Bolívia

Evo Morales: ‘trata-se de uma sublevação do povo boliviano’

Mobilizações foram ratificadas em assembleias populares e reuniões ampliadas; Evo Morales denuncia ligação do governo com escândalo de drogas

Neste domingo (14), assembleias populares e reuniões ampliadas de setores camponeses, moradores e organizações populares ratificaram a manutenção dos bloqueios de estradas até a renúncia do presidente Rodrigo Paz Pereira.

As mobilizações ocorrem diante da recusa do governo em atender as reivindicações populares e da tentativa de apresentar os bloqueios como uma medida enfraquecida. Segundo os setores mobilizados, a imprensa burguesa procura passar a ideia de cansaço entre os manifestantes, quando, na verdade, os protestos estão se ampliando em várias regiões do país.

Camponeses de La Paz, Oruro, Cochabamba e Potosí manifestaram repúdio ao governo. Em Caranavi, nos Yungas de La Paz, os moradores decidiram manter o bloqueio até que “Paz Pereira vá embora”. Também denunciaram o envio de grupos paramilitares pelo governo para tentar desbloquear a região.

No trópico de Cochabamba, as Seis Federações ratificaram a continuidade dos bloqueios na estrada que liga Cochabamba a Santa Cruz. O ex-presidente Evo Morales, dirigente do setor, afirmou que a mobilização tem como objetivo impedir a privatização dos serviços básicos, dos recursos naturais e das empresas estratégicas do Estado.

“Trata-se de uma sublevação do povo boliviano”, declarou Morales.

A Federação Sindical Única de Trabalhadores Originários Camponeses da Província Los Andes Túpac Katari e a Federação Bartolina Sisa também decidiram, em uma assembleia popular chamada “Desperta Bolívia”, radicalizar as medidas de pressão e ampliar os bloqueios no departamento de La Paz até a renúncia de Rodrigo Paz.

Além da saída do presidente, os setores mobilizados exigem a libertação dos presos, a ocupação de instituições e medidas contra a crise econômica que atinge as famílias camponesas e os setores populares, marcada pelo aumento do custo de vida, pela falta de combustíveis e pelo desemprego.

“Vamos massificar os bloqueios, ocupar instituições e não pararemos até a renúncia de Rodrigo Paz e seus ministros”, diz o documento aprovado pelos setores reunidos. O texto também rejeita qualquer tentativa de negociação com o governo.

Diante da decisão de diversas regiões de manter os bloqueios, a Central Operária Boliviana (COB) convocou uma reunião ampliada de emergência para este domingo, às 14 horas, para decidir se continua com as medidas de pressão ou se aceita a abertura de diálogo com o governo.

No mesmo dia, Evo Morales também denunciou o governo Rodrigo Paz por sua relação com escândalos envolvendo drogas encontradas em carregamentos de madeira e portas. Durante o programa Evo pueblo, líder de los humildes, transmitido aos domingos pela Rádio Kausachun Coca, em Lauca Eñe, no município de Sinahota, no trópico de Cochabamba, Morales desafiou o governo a demonstrar que não tem relação com os casos.

O ex-presidente citou as “madeiras com drogas” detectadas no Chile e as “portas com drogas” que estavam prestes a sair do aeroporto de Viru Viru rumo aos Estados Unidos.

“Eu quero desafiar publicamente o governo de Rodrigo Paz a prender todos os policiais que levaram as madeiras com drogas ao aeroporto de Viru Viru. Que digam quem deu a ordem, de quem é essa madeira, e se livram”, afirmou.

Morales disse ainda que, caso as autoridades não ajam contra os responsáveis, o povo boliviano concluirá que o próprio governo está por trás do envio da droga. O ex-presidente criticou Paz por tentar apresentar as mobilizações populares como “narcoterrorismo”, enquanto escândalos de tráfico de drogas ocorrem ao redor do governo.

Evo também denunciou perseguição militar no trópico de Cochabamba. Segundo ele, civis e militares monitoram seus movimentos com o objetivo de prendê-lo.

“Estamos informados de como civis estão tentando me prender e me perseguir. Denunciam-nos que o subcomandante da 9ª Divisão está encarregado de perseguir Evo, chama-se Boris Gonzalo Medina Martínez”, declarou.

A denúncia de Morales ocorre em meio à escalada repressiva contra as mobilizações. Nos últimos dias, o governo intensificou a ofensiva contra os bloqueios, prendeu manifestantes e atacou organizações camponesas e operárias. A resposta, no entanto, tem sido a ampliação das medidas de pressão.

O governo Rodrigo Paz enfrenta uma rebelião popular que reúne camponeses, trabalhadores, moradores das regiões pobres e organizações sindicais. A reivindicação central já não é apenas econômica. Os setores mobilizados passaram a exigir a renúncia do presidente, visto como responsável pela crise, pela repressão e pela tentativa de entregar os recursos do país aos interesses privados e estrangeiros.

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