menina de seus olhos nesta Copa.
Contra os egípcios, a Argentina perdia por 2 a 0, desperdiçou um pênalti e parecia eliminada. Nos minutos finais, porém, conseguiu reagir. Messi deu uma assistência, participou dos lances decisivos e marcou um dos gols da virada.
O que se seguiu não foi uma discussão sobre o jogo. A classificação argentina foi convertida em um acontecimento religioso. Messi teria “ressuscitado” a equipe, aberto a defesa adversária como se abrisse o mar e provado, uma vez mais, ser o maior jogador de todos os tempos.
Até a participação dos egípcios foi apagado. Eles apareceram como figurantes de uma grande noite argentina, quase honrados por participar da consagração do escolhido. Um articulista brasileiro chegou a escrever que os jogadores do Egito não ficaram tão tristes porque tiveram a oportunidade de atuar como coadjuvantes de uma “catarse épica”.
Esse entusiasmo é parte de uma operação política e comercial. A FIFA escolheu Messi como rosto da Copa, instrumento para expandir o futebol nos Estados Unidos e personagem central de uma campanha destinada a rebaixar o Brasil.
Messi joga em Miami. A Copa do Mundo de 2026 é realizada principalmente nos Estados Unidos. A Copa América anterior também foi disputada em território norte-americano. O principal jogador da seleção argentina tornou-se o garoto-propaganda da tentativa de transformar o futebol em um produto de massas nos Estados Unidos, país de mais de 300 milhões de habitantes onde o esporte nunca alcançou a posição que ocupa na América Latina, na África, no Oriente Médio e na Europa.
A FIFA precisa de um personagem capaz de atrair público, vender ingressos, camisetas, assinaturas e publicidade. Messi oferece tudo isso. É conhecido no mundo inteiro, joga nos Estados Unidos e representa marcas que mantêm contratos milionários com o futebol internacional.
Sua permanência no centro do torneio interessa muito mais à FIFA do que a classificação de uma seleção africana como o Egito.
Por isso, cada lance argentino é cercado por uma campanha de exaltação. Um gol se transforma em milagre. Uma assistência vira prova definitiva de grandeza. Um pênalti perdido é rapidamente apagado. Quando a Argentina vence, encontra-se uma qualidade moral: raça, vontade, intensidade ou espírito de grupo. Quando o Brasil perde, inventa-se uma doença nacional.
Foi exatamente o que ocorreu depois da eliminação brasileira diante da Noruega. O Brasil perdeu vários gols, foi superior durante grande parte da partida e poderia ter vencido. Quase ninguém discutiu o jogo. A derrota foi convertida em prova de que o futebol brasileiro acabou, de que o País não forma mais jogadores e de que precisa copiar os europeus.
Em poucos dias, a Noruega, que apresentou um futebol pobre e dependeu em grande medida da força física de Erling Haaland, apareceu como modelo mundial de formação. A equipe que mal conseguiu jogar contra o Brasil foi apresentada como resultado de uma revolução esportiva.
Com a Argentina, ocorre o contrário. A seleção pode jogar mal, ficar à beira da eliminação, depender de decisões duvidosas e sobreviver no fim. Nada disso conta. A imprensa encontra uma epopeia. A mesma partida que serviria para condenar o Brasil é usada para canonizar Messi.
A promoção de Messi como superior a Pelé é o ponto mais absurdo dessa campanha. A comparação ignora que Pelé revolucionou o esporte, venceu três Copas do Mundo, transformou o Santos em potência internacional e se tornou a principal referência do futebol em todos os continentes. Pelé não foi apenas o melhor de sua época. Ele dividiu o futebol entre antes e depois de sua existência.
Messi foi formado na Europa desde a infância. Sua carreira foi feita em um dos clubes mais ricos do planeta, cercado pelos melhores jogadores que o dinheiro podia reunir. A seleção argentina tornou-se, nos últimos anos, uma extensão de sua promoção pessoal.
Antes dele, tentaram fazer o mesmo com Maradona. Depois virão outros. Mbappé já está sendo preparado como novo produto. O imperialismo necessita de ídolos artificiais capazes de rivalizar com Pelé e com o futebol brasileiro.
O problema é que o predomínio cultural do Brasil representa um obstáculo político e comercial. O Brasil é o único país que transformou o futebol em uma arte universal. O jogo existia antes, mas era mais parado, rígido e limitado. Os brasileiros deram movimento, improvisação, drible, combinação e beleza.
Inventaram o lateral que ataca, o zagueiro que sai jogando, o ponta que volta e o atacante que circula por todo o campo. O chamado futebol moderno foi criado no Brasil muito antes de treinadores europeus receberem crédito por ideias já executadas por Didi, Garrincha, Pelé, Tostão, Nílton Santos, Djalma Santos e tantos outros.
Esse fato produz um desequilíbrio intolerável para os que controlam o esporte. O país mais importante do futebol mundial não é uma potência imperialista. É um país oprimido, cuja seleção é admirada por trabalhadores e povos de todo o mundo.
Na África, na Ásia e no Oriente Médio, milhões torcem pelo Brasil sem possuir qualquer ligação direta com o País. Pelé, Ronaldo, Ronaldinho, Romário, Neymar e tantos outros foram vistos como representantes de uma arte popular que derrotava os europeus no terreno mais importante do esporte mundial.
Não é difícil entender por que o Brasil precisa ser detido. Se o futebol brasileiro pudesse desenvolver livremente sua força, a superioridade nacional seria ainda maior. O País tem a maior população de jogadores, a cultura mais profunda e uma capacidade de criação que nenhum centro europeu conseguiu produzir.
A Europa precisou comprar os melhores atletas do mundo para sustentar seus clubes. As grandes equipes europeias são seleções internacionais financiadas por capitalistas. Chamá-las de expressão do futebol europeu é esconder que seus principais jogadores vêm da América Latina, da África e das comunidades de imigrantes.
A Argentina foi escolhida para ocupar um lugar especial nessa disputa. Sua seleção serve como contraponto ao Brasil. A rivalidade sul-americana, que poderia ser apenas esportiva, foi transformada em instrumento internacional.
Promove-se a Argentina para diminuir o Brasil. Exalta-se Messi para atacar Pelé. Cada vitória argentina é usada para humilhar a Seleção Brasileira. Cada derrota brasileira é celebrada como prova de uma decadência definitiva.
A história ajuda a entender o mecanismo. A Copa de 1978, disputada sob a ditadura argentina, permanece marcada pelo 6 a 0 sobre o Peru, resultado que eliminou o Brasil pelo saldo de gols. O jogo foi cercado por denúncias e suspeitas desde o primeiro momento.
Antes disso, um gol de Zico contra a Suécia havia sido anulado porque o árbitro encerrou a partida com a bola no ar, durante o ataque brasileiro. O Brasil terminou invicto e ficou fora da final.
A Argentina precisava vencer o Peru por quatro gols de diferença. Venceu por seis. O goleiro peruano havia nascido na Argentina. Acusações de compra de jogadores, acordos entre as ditaduras e participação de autoridades norte-americanas atravessaram as décadas seguintes. O que ninguém pode negar é que o resultado foi considerado escandaloso desde o dia em que aconteceu.
Em 1986, a Argentina conquistou o título com Maradona no centro de uma enorme promoção. Em 2022, uma sequência de decisões favoráveis, especialmente pênaltis, acompanhou a campanha até a final. Agora, em 2026, o tratamento voltou a se repetir.




