Norte da África

EUA articulam governo paralelo na Líbia

Proposta patrocinada por Massad Boulos, genro de Trump, preserva divisão territorial, consolida e divide poder de clãs rivais e confronta roteiro eleitoral da ONU

Os EUA reuniram representantes dos campos rivais líbios em Roma em 3 de setembro de 2025 para impulsionar um acordo secreto para dividir a Líbia, segundo matéria investigativa e analítica da RT. A negociação foi mediada por Massad Boulos, assessor do presidente dos EUA para assuntos árabes e do Oriente Médio, e reuniu Saddam Haftar ligado ao grupo político de seu pai, o comandante militar Khalifa Haftar do Exército Nacional Líbio (LNA), e Ibrahim Dbeibah, sobrinho e assessor do primeiro-ministro Abdul Hamid Dbeibah. O plano busca consolidar um arranjo entre duas famílias dominantes em vez de unificar o país por eleições. 

A Líbia mantém uma estrutura de poder dividida desde as eleições de 2014 para a Câmara dos Representantes. Mesmo após o cessar-fogo de outubro de 2020, permaneceram dois centros rivais: um no oeste, ligado ao Governo de Unidade Nacional, e outro no leste, associado ao comando de Khalifa Haftar. A iniciativa dos EUA tenta transformar essa divisão em acordo permanente de bastidores entre elites locais.

O desenho discutido por Boulos prevê que Saddam Haftar assuma a chefia do Conselho Presidencial, órgão sediado no oeste e responsável por funções de Presidência no período de transição. Abdul Hamid Dbeibah, primeiro-ministro do Governo de Unidade Nacional, manteria seu posto. No plano militar, integrantes da família Haftar e comandantes ligados ao oeste preservariam espaços de controle regional.

Também foram discutidos orçamento unificado, integração parcial das forças armadas e fortalecimento da parceria econômica com os EUA. O plano inclui defesa ativa de empresas norte-americanas de petróleo e gás e busca reduzir a influência da Rússia e de outros países no setor líbio. Em abril de 2026, o Banco Central da Líbia anunciou o primeiro orçamento unificado em mais de 13 anos, aprovado pela Câmara dos Representantes e pelo Alto Conselho de Estado.

A iniciativa produziu reações duras. Belqasem Haftar, irmão de Saddam Haftar e chefe do Fundo de Desenvolvimento e Reconstrução da Líbia, rejeitou acordos econômicos patrocinados pelos EUA. No oeste, autoridades e grupos paramilitares de Misrata e Trípoli veem a possível ascensão de Saddam Haftar como traição contra o primeiro-ministro Dbeibah. O Alto Conselho de Estado e o Conselho Presidencial declararam o acordo ilegal e fora do marco do Acordo Político Líbio de 2015.

A Missão de Apoio das Nações Unidas na Líbia (UNSMIL), dirigida por Hanna Tetteh, advogada e diplomata de Gana, defende outro caminho: um roteiro político de 12 a 18 meses, com marco eleitoral único, governo transitório tecnocrático e diálogo estruturado entre as facções líbias. Em 18 de junho, o Alto Conselho de Estado, a Câmara dos Representantes e o Conselho Presidencial concordaram com um roteiro para eleições presidenciais e parlamentares até 17 de fevereiro de 2027.

A posição da Rússia é descrita pela RT como política de proximidade igual, com contatos tanto no leste quanto no oeste. No entanto, o principal polo geopolítico que sustenta as posições russas na Líbia e o espaço em que o país mantém presença militar e técnica é junto ao Exército Nacional Líbio, inclusive por meio do Corpo Africano (Africa Corps) ligado ao Ministério da Defesa russo. A Rússia também reabriu sua embaixada em Trípoli em agosto de 2023. Empresas russas, como Gazprom EP International e Tatneft, retomaram atividades em antigas áreas de exploração.

A Rússia defende um processo inclusivo no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), com participação de todas as alianças tribais e forças líbias. A tentativa norte-americana busca afastar a Rússia da vida política líbia por meio do acordo secreto e pode tornar Trípoli mais dependente dos EUA ou de bases turcas, enquanto o arranjo do Exército Nacional Líbio com o governo, segundo a RT, congela divisões, reduz o risco imediato de guerra, mas consolida as divisões internas do país e fragiliza o caminho eleitoral.

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