A vitória de Portugal sobre a Croácia por 2 a 1, na quinta-feira (2), em Toronto, colocou, uma vez mais, a arbitragem de vídeo no centro da Copa do Mundo de 2026. A partida da segunda fase teve 18 minutos de acréscimos, quatro gols anulados e duas decisões capitais com participação direta do VAR.
A partida seguiu um padrão que se formou desde a fase de grupos. Segundo levantamento feito a partir de dados da Opta, divulgado pela Folha de S. Paulo e reproduzido por outros veículos, o VAR foi acionado em metade dos jogos da primeira fase. Foram 44 revisões distribuídas em 36 partidas. Em 42 delas, a decisão inicial de campo foi alterada. O índice de reversão chegou a 95%. Na Copa do Catar, em 2022, havia sido de 92%.
A diferença principal em 2026 está na ampliação do uso da tecnologia. Além de gols, pênaltis e cartões vermelhos, a Copa passou a ter revisão de escanteios, correção de erro de identificação de jogadores punidos e novas aplicações disciplinares, como a punição a atletas que cobrem a boca durante discussões em campo.
No caso mais recente, a Croácia saiu na frente de Portugal e tinha a classificação encaminhada. No segundo tempo, a cabine chamou o árbitro norueguês Espen Eskas para revisar lance envolvendo Vlasic e Renato Veiga dentro da área. O árbitro marcou pênalti. Cristiano Ronaldo cobrou e empatou. Depois, Portugal virou. Nos minutos finais, a Croácia chegou a empatar, mas o gol foi anulado.
No cruzamento, a posição de Pasalic parecia regular a olho nu. A revisão, no entanto, apontou um toque de Matanovic antes de a bola chegar ao jogador croata. A partir desse toque, o sistema de impedimento semiautomático indicou posição irregular. O chip instalado na bola, que envia informações centenas de vezes por segundo à arbitragem, foi apresentado como elemento decisivo para a marcação.
Além desses lances, outros três gols haviam sido anulados na partida por impedimento. A arbitragem de campo marcou as irregularidades e o VAR confirmou. Ao fim do jogo, a classificação portuguesa foi definida em uma partida em que o VAR teve presença constante, do pênalti ao impedimento final.
Na véspera, Bélgica e Senegal também haviam decidido vaga com intervenção da cabine. O pênalti belga foi assinalado apenas depois da revisão. O lance levou a Bélgica às oitavas e encerrou a campanha senegalesa.
A aplicação do VAR também atingiu o Irã, que terminou a primeira fase eliminado em um dos casos mais discutidos do torneio. Contra o Egito, em Seattle, a seleção iraniana empatava por 1 a 1 quando Shoja Khalilzadeh marcou nos acréscimos. O gol classificava o Irã pela primeira vez para o mata-mata de uma Copa do Mundo. O zagueiro comemorou, tirou a camisa e chegou a colocar óculos de sol arremessados pela torcida. Em seguida, o lance foi anulado por impedimento.
A imagem mostrada pela transmissão indicou metade de uma chuteira de Khalilzadeh à frente da linha. O gol deixou de valer e o Irã ficou obrigado a depender de combinações de resultados em outros grupos. Nos segundos finais, Ezatolahi ainda acertou o travessão. O empate classificou o Egito e deixou os iranianos à espera dos demais jogos.
A eliminação veio depois, com o empate em 3 a 3 entre Argélia e Áustria. Para o Irã avançar, uma das possibilidades era que a partida não terminasse empatada. A Argélia fez 3 a 2 nos acréscimos, resultado que mantinha os iranianos vivos. O árbitro havia indicado quatro minutos de tempo adicional, mas a partida seguiu. Aos 90+5, a Áustria empatou e tirou a vaga iraniana. Argélia e Áustria terminaram classificadas.
O caso do Irã não ficou limitado ao gramado. Desde antes da Copa, a seleção enfrentou problemas criados pelo governo dos Estados Unidos, país que sedia parte do torneio. Segundo informações divulgadas pela imprensa norte-americana, mais de 12 integrantes da comissão técnica e dirigentes da federação iraniana tiveram vistos negados, entre eles o presidente da federação, Mehdi Taj, e o vice-presidente Mehdi Mohammed Nabi. Todos os jogadores foram autorizados, mas funcionários de logística, roupeiros e assessores de imprensa ficaram fora.
O técnico Amir Ghalenoei e o capitão Mehdi Taremi reclamaram mais de uma vez da situação. Os vistos dos jogadores foram liberados apenas uma semana antes da estreia. A seleção também não pôde se concentrar normalmente em território norte-americano. O plano inicial era fazer a preparação em Tucson, no Arizona. A delegação acabou transferida para Tijuana, no México, e passou a entrar nos Estados Unidos apenas para as partidas, deixando o país logo depois dos jogos.
A presidente do México, Claudia Sheinbaum, afirmou que os Estados Unidos não queriam que a seleção iraniana pernoitasse em território norte-americano. O Departamento de Segurança Interna apresentou como concessão o fato de permitir a entrada do grupo dois dias antes de uma partida, mas a rotina manteve deslocamentos longos e restrições de permanência. Taremi reclamou do desgaste. Ghalenoei afirmou que os trajetos até o aeroporto chegavam a três horas.
Depois da eliminação, o cientista político Kaveh Lotfollah Afrasiabi, cidadão norte-americano de origem iraniana, protocolou ação de US$1 bilhão contra Gianni Infantino e dirigentes da Fifa em um tribunal federal de Boston. Ele acusa a entidade de discriminação contra o Irã e cita o uso do VAR no gol anulado contra o Egito. A Fifa não se manifestou publicamente sobre o processo até a publicação das reportagens usadas neste levantamento.
O Brasil também entrou na lista de seleções que contestaram a aplicação do VAR. Na vitória por 3 a 0 sobre a Escócia, em Miami, Vinicius Júnior teve um gol anulado aos 24 minutos do primeiro tempo. O atacante roubou a bola de Jack Hendry, avançou e finalizou na saída do goleiro. O árbitro mexicano César Ramos validou o lance no campo. Depois, chamado pelo VAR, foi ao monitor e marcou falta do brasileiro na origem da jogada.
A CBF enviou carta ao presidente da Fifa, Gianni Infantino, pedindo uniformidade na aplicação do VAR. O documento, assinado pelo presidente Samir Xaud, afirmou que a Copa vinha seguindo a orientação de preservar a decisão de campo e limitar a intervenção do vídeo a erros claros. A entidade citou lances de outros jogos nos quais a cabine não interveio, como uma possível falta antes de gol da Argentina contra a Áustria, um lance de pênalti em Inglaterra x Gana e outra jogada envolvendo Senegal e França.
A CBF também questionou o histórico de César Ramos. O árbitro mexicano já havia apitado Brasil x Suíça na Copa de 2018. Naquele jogo, a seleção brasileira reclamou de empurrão em Miranda no gol suíço e de uma possível penalidade não revisada. Na carta, a entidade brasileira pediu que a Fifa evitasse escalar repetidamente árbitros envolvidos em controvérsias anteriores com a mesma seleção.
O contraste mais citado no levantamento aparece nos jogos da Argentina. Na estreia contra a Argélia, Lionel Messi pisou na panturrilha de Mandi aos 30 minutos do primeiro tempo. O árbitro polonês Szymon Marciniak marcou falta, mas não deu cartão. O VAR não chamou. A comentarista Renata Ruel, da ESPN, afirmou que Messi deveria ter sido expulso por jogo brusco grave.
Ainda em Argentina x Argélia, um gol argelino foi anulado por impedimento. O Terra mostrou que o sistema exibiu uma imagem pausada no quadro anterior ao toque do passador na bola. A própria reportagem apontou que, no quadro correto, o jogador da Argélia estaria ainda mais adiantado, mantendo a decisão final. O episódio, no entanto, expôs uma falha operacional em uma tecnologia apresentada como precisa.
Na partida seguinte, contra a Áustria, o técnico Ralf Rangnick reclamou da arbitragem após a derrota por 2 a 0. Ele questionou o pênalti marcado para a Argentina e, sobretudo, a origem do primeiro gol argentino. Segundo Rangnick, havia falta na recuperação de bola que iniciou a jogada. Renata Ruel também afirmou que houve falta do jogador argentino por atingir o adversário por trás de forma imprudente. O VAR não chamou o árbitro para rever.
A Inglaterra também foi alvo de reclamações. No empate por 0 a 0 contra Gana, o técnico da equipe africana, Carlos Queiroz, protestou contra dois lances no segundo tempo. O primeiro envolveu Adu e o goleiro Jordan Pickford fora da área. O segundo foi um pênalti não marcado sobre o mesmo atacante. O VAR não chamou o árbitro Said Martínez em nenhum dos casos. Depois do jogo, Queiroz ironizou: “Eles tiveram sorte que o VAR foi tomar um cafezinho”. O treinador acrescentou que havia um pênalti claro e um lance para cartão vermelho.
Outro caso de impedimento milimétrico ocorreu em Colômbia x Portugal, na terceira rodada do Grupo K. Aos 45 minutos do segundo tempo, Davinson Sánchez marcou de cabeça. O gol foi anulado após revisão por posição irregular. A imagem indicou a ponta do pé do zagueiro colombiano adiantada. O jogo terminou 0 a 0. A Colômbia manteve a liderança do grupo, com sete pontos, e Portugal avançou em segundo, com cinco. Mesmo sem alterar a classificação dos colombianos, o lance entrou na série de decisões decididas por frações quase imperceptíveis.
A Copa de 2026 também estreou novas regras para a arbitragem de vídeo. Uma delas envolve escanteios. Das 44 revisões da fase de grupos, 21 foram desse tipo. A IFAB autorizou a correção quando o árbitro marca escanteio por engano e a bola deveria sair em tiro de meta. A regra, porém, não vale no sentido inverso.
A limitação apareceu logo na abertura, em México x África do Sul. Nos acréscimos, os sul-africanos reclamaram de um escanteio não marcado por Wilton Pereira Sampaio. O árbitro brasileiro assinalou tiro de meta. Como o protocolo só permite corrigir escanteio dado de forma errada, e não escanteio deixado de marcar, o VAR não pôde intervir. O mesmo jogo teve três expulsões, duas de sul-africanos e uma de mexicano, uma delas após revisão.
Outra novidade foi a punição a jogadores que cobrem a boca durante discussões. O paraguaio Miguel Almirón foi expulso contra a Turquia depois de colocar a mão na frente da boca ao falar com Mert Müldür. O VAR chamou o árbitro e o cartão vermelho foi aplicado. A regra foi adotada pela Fifa para impedir que jogadores ocultem possíveis ofensas discriminatórias em campo. A imprensa esportiva passou a chamá-la de “Protocolo Vini Jr.”, em referência aos casos de racismo sofridos por Vinicius Júnior na Europa.
No caso de Alemanha x Paraguai, o exemplo usado por analistas para defender a atuação do VAR em favor de uma seleção de menor peso político e comercial foi um lance de evidência física: um jogador arremessou o goleiro ao chão antes de a bola entrar. A intervenção só ocorreu diante de uma jogada difícil de sustentar publicamente sem revisão.





