Existe uma parcela da esquerda atual que tem se negado a utilizar o nome socialismo, preferem termos como “anticapitalista” ou coisa do gênero. O termo em si não está incorreto, mas dá margem para confusões, ou abre espaço para frentes muito amplas. Além, é claro, de ser uma capitulação à direita, que combate o nome socialismo.
O artigo “França: anticapitalistas e antifascistas em campanha para derrotar a extrema direita!”, publicado no sítio Revista Movimento nesta terça-feira (7) está muito bem expressa essa tendência.
O texto traz a “Declaração da última Conferência Nacional do partido francês NPA-l’Anticapitaliste”
Logo de início, a declaração faz uma concessão à política imperialista sobre o clima. Diz que “o sistema capitalista ameaça a existência de toda a humanidade. Esse sistema é o principal responsável pela crise climática.”
Apesar de que dizem que “os dirigentes a seu serviço, especialmente Emmanuel Macron, estão desacreditados e suas políticas são rejeitadas em massa pelos trabalhadores e pela juventude”, dizem também que “outros, ainda mais perigosos, se propõem a substituí-los.”
Como se vê, essa esquerda que se diz anticapitalista, alega que existe algo ainda pior que um representante direto dos bancos e do imperialismo. Portanto, o que os impede de apoiar Macron se este se disser ser contra o fascismo?
Não se pode esquecer a que a esquerda mundial em peso apoiou o Partido Democrata nos EUA para derrotar o “fascista” Donald Trump.
Fragmentação
Uma das propostas do identitarismo era o de fragmentar a esquerda. E, como diz a própria declaração, “inúmeras lutas se opõem frontalmente às classes dominantes e às suas políticas: lutas ecologistas contra grandes projetos nocivos e impostos, lutas feministas, antirracistas, LGBTI+, contra a violência sexista e sexual contra mulheres e crianças, lutas dos bairros populares, lutas dos trabalhadores e trabalhadoras para defender nossas aposentadorias, o seguro-desemprego, a saúde, a Previdência Social… Mas elas têm dificuldade em obter vitórias diante de um poder mais determinado do que nunca a preservar seus interesses.”
A questão é que não se faz o balanço correto e se determina o erro de se fragmentar a luta em diversas partes pequenas, o que só pode enfraquecer a luta contra o imperialismo.
Não bastasse isso, estão utilizando os direitos das mulheres e minorias sexuais para inventarem novos crimes, aumento de penas e fortalecimento do judiciário dos Estados burgueses, que estão utilizando essas leis para aumentarem a repressão contra a classe trabalhadora.
É preciso denunciar a ilusão nas eleições que essa declaração propõe ao afirmar que “para as militantes e militantes do NPA-l’Anticapitaliste, a eleição presidencial de 2027 e as eleições legislativas que se seguirão têm uma importância fundamental, já que, pela primeira vez, o Rassemblement National está em condições de vencer.”
A esquerda precisa mobilizar as massas para enfrentar o imperialismo em vez de ficar enganando os trabalhadores que conseguirão algo por meio do parlamento.
O texto diz que “depois de ter se dotado, graças à mídia controlada pelos bilionários de extrema direita, dos meios para impor sua hegemonia na sociedade, e de ter conquistado numerosos assentos na Assembleia Nacional e nos municípios, a extrema direita fascizante de Bardella e Le Pen poderia, assim, tomar o controle do aparato estatal e assumir o comando da polícia, do exército e das instituições judiciais.”, e o que eles esperam, mudar essa realidade conseguindo alguma cadeira?
A política de frentes
Segundo escrevem na declaração, “alcançar esse objetivo [de vencer a extrema direita] só será possível se conseguirmos reunir, da forma mais ampla e democrática possível, todo o movimento operário e, em particular, a esquerda de ruptura. Devemos construir uma frente antifascista capaz de mobilizar as classes populares para impedir a marcha do Rassemblement National rumo ao Palácio do Eliseu.”
É falso que se vencerá a extrema direita por meio do voto, apenas a classe trabalhadora organizada é capaz de cumprir essa tarefa.
O NPA-l’Anticapitaliste diz que “convoca, desde já, todas as militantes e militantes do movimento social e sindical, da esquerda, dos revolucionários e dos ecologistas a se mobilizarem e a constituírem, onde quer que seja possível, frentes de ação antifascistas e comitês contra a extrema direita na mais ampla unidade.”
No mundo real, essas frentes que falam em acordos dos mais “amplos e democráticos” possível, vai acabar se juntando àqueles da direita que se pintam como “campo progressista”, “ala democrática”, etc. Essa política foi aplicada integralmente no Brasil nas últimas presidenciais, ainda que essa esquerda “antifascista”, que se juntou a bolsonarista sob o pretexto de derrotar Jair Bolsonaro, tenha sido derrotada pela radicalização da esquerda classista.
Por hora, estão dizendo que “a candidatura de Jean-Luc Mélenchon é a mais apta a reunir os votos das classes populares para permitir que a esquerda enfrente a extrema direita nas urnas”, mas a experiência mostra que o nesses acordos o céu é o limite.
“O NPA-l’Anticapitaliste [diz que] se compromete plenamente, tanto nas ruas quanto nas urnas, com a luta antifascista que se iniciará com a campanha presidencial.” Mas, como diz o ditado, não se pode servir a dois senhores.
Existe uma clara incompreensão do socialismo quando o texto diz que “O programa defendido pelo NPA-l’Anticapitaliste insere-se no Manifesto por uma revolução ecossocialista da IVª Internacional.” Ecossocialismo, além de ser um tipo de religião, é uma distorção, e uma forma de não lutar diretamente pelo socialismo e pelas reivindicações da classe trabalhadora e sua emancipação.
A classe trabalhadora deve lutar contra o identitarismo e essa política de conciliação de classes. O inimigo do trabalhador é o imperialismo, a extrema direita não é nada sem o apoio dos bancos e do grande capital. Quem está prendendo pessoas por apoiarem a Palestina, quem promoveu a guerra de agressão contra o Irã, o genocídio em Gaza, a guerra por procuração na Ucrânia, etc., são os “democratas”. Eles que devem ser de fato combatidos e entre eles e o fascismo não existe nenhuma contradição.





