O presidente da Sérvia, Alexandre Vucic, anunciou neste sábado (27) que deixará o cargo “em poucas semanas” e convocará eleições antecipadas presidenciais e parlamentares. A declaração foi feita durante um ato com apoiadores em Belgrado, capital sérvia, em meio à continuidade dos protestos contra o governo.
“Eu serei presidente por apenas mais algumas semanas, então renunciarei”, afirmou Vucic, acrescentando que aquela era a “última vez” em que falava a uma multidão como presidente da Sérvia. O mandato do presidente terminaria apenas em maio de 2027.
O anúncio representa uma grande vitória da pressão imperialista sobre a Sérvia, país que, mesmo buscando ingresso na União Europeia, manteve relações próximas com a Rússia e a China e se recusou a aderir integralmente à campanha de guerra contra a Rússia.
Desde o final de 2024, a Sérvia é alvo de grandes manifestações contra o governo. Os protestos começaram após o desabamento de uma cobertura recém-reformada da estação ferroviária de Novi Sad, acidente que deixou 16 mortos. A oposição utilizou o episódio como ponto de partida para uma campanha nacional contra Vucic, com palavras de ordem contra a corrupção e exigências de mudança no governo.
O governo sérvio denunciou diversas vezes que as manifestações foram estimuladas por potências estrangeiras, em especial pela União Europeia, como parte de uma ofensiva para obrigar a Sérvia a alinhar sua política externa aos interesses do imperialismo. Em abril, Vucic chegou a declarar que a “revolução colorida” havia sido derrotada.
A avaliação, no entanto, mostrou-se precipitada. Poucos meses depois, o presidente anunciou que deixará o cargo antes do fim do mandato.
A Sérvia é um dos poucos países europeus que não aderiram às sanções contra a Rússia. A posição tem sido motivo de sucessivas pressões da União Europeia e dos Estados Unidos, que exigem que o país rompa seus vínculos com a Rússia como condição para avançar no processo de adesão à União Europeia.
A pressão é também econômica. A Rússia fornece cerca de 80% do gás natural importado pela Sérvia. Além disso, a companhia de petróleo NIS, uma das mais importantes do país, tem participação majoritária das empresas russas Gazprom e Gazprom Neft, o que levou os Estados Unidos a ameaçarem sanções contra o setor energético sérvio.
No início de junho, Vucic também esteve na China, onde obteve promessas de investimentos superiores a US$1 bilhão. As relações com a China são outro alvo da pressão europeia, que exige da Sérvia uma “escolha estratégica”, isto é, a submissão completa à política externa do bloco europeu.
Em seu discurso deste sábado, Vucic voltou a defender a manutenção desses laços. “A Sérvia toma decisões por conta própria. Não destruiremos nossas amizades com a República Popular da China, com os russos. Não jogamos fora nossos amigos nem renunciamos a eles quando está difícil”, afirmou.
O presidente também declarou que a Sérvia deve preservar sua neutralidade militar. “Queremos proteger e defender nossos céus nós mesmos, não ter algum Exército estrangeiro fazendo isso por nós”, disse. Segundo Vucic, nenhum preço é alto demais para garantir essa liberdade.
Nas últimas semanas, Vucic havia criticado a tentativa da União Europeia de governar a Sérvia “por e-mail”. A declaração fazia referência às exigências para que o país adotasse automaticamente resoluções e medidas definidas fora de suas fronteiras.
“Ninguém deveria poder nos enviar um e-mail ou um fax e dizer: ‘vocês têm de cumprir alguma declaração vinda de qualquer centro do mundo’”, afirmou o presidente sérvio.
A capitulação de Vucic mostra a força da ofensiva imperialista. Durante meses, o presidente procurou manter uma posição intermediária: negociar com a União Europeia, preservar relações com os aliados e controlar a crise interna. A pressão das ruas, das instituições europeias e das ameaças econômicas dos Estados Unidos acabou impondo uma saída antecipada.
A Sérvia ocupa posição decisiva nos Bálcãs. O país foi alvo direto da agressão da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) em 1999, quando a Iugoslávia foi bombardeada pelas potências imperialistas. A separação de Cossovo, apoiada pelos Estados Unidos e pela União Europeia, continua sendo uma das principais feridas nacionais sérvias.





