Eleições 2026

Para derrotar bolsonarismo, será preciso muito mais que escândalos de corrupção

Extrema direita é um fenômeno social profundo, nascido das entranhas de um capitalismo em decomposição

Flávio Bolsonaro

No último dia 15 de junho de 2026, o portal Esquerda em Movimento publicou o artigo intitulado Nova pesquisa mantém favoritismo de Lula no 2º turno, comemorando os dados do levantamento Nexus que apontam uma vantagem numérica do atual presidente. Sob o subtítulo triunfalista de que a “extrema direita perde espaço eleitoral após luta pelo fim da 6×1 e escândalo de corrupção do Bolsomaster”, a redação do portal opera um duplo estelionato analítico. Primeiro, tenta transformar as variações normais de uma amostragem estatística em uma tendência consolidada; segundo, vende a ilusão de que um movimento social profundamente enraizado na crise capitalista pode ser liquidado por meio de um escândalo de corrupção.

O cretinismo do texto salta aos olhos logo na abertura, quando se apega aos números de momento para decretar uma estabilidade fictícia. Escreve a redação:

“A recente pesquisa Nexus, divulgada hoje (15/06), confirma o favoritismo de Lula na próxima eleição presidencial. No primeiro turno, o presidente marca 42% das intenções de voto contra 33% de Flávio Bolsonaro (…) Já na segunda volta, Lula marca 49% das intenções de voto contra 43% de Flávio…”

Pesquisas de opinião sempre apresentam oscilações conjunturais. Além disso, não houve amostragem suficiente ou continuada para registrar uma tendência real de derretimento da oposição. De fato, levantamentos recentes de outros institutos apontaram cenários de empate técnico ou mesmo de vitória numérica de Flávio Bolsonaro.

Mesmo se nos basearmos nos dados mais otimistas e inflados apresentados pelo artigo, a distância de 49% contra 43% no segundo turno demonstra que a base eleitoral da direita continua robusta e altamente competitiva. Não há qualquer indício de queda vertiginosa ou desabamento estrutural.

O artigo avança em sua mistificação ao tentar fundir os problemas táticos de uma candidatura familiar com o destino de todo um movimento social de massas. A redação afirma, com indisfarçável simplismo, o seguinte diagnóstico:

“A queda na popularidade do candidato da extrema direita começou com as revelações sobre sua relação com o banqueiro preso Daniel Vorcaro (…) indicando o que seria o escândalo do ‘Bolsomaster’. Por outro lado, a agenda positiva do governo também tem influenciado a popularidade de Lula. O avanço da proposta pelo fim da escala 6×1 na Câmara, o Desenrola (…), as isenções do imposto de renda, entre outras iniciativas, atuam em favor desta diferença.”

Nessa passagem, o portal utiliza propositalmente o termo “extrema direita” para rotular o que seria apenas o desgaste pessoal e momentâneo de Flávio Bolsonaro, tentando enganar o leitor. Ainda que a candidatura do senador fosse abalada pelo escândalo do Caso Master e pela proximidade espúria com Daniel Vorcaro, isso não significaria a derrota da extrema direita em si. A extrema direita é um fenômeno social profundo, nascido das entranhas de um capitalismo em decomposição, que mobiliza o latifúndio, as forças repressivas e amplos setores da pequena burguesia radicalizada pela crise.

Achar que esse movimento vai evaporar porque o governo aprovou um relatório rebaixado de jornada de trabalho na Câmara ou porque lançou um programa de refinanciamento de dívidas como o Desenrola é ridículo. A extrema direita só pode ser derrotada por meio da luta política aberta e do enfrentamento direto das massas nas ruas contra a propriedade privada e as bases materiais da exploração. Ao reduzir o combate à extrema direita a uma lista de medidas administrativas favoráveis em ano eleitoral,  a esquerda pequeno-burguesa rebaixam o horizonte da classe operária.

O artigo tenta amarrar o resultado das urnas de 2026 ao destino da resistência no continente:

“Em um cenário de enorme interferência de Trump na América Latina, tanto em ataques diretos, como em Venezuela ou Cuba, como na influência sobre eleições recentes da Colômbia e do Peru, as próximas eleições brasileiras serão muito importantes também para definir o cenário no qual a luta anti-imperialista se desenvolverá no continente. E isso coloca a derrota da extrema direita como tarefa central no Brasil.”

Esta formulação opera uma completa e criminosa inversão da realidade. A luta anti-imperialista não é um subproduto que se desenvolve a partir do resultado de uma disputa eleitoral burguesa institucional; a luta anti-imperialista é definida por ela mesma, pela mobilização independente das massas operárias e camponesas. Creditar ao voto em Lula o poder de desenhar o cenário anti-imperialista é o pretexto que a esquerda pequeno-burguesa utiliza para desarmar a população e canalizar toda a energia revolucionária para os marcos estreitos do sufrágio.

O que o portal esconde de é que o atual governo brasileiro não está constituindo nenhuma barreira real para conter o avanço do imperialismo na América Latina, mas está, na verdade, capitulando diante dele. Vender a ilusão de que a recondução do governo é a “tarefa central” para frear os ataques do imperialismo é de uma ingenuidade tremenda.

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