Neste domingo (28), em Bagdá, durante entrevista coletiva ao lado do chanceler iraquiano, Fuad Hussein, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, afirmou que apenas a República Islâmica tem autoridade para dirigir a reabertura do Estreito de Ormuz, passagem estratégica por onde circula parte decisiva do petróleo mundial. Segundo Araghchi, o memorando assinado entre Irã e EUA determina que o estreito retorne à sua capacidade anterior à guerra em até 30 dias, sob os procedimentos definidos pela República Islâmica.
“De acordo com o memorando, o estreito retornará à sua capacidade anterior à guerra dentro de 30 dias, sob a gestão que o Irã adotará e após a remoção dos obstáculos pela República Islâmica”, declarou o chanceler iraniano.
Araghchi advertiu que qualquer tentativa de impor novos arranjos fora do que já foi definido pelo Irã apenas atrasa a reabertura da passagem marítima e aumenta a tensão. O ministro também afirmou que, pelo acordo, os EUA têm a obrigação de conter os ataques de “Israel” contra o Líbano.
A declaração de Araghchi veio após uma nova troca de ataques entre o Irã e os EUA, iniciada após mais uma violação norte-americana. Segundo o Corpo de Guardas da Revolução Islâmica (CGRI), forças navais e aeroespaciais iranianas realizaram uma operação com mísseis balísticos e veículos aéreos não tripulados (VANTs) contra oito instalações militares norte-americanas na região, entre elas a Base Aérea Ali Al Salem, no Cuaite, e o quartel-general da Quinta Frota dos EUA, em Salman, no Barém.
A operação ocorreu entre 2 e 3 horas da madrugada de domingo, no horário local, segundo comunicado do CGRI. A Guarda Revolucionária afirmou que a ação respondeu a ataques norte-americanos contra cinco postos costeiros iranianos. Os EUA, por sua vez, disseram que bombardearam alvos no Irã após um incidente envolvendo um petroleiro no Golfo Pérsico.
O CGRI afirmou que a Marinha iraniana havia disparado tiros de advertência contra uma embarcação que ignorou repetidos avisos para não utilizar uma rota não autorizada pelo Estreito de Ormuz. Em seguida, o Comando Central dos EUA anunciou ataques contra alvos iranianos. Explosões foram registradas em Sirik, na província de Hormuzgan, e na ilha de Quêixome.
O porta-voz do CGRI, Hossein Mohebi, declarou que as Forças Armadas iranianas responderam a todas as ações hostis no período anterior e seguem prontas para reagir. “Cada vez que o inimigo violar acordos ou um cessar-fogo, receberá uma resposta mais severa do que antes”, afirmou.
No mesmo dia, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmail Baghaei, cobrou o estabelecimento de um prazo claro para a retirada de “Israel” das áreas ocupadas do Líbano. Segundo Baghaei, a soberania e a integridade territorial libanesas são condições indispensáveis para qualquer acordo duradouro.
Baghaei afirmou que a primeira cláusula do memorando assinado entre Irã e EUA exige o fim dos ataques israelenses contra o Líbano e a retirada das tropas de “Israel” de todos os territórios ocupados. O porta-voz cobrou que os EUA cumpram seu compromisso e pressionem “Israel” a encerrar as agressões.
“Implementar integralmente a primeira cláusula do memorando, que exige o fim dos ataques israelenses contra o Líbano e a retirada das forças israelenses de todos os territórios libaneses ocupados, é essencial para chegar a um acordo final e duradouro”, afirmou Baghaei.
Desde 2 de março, a ofensiva israelense contra o Líbano deixou 4.247 mortos e 12.195 feridos, segundo o Ministério da Saúde libanês citado pela Al Mayadeen. Mesmo após a assinatura de um acordo em território norte-americano entre representantes libaneses e israelenses, “Israel” seguiu atacando o sul do país. Neste domingo, aviões israelenses bombardearam a cidade de Mayfadoun, na região de Nabatieh.
A Al Mayadeen informou, citando o Canal 12 de “Israel”, que o acordo assinado entre o governo libanês e “Israel” contém um anexo de segurança mantido em segredo a pedido das autoridades libanesas. Segundo a imprensa israelense, o documento não estabelece prazos fixos para a retirada israelense, mas condiciona qualquer movimento ao que “Israel” define como “sucesso no terreno”.
O Canal 12 também informou que as chamadas zonas-piloto em território libanês não serão ampliadas sem autorização israelense. As áreas de Froun e Zawtar al-Gharbiyah foram declaradas zonas-piloto, embora não contem com presença militar israelense. A mesma reportagem afirma que autoridades libanesas concederam a “Israel” liberdade de ação na chamada “Linha Amarela”, uma área que inclui dezenas de vilas e cidades libanesas cujos moradores seguem deslocados.
O Canal 14 de “Israel” afirmou que o aparato militar israelense se prepara para uma permanência prolongada no Líbano, que pode durar anos. A divulgação dessas informações provocou protestos em Beirute. Manifestantes bloquearam vias em Ramlet al-Bayda, Salim Salam, Msharafiyeh e em áreas dos subúrbios ao sul da capital, denunciando o acordo patrocinado pelos EUA.
O presidente do Parlamento libanês, Nabih Berri, também criticou o acordo assinado em território norte-americano. Em conversa telefônica com Mohammad Bagher Qalibaf, presidente do Parlamento iraniano, Berri classificou o documento como uma “conspiração perigosa” e um plano para provocar conflitos internos no Líbano.
Qalibaf afirmou que o fim da guerra contra o Líbano, a volta dos deslocados, o fim da ocupação e a retirada total de “Israel” do território libanês fazem parte da primeira cláusula do memorando de Islamabad. Segundo a Al Mayadeen, os dois presidentes parlamentares defenderam a convocação de uma unidade trilateral de gestão do conflito, formada por Irã, EUA e Líbano, para fiscalizar a execução do acordo relativo ao Líbano.
Também neste domingo, o Líder da Revolução Islâmica, Aiatolá Saied Mojtaba Khamenei, enviou mensagem por ocasião da Semana do Judiciário no Irã. Ele ordenou que o Judiciário persa leve adiante ações legais para restaurar os direitos do povo iraniano violados pelas guerras de agressão promovidas pelos EUA e por “Israel”.
Khamenei afirmou que os crimes cometidos nas guerras de junho de 2025 e fevereiro de 2026, incluindo o assassinato do mártir Aiatolá Saied Ali Khamenei, ataques a centros médicos e de serviços públicos e a morte de crianças, recém-nascidos e idosos, formam a base para centenas ou milhares de processos judiciais.
“O que é certo é que os criminosos devem ser levados à Justiça e obrigados a enfrentar as consequências de seus atos criminosos”, declarou o Líder da Revolução Islâmica.
Khamenei também afirmou que declarações de autoridades norte-americanas e israelenses assumindo ou celebrando esses ataques constituem confissões que fortalecem as ações judiciais do Irã em tribunais nacionais e internacionais.
Enquanto isso, os ataques israelenses contra a Faixa de Gaza também continuaram. Segundo a Al Mayadeen, um palestino foi morto e outros ficaram feridos quando forças israelenses atacaram uma barraca de deslocados na região de Al Mawasi, em Khan Iúnis. A menina Ellen Islam al-Farra, de 13 anos, morreu após ser atingida por estilhaços de artilharia nas proximidades da rotatória Bani Suhaila, a leste da cidade.
Outro palestino foi morto e quatro ficaram feridos em um ataque perto de Tabarayya, a noroeste de Khan Iúnis. Também foram registrados bombardeios em Rafah, no sul da Faixa de Gaza, e disparos de tanques e armas pesadas contra áreas a oeste de Beit Lahia, no norte, além dos bairros al-Salatin e al-Atatra.
O Ministério da Saúde de Gaza informou que o número de mortos desde 7 de outubro de 2023 subiu para 73.054, além de 173.480 feridos. Desde o cessar-fogo anunciado em 11 de outubro, pelo menos 1.041 palestinos foram mortos e 3.372 ficaram feridos. As autoridades de saúde também alertaram que cerca de metade das máquinas de diálise renal parou de funcionar por falta de suprimentos médicos.




