Gianni Infantino foi obrigado a abandonar o projeto de criação da Fifa Forward Enterprise (FFE), empresa que administraria as competições da FIFA e teria 20% de suas ações vendidas a investidores privados.
Entre os interessados estava a Thrive Capital, de Joshua Kushner, irmão de Jared Kushner, genro e ex-conselheiro de Donald Trump. O projeto também envolvia o empresário Greg Maffei, doador do comitê de posse de Trump, e o banco JP Morgan.
A reação foi imediata. A UEFA ameaçou boicotar as competições da FIFA e Infantino recuou.
O episódio é mais uma demonstração da relação construída entre o presidente da FIFA e os Estados Unidos desde sua chegada ao cargo. Infantino é uma espécie de Michel Temer do futebol: chegou ao comando depois que uma grande operação, apresentada como combate à corrupção, destruiu o grupo político que dirigia a entidade.
O Fifagate
Em maio de 2015, dirigentes da FIFA foram presos em Zurique a pedido do Departamento de Justiça dos Estados Unidos. A investigação revelou esquemas reais de pagamento de propinas por direitos comerciais e televisivos, mas serviu também para uma intervenção norte-americana sem precedentes no futebol mundial.
Washington utilizou o dólar e seu sistema financeiro como justificativa para processar dirigentes estrangeiros por fatos ocorridos fora de seu território.
A ofensiva atingiu principalmente a América Latina e o Caribe. José Maria Marin, ex-presidente da CBF, foi preso e condenado nos Estados Unidos. Ricardo Teixeira passou a evitar viagens internacionais. Marco Polo Del Nero foi denunciado e posteriormente afastado do futebol.
Mais importante do que a queda desses dirigentes foi a destruição do bloco político construído por João Havelange e mantido por Joseph Blatter.
Havelange havia conquistado a presidência da FIFA apoiando-se nas federações da África, Ásia, América Latina e Caribe. Blatter preservou essa base. O sistema de um país, um voto dava às federações dos países pobres um peso semelhante ao das grandes potências europeias.
Essa política também apareceu na escolha das sedes das Copas. África do Sul recebeu o Mundial de 2010, Brasil o de 2014, Rússia o de 2018 e Catar o de 2022.
As duas últimas escolhas provocaram forte reação dos países imperialistas.
Os Estados Unidos queriam a Copa de 2022, mas perderam para o Catar por 14 votos a oito. Cinco anos depois, veio o Fifagate.
Blatter ainda foi reeleito em 2015, mas acabou afastado. Michel Platini, presidente da UEFA e favorito à sucessão, também foi suspenso por causa de um pagamento de dois milhões de francos suíços recebido de Blatter.
Os dois seriam posteriormente absolvidos pela Justiça suíça. Quando isso aconteceu, porém, já estavam fora da disputa.
Entra Infantino
Infantino era secretário-geral da UEFA e braço direito de Platini. A queda de seu chefe abriu espaço para sua candidatura.
Em fevereiro de 2016, foi eleito presidente da FIFA.
Na primeira escolha de uma sede de Copa sob seu comando, Estados Unidos, Canadá e México venceram Marrocos e receberam o Mundial de 2026. A FIFA também ampliou a competição de 32 para 48 seleções.
Infantino passou ainda a colaborar diretamente com o Departamento de Justiça norte-americano e se reuniu com autoridades como o procurador-geral William Barr.
A aproximação aumentou durante os governos seguintes e tornou-se escancarada com Donald Trump.
Em dezembro de 2025, a FIFA entregou ao presidente norte-americano um chamado “Prêmio da Paz”.
Durante a Copa de 2026, Trump telefonou para Infantino depois que o atacante Balogun, da seleção dos EUA, recebeu cartão vermelho contra a Bósnia. A FIFA posteriormente anulou a expulsão e afirmou que a decisão havia sido “independente”.
Pouco depois veio a proposta da FFE.
A presença de Joshua Kushner no negócio tornava a ligação ainda mais evidente. Seu irmão Jared é casado com Ivanka Trump e foi conselheiro da Casa Branca. Seu pai, Charles Kushner, recebeu perdão presidencial de Trump e depois foi nomeado embaixador dos Estados Unidos na França e em Mônaco.
A ameaça de boicote da UEFA fez Infantino desistir do projeto.
O Fifagate foi apresentado como uma grande limpeza no futebol internacional. Na prática, desmontou a direção anterior da FIFA e alterou toda a correlação de forças dentro da entidade.
Infantino não organizou a operação que derrubou Blatter. Assim como Michel Temer não organizou sozinho o golpe de 2016. Mas os dois tiveram uma coisa em comum: chegaram ao poder como beneficiários diretos de uma operação conduzida para eliminar quem estava antes deles.





