Familiares de vítimas da repressão estatal e organizações populares protestaram nesta terça-feira (28), em Lima, contra a posse de Keiko Fujimori na Presidência do Peru. Os manifestantes classificaram o novo governo como “fraudulento e ilegítimo” e denunciaram o retorno do fujimorismo ao poder 26 anos depois do fim da ditadura de Alberto Fujimori.
A posse ocorreu durante uma sessão solene do Congresso, no dia em que o país completou 205 anos de sua independência. Fujimori governará até 2031. Também assumiram os vice-presidentes Luis Galarreta e Miguel Torres.
Confirmada pelo Júri Nacional de Eleições (JNE) no dia 3 de julho, Fujimori recebeu oficialmente 9.223.396 votos, ou 50,135% dos votos válidos. Roberto Sánchez ficou com 49,865%. A diferença foi de apenas 49.641 votos e dependeu da contagem dos votos do exterior.
Foi a quarta tentativa de Keiko Fujimori de chegar à Presidência. Com a posse, tornou-se a primeira mulher eleita para o cargo pelo voto “popular” no Peru, na base de uma intensa fraude eleitoral.
Oposição abandona sessão
Antes do discurso presidencial, parlamentares da oposição exibiram fotografias de vítimas da repressão e deixaram o plenário. As bancadas recusaram-se a ouvir Fujimori, que reagiu com um gesto de contrariedade.
Em seu pronunciamento, a nova presidenta declarou que o Peru começaria a “escrever seu futuro pelos próximos cinco anos” e afirmou ter recebido um Estado “em abandono”.
A declaração esconde o papel do próprio fujimorismo na crise política peruana. A bancada do Força Popular participou diretamente das disputas entre o Congresso e o Executivo e das manobras que derrubaram ou paralisaram sucessivos governos.
O Peru teve oito presidentes em cerca de uma década. Nesse período, o Congresso controlado pelos partidos de direita transformou a destituição presidencial em instrumento permanente de pressão política, impulsionado pelas forças imperialistas de fora do país.
Protesto reúne familiares de vítimas
Familiares de pessoas assassinadas ou desaparecidas durante a repressão das décadas de 1980, 1990 e 2000 concentraram-se diante do Palácio da Justiça, no centro de Lima.
A mobilização reuniu parentes de vítimas dos governos de Alberto Fujimori, Dina Boluarte e José Jerí. Os organizadores convocaram uma vigília, uma marcha nacional e um desfile alternativo às comemorações oficiais das Festas Pátrias.
Na Alameda Paseo de los Héroes, os manifestantes colocaram fotografias das vítimas, velas e cartazes. O ato denunciou os desaparecimentos forçados, as execuções extrajudiciais, as torturas e as esterilizações forçadas praticadas por agentes do Estado.
Integrantes da cúpula fujimorista e comandos militares e policiais foram condenados por parte desses crimes, mas em geral a ditadura criminosa de Fujimori e os sucessivos governos golpistas continuam impunes até hoje.
Entre as palavras de ordem exibidas no protesto estava: “Keiko só pisará em Puno se derrogar todas as leis pró-crime”. Outra mensagem afirmava que “não é possível a reconciliação com um discurso vazio”.
Congresso aprova proteção aos repressores
A posse ocorreu poucas horas depois de o presidente do Congresso, o fujimorista Fernando Rospigliosi, promulgar a chamada lei de impunidade.
A medida beneficia policiais e militares acusados de crimes cometidos durante a repressão política. Sua promulgação levou os familiares das vítimas a convocar os protestos dos dias 27 e 28 de julho.
Milagros Samillán, uma das representantes das famílias, declarou que o movimento não reconhece Keiko Fujimori como presidenta e não pretende dialogar com seu governo.
Os organizadores afirmaram que a mobilização seria pacífica e responsabilizaram politicamente Fujimori por qualquer ataque policial contra os participantes.
“Quem age com violência é o Estado, que coloca a polícia para reprimir”, declarou Milagros Samillán.
Retorno do fujimorismo ameaça investigações
Raúl Samillán, presidente da Associação de Familiares de Vítimas dos Massacres de 2022 e 2023, afirmou à teleSUR que a chegada de Fujimori ao governo representa um retrocesso na luta por justiça.
Samillán manifestou a expectativa de que uma coalizão de partidos na Câmara dos Deputados possa aprovar leis para responsabilizar os autores das violações cometidas pelas forças de repressão.
A preocupação dos familiares é reforçada pela aprovação da lei de impunidade e pelo histórico do grupo político que voltou ao Executivo com o apoio do imperialismo.
Durante o governo de Alberto Fujimori, entre 1990 e 2000, o Estado peruano foi responsável por massacres, desaparecimentos e esterilizações forçadas. O ex-presidente foi condenado por crimes contra os direitos humanos.
Sánchez convoca mobilização nacional
O candidato de esquerda Roberto Sánchez, derrotado oficialmente por uma diferença inferior a 50 mil votos, convocou manifestações pacíficas em todo o Peru para o dia da posse.
O chamado coincidiu com as Festas Pátrias, período em que tradicionalmente são realizadas cerimônias e desfiles oficiais. A oposição procurou transformar a data em uma jornada de denúncia contra a fraude eleitoral e a volta do fujimorismo.
As acusações de fraude acompanham o processo desde a primeira votação. A eleição de abril foi marcada por atrasos, falhas na distribuição dos materiais e locais que não conseguiram abrir.
Somente em Lima, mais de 52 mil eleitores foram prejudicados pela falta de material eleitoral. A votação precisou ser prorrogada em 187 mesas.
A eleição presidencial terminou com uma margem de 0,27 ponto percentual e foi decidida pelos votos contabilizados fora do país.
Capachos do imperialismo prestigiam Fujimori
A posse reuniu representantes de governos de direita da América Latina e aliados das potências imperialistas.
Compareceram o rei Felipe VI, da Espanha, e os presidentes Javier Milei, da Argentina; José Antonio Kast, do Chile; Rodrigo Paz, da Bolívia; Daniel Noboa, do Equador; Santiago Peña, do Paraguai; Yamandú Orsi, do Uruguai; José Raúl Mulino, do Panamá; e Nasry Asfura, de Honduras.
Donald Trump foi representado pelo vice-secretário de Estado norte-americano Christopher Landau. A China enviou o ministro da Ciência e Tecnologia, Yin Hejun. O ex-presidente mexicano Vicente Fox também esteve em Lima.
Enquanto as autoridades estrangeiras participavam da cerimônia no Congresso, os familiares permaneciam diante do Palácio da Justiça com as fotografias dos mortos e desaparecidos, exigindo a revogação da lei que protege policiais e militares acusados de participar da repressão.





