O governo dos Estados Unidos anunciou o envio de US$20 milhões ao governo de Rodrigo Paz, na Bolívia, sob o pretexto de fortalecer o combate ao narcotráfico e ao crime organizado. O acordo, assinado nesta terça-feira (16) pelo chanceler boliviano Fernando Aramayo e pela encarregada de negócios da embaixada norte-americana em La Paz, Debra Hevia, ocorre em meio a uma crise política marcada por protestos, bloqueios de estradas e reivindicações pela renúncia do presidente boliviano.
A verba será destinada, segundo a chancelaria boliviana, à “cooperação técnica”, “capacitação” e “compra” de equipamentos para instituições de “segurança pública”, “investigação policial” e “combate ao crime organizado”. Isto é, um reforço direto dos Estados Unidos aos aparelhos repressivos do Estado boliviano justamente no momento em que organizações sindicais, camponesas e setores ligados ao ex-presidente Evo Morales mobilizam-se contra o governo.
O caráter político da medida fica ainda mais evidente porque ela foi precedida por declarações de apoio de altos funcionários do governo norte-americano a Rodrigo Paz. O secretário de Estado Marco Rubio e o secretário de Guerra Pete Hegseth manifestaram respaldo ao presidente boliviano, que passou a apresentar as mobilizações populares como resultado não de reivindicações legítimas, mas também de supostos “interesses narcoterroristas”.
O governo boliviano tenta colocar a mobilização popular no mesmo terreno da ação policial. O suposto “combate ao narcotráfico” é apenas pretexto para justificar repressão, prisões e intervenção estrangeira.
A aproximação entre o governo Paz e os Estados Unidos também marca uma mudança profunda na política externa boliviana. As relações entre os dois países haviam sido congeladas em 2008, quando Evo Morales expulsou a Agência de Administração de Drogas dos EUA (DEA, na sigla em inglês) e o então embaixador norte-americano Philip Goldberg, denunciados por conspirar contra o governo boliviano.
Agora, o governo Paz prepara o retorno da DEA ao país. Em maio, o ministro da Defesa, Ernesto Justiniano, anunciou que a agência norte-americana voltaria a ter presença na Bolívia por meio de um escritório em La Paz para troca de informações policiais. O próprio ministro já havia confirmado, em abril, que a Bolívia havia retomado investigações conjuntas de casos de narcotráfico com a DEA.
A Bolívia também aderiu, em março, ao programa norte-americano Escudo de las Américas, apresentado como uma iniciativa de cooperação contra o crime transnacional. Poucos dias depois, a polícia boliviana, em cooperação com os serviços de inteligência dos EUA e de países vizinhos, capturou em Santa Cruz o uruguaio Sebastián Marset, entregue no mesmo dia à DEA e levado para território norte-americano.
A operação serviu como propaganda para o retorno da presença norte-americana no país. No entanto, o próprio vice-presidente boliviano, Edmand Lara, questionou a adesão da Bolívia ao programa e o retorno da DEA. Em vídeo divulgado pelos canais da vice-presidência, Lara afirmou que o Ministério de Governo vendeu a ideia de que o programa norte-americano e a DEA seriam uma solução, mas que os fatos indicam o contrário. O vice-presidente também questionou se as instituições bolivianas estão defendendo a segurança do Estado ou permitindo a consolidação de uma estrutura de proteção ao crime organizado.
Sob a bandeira do combate ao narcotráfico, o imperialismo norte-americano amplia sua ingerência sobre um país estratégico da América Latina. O alvo imediato é a mobilização popular contra Rodrigo Paz. O objetivo maior é recolocar a Bolívia sob controle direto dos Estados Unidos, revertendo as medidas adotadas nos anos anteriores contra a presença da DEA e contra a atuação conspiratória da embaixada norte-americana.





