Brasil

Sem romper com frente, não há como lutar contra a extrema direita

Dirigente do PSOL usa ofensiva neoliberal sobre a América Latina para justificar manutenção de política de submissão dos trablahadores a seus inimigos de classe

No último dia 1º de junho de 2026, o historiador e dirigente do PSOL, Valerio Arcary, publicou no portal Esquerda Online o artigo intitulado Alerta vermelho vem da Colômbia. Utilizando o revés sofrido pela esquerda moderada colombiana no primeiro turno das eleições presidenciais — onde o candidato da extrema direita, Abelardo de la Espriella, superou Iván Cepeda —, o autor apresenta uma longa e exaustiva digressão sobre a conjuntura da América Latina. O texto desfila uma contabilidade de derrotas, citando os cenários da Argentina com Javier Milei, do Chile com Antonio Kast, do Equador com Daniel Noboa e do Peru com Keiko Fujimori, para concluir que o continente enfrenta uma “onda neofascista resiliente”.

Contudo, a análise de Arcary promove uma imensa cortina de fumaça conjuntural para fugir do debate central. O avanço da extrema direita e o fortalecimento de Flávio Bolsonaro no Brasil não são fenômenos metafísicos; são o resultado direto da falência da política capituladora da própria esquerda pequeno-burguesa. Ao recusar-se a apontar que a causa da crise é a ausência de um programa independente da classe operária e a submissão à política de Frente Ampla, o colunista utiliza o espantalho do avanço da direita internacional para chantagear a militância, justificando que se continue apoiando uma política desmoralizada sob o pretexto de que “o monstro está chegando”.

Escreve Arcary, operando a engrenagem do pânico metodológico para paralisar a crítica:

“O resultado do primeiro turno das eleições presidenciais na Colômbia acende um alerta vermelho, também, para as eleições de outubro no Brasil. (…) O fortalecimento da extrema-direita na América Latina, inclusive, com acento neofascista, não foi interrompido, e pode não ter atingido o seu ápice. Nesse marco as eleições brasileiras serão uma encruzilhada decisiva.”

O autor apresenta o avanço do “neofascismo” como uma força de gravidade autônoma, omitindo deliberadamente o fato de que Gabriel Boric no Chile, o kirchnerismo na Argentina e o MAS na Bolívia caíram ou se desorganizaram precisamente porque governaram aplicando os planos de austeridade da burguesia, frustrando as massas trabalhadoras e limpando o terreno para a demagogia da extrema direita. Utilizar os desastres gerados pela conciliação de classes no exterior para exigir que o trabalhador brasileiro aceite mais conciliação de classes no cenário doméstico é de um oportunismo rasteiro.

O esvaziamento programático do artigo fica claro quando autor analisa o cenário brasileiro atual e tenta propor uma saída de aparências para a campanha eleitoral de 2026. Arcary reconhece, de forma tímida, que a atual linha política governista é insuficiente, mas se recusa a romper com os aspectos centrais de sua política. Escreve o dirigente do PSOL:

“Uma linha somente de defesa do legado governo Lula não será suficiente para derrotar o bolsonarismo (…) Diante deste cenário, um giro para o centro teria consequências devastadoras. O que se torna imperativo é um giro corajoso para a luta ideológica, a disputa de valores, a defesa de uma visão de mundo (…) Um giro à esquerda deve ser compreendido como um programa de audácia diante do futuro anunciando compromissos simples, claros e cristalinos com o que virá. Brasil soberano face a Trump, reforma política com o fim das emendas parlamentares, imposto sobre as grandes fotunas, passe livre, defesa da Amazônia, reversão de privatizações…”

Essa lista de supermercado apresentada como um “programa de audácia” revela a paralisia da esquerda pequeno-burguesa e da esquerda identitária. Apresentar propostas como o imposto sobre grandes fortunas ou a reversão de privatizações como meros slogans de propaganda para uma campanha eleitoral que está totalmente limitda aos acordos com a burguesia é pura demagogia. Arcary faz toda essa enrolação sobre o programa, mas se nega a formular a única conclusão possível: não existe “giro à esquerda” ou defesa da soberania nacional sem romper imediatamente com a Frente Ampla e sem expulsar os representantes do capital financeiro de dentro do bloco governista.

A política de aliança com os inimigos de classe é o verdadeiro combustível do bolsonarismo. Quando o governo se recusa a enfrentar a política fiscal exigida pelo grande capital para não contrariar os ministros burgueses da coalizão, quem paga a conta é a população pobre por meio da destruição dos serviços públicos. O trabalhador que ganha acima do salário médio, citado de passagem por Arcary como base da direita, percebe a capitulação da esquerda pequeno-burguesa e acaba capturado pelo charlatanismo da extrema direita, que se apresenta falsamente como a única força de oposição real ao sistema. Ao propor um “giro ideológico” sem propor a destruição das alianças com a burguesia, o autor tenta transformar a política revolucionária em uma disputa abstrata de “valores” e “compromissos emocionais”, mantendo a classe operária a reboque da gerência do Estado capitalista.

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