Segundo reportagem da emissora libanesa Al Mayadeen , publicada em 23 de junho, cresce, entre analistas e dirigentes ligados a “Israel”, a discussão sobre a possibilidade de a Turquia tornar-se o próximo alvo da política agressiva sionista, após a guerra contra o Irã.
A matéria, assinada por Lea Akil, parte de uma entrevista com Mahmoud Allouch, analista político especializado em assuntos turcos, para avaliar a deterioração das relações entre Turquia e “Israel”. De acordo com Allouch, não se trata apenas de uma crise diplomática passageira, mas de uma “intensa rivalidade estratégica”, que envolve a Síria, o Mediterrâneo Oriental e as rotas comerciais regionais.
O centro da questão é que a Turquia, apesar de integrante da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), vem ampliando sua influência regional em áreas que “Israel” considera decisivas para sua segurança e para seus planos de expansão. Esse processo aparece de maneira mais clara na Síria, país que passou a ser um dos principais terrenos de disputa entre Turquia e “Israel”.
A reportagem da Al Mayadeen lembra que a ideia de apresentar a Turquia como próximo inimigo estratégico de “Israel” ganhou força depois de uma declaração do ex-primeiro-ministro israelense Naftali Bennett. Em 17 de fevereiro de 2026, durante a conferência anual das principais organizações judaicas norte-americanas, Bennett afirmou: “a Turquia é o novo Irã”.
A frase provocou forte reação em Ancara. Na prática, indicava que, uma vez encerrada a guerra contra o Irã, “Israel” passaria a concentrar sua atenção contra outro país com peso militar, posição geográfica decisiva e influência crescente na região.
A emissora libanesa também citou o caso do jornalista norte-americano Bradley Martin, que publicou no Wall Street Journal, em 4 de março, um artigo intitulado Uma necessidade urgente de conter a Turquia. No texto, Martin defendeu que os Estados Unidos e “Israel” deveriam atuar para conter Ancara, denunciando a política turca como contrária aos interesses norte-americanos.
Outro caso citado foi o de Michael Rubin, pesquisador do American Enterprise Institute e ex-funcionário do Pentágono. Rubin escreveu em turco, nas redes sociais: “Ancara em 2036 será como Teerã em 2026?”. Em outro artigo, defendeu que “Israel” poderia lançar um ataque preventivo contra a Turquia para destruir seus caças F-16.
Essas declarações mostram que setores ligados ao imperialismo e ao sionismo já discutem abertamente a Turquia como problema militar e político a ser enfrentado.
Segundo Allouch, há três fatores principais que alimentam a rivalidade entre Turquia e “Israel”. O primeiro é a percepção mútua de ameaça. A expansão da influência turca no Oriente Médio, principalmente depois dos acontecimentos iniciados em 2011, passou a ser vista por “Israel” como um obstáculo estratégico.
O segundo fator é o Mediterrâneo Oriental. A Turquia considera que “Israel” procura organizar um bloco regional com a Grécia e o Chipre para conter a influência turca e consolidar sua própria posição na região.
O terceiro fator é a mudança do papel dos Estados Unidos. Segundo o analista ouvido pela Al Mayadeen, os norte-americanos ainda têm papel importante para impedir uma escalada militar direta, mas já não possuem a mesma força de antes para manter sob controle as contradições entre seus aliados.
A Síria, no entanto, aparece como o ponto mais sensível. Allouch afirma que o país deixou de ser apenas mais um assunto regional e passou a ocupar posição central na disputa entre Turquia e “Israel”. Para a Turquia, a Síria é uma área de influência histórica, cultural, religiosa e geográfica. Para “Israel”, é uma questão de segurança e de expansão de sua influência militar.
Além disso, a aproximação entre Turquia e Arábia Saudita fortaleceu propostas de novas rotas comerciais ligando a Turquia ao Golfo por meio da Síria e da Jordânia. Esses projetos entram em choque com o corredor Índia-Oriente Médio-Europa, no qual “Israel” pretendia ocupar a posição de principal passagem comercial entre a Ásia e a Europa.
Outro fator que preocupa “Israel” é o crescimento da indústria militar turca. A reportagem da Al Mayadeen destaca que a Turquia deixou de depender quase totalmente de armas importadas e passou a desenvolver um setor próprio de defesa, com peso crescente na economia e na política externa do país.
Esse desenvolvimento tem raízes na Guerra Fria, quando a Turquia se alinhou ao bloco imperialista e entrou na OTAN, em 1952. Durante décadas, suas Forças Armadas dependeram fortemente de equipamentos e financiamento dos Estados Unidos. Essa dependência, no entanto, entrou em crise nos anos 1960 e, principalmente, depois da intervenção turca no Chipre, em 1974.
O embargo de armas imposto pelos Estados Unidos em 1975 atingiu duramente as Forças Armadas turcas, dificultando o acesso a peças de reposição, manutenção de aeronaves e outros equipamentos. A partir daí, Ancara passou a investir na criação de uma base própria de produção militar, com empresas como Aselsan e Roketsan.
Desde os anos 1980, a Turquia combinou produção interna, fabricação sob licença e transferência de tecnologia. O resultado foi a formação de um setor militar que, no início dos anos 2000, tinha peso pequeno nas exportações do país, mas chegou a cerca de US$10 bilhões em 2025, segundo estimativa citada pela Al Mayadeen.
Esse crescimento altera o equilíbrio militar no Mediterrâneo Oriental e no Oriente Médio. Ao contrário de outros países atacados por “Israel”, a Turquia possui uma das maiores Forças Armadas da OTAN, controla uma posição geográfica decisiva entre Europa, Ásia e Oriente Médio, e tem importância estratégica para o bloco imperialista.
Apesar da escalada verbal e da ampliação da rivalidade, Allouch considera improvável uma guerra direta entre Turquia e “Israel”. Segundo ele, um conflito desse tipo teria consequências muito maiores do que as guerras anteriores travadas por “Israel”, justamente pelo peso militar, geográfico e político da Turquia.
Além disso, os dois lados têm motivos para evitar uma guerra aberta. Os Estados Unidos também procuram impedir esse tipo de choque, pois a Turquia segue sendo um aliado indispensável para a segurança ocidental.
A guerra contra o Irã também entra nos cálculos. Segundo o analista ouvido pela Al Mayadeen, a capacidade iraniana de resistir à pressão militar e frustrar os objetivos norte-americanos e israelenses tende a tornar “Israel” mais cauteloso diante da possibilidade de abrir uma nova frente contra uma potência regional como a Turquia.
Isso não significa, no entanto, que a tensão diminua. A tendência apontada pela emissora libanesa é que o conflito avance. A própria retórica do presidente turco Recep Tayyip Erdogan mostra que a Turquia percebe “Israel” como ameaça. Ao afirmar que “a segurança da Turquia começa em Beirute e Damasco”, Erdogan procurou sinalizar que seu governo se opõe a uma expansão militar israelense contra o Líbano e a Síria.




