Polêmica

Foram Trump e Bolsonaro quem inventaram a mentira?

A mentira, a dissimulação, a manipulação de dados e a propaganda enganosa nunca foram acidentes de percurso ou desvios éticos contemporâneos

No último dia 13 de junho de 2026, o portal Brasil 247 publicou o artigo A mentira como método e a chantagem como projeto de poder, assinado pela advogada e doutora em Educação Elisabeth Lopes. No texto, a autora desenvolve uma extensa e detalhada crônica sobre os escândalos políticos que sacodem o país, mencionando desde as denúncias de propina bilionária envolvendo Davi Alcolumbre e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro até as manobras discursivas de Flávio Bolsonaro no Caso Master e as postagens de Nikolas Ferreira sobre a taxação do Pix.

Contudo, por trás da aparente indignação com a extrema direita, o que temos é a substituição da análise científica da luta de classes por uma concepção puramente moralista da política. Ao tentar explicar o avanço da reação, a autora recorre a categorias abstratas e idealistas, tratando o engano político como se fosse uma patologia contemporânea inédita, um mero desvio ético que corrói a pureza do debate público.

O ponto de partida do artigo revela esse viés idealista ao tentar caracterizar a atuação de figuras como Donald Trump e a família Bolsonaro sob o rótulo acadêmico da “pós-verdade”. Escreve a articulista:

“A mentira, além de ser um sério desvio ético, transformou-se em método, estratégia de comunicação e instrumento de desgaste coletivo. (…) O que distingue nosso tempo não é apenas a existência da fraude política, mas a sua prática contumaz.”

A mentira, a dissimulação, a manipulação de dados e a propaganda enganosa nunca foram acidentes de percurso ou desvios éticos contemporâneos; elas são ferramentas de dominação de classe que existem desde que a sociedade foi dividida entre exploradores e exploradores. A burguesia, para manter o seu domínio sobre a força de trabalho, sempre precisou mascarar a realidade da exploração por meio da mentira. Tratar o cinismo de Flávio Bolsonaro ou a demagogia de Ciro Nogueira como um fenômeno novo e puramente moral é despolitizar o debate, ocultando que a fraude política é o subproduto natural de um sistema econômico em decomposição que já não tem nenhum progresso real a oferecer à população.

A insistência da esquerda pequeno-burguesa em focar o debate na existência das chamadas fake news cumpre uma função política muito clara e covarde: omitir a sua própria falta de programa e a sua paralisia diante do capital. Ao pintar o cenário político como um campo de batalha onde a verdade é uma vítima indefesa de vilões hiperativos, o artigo de Elisabeth Lopes tenta absolver os governos reformistas de suas responsabilidades.

Essa transferência de culpa serve para esconder que a extrema direita só consegue canalizar a insatisfação popular porque a esquerda pequeno-burguesa capitulou vergonhosamente diante da gestão do Estado capitalista. Quando os partidos reformistas assumem o governo e decidem manter a política neoliberal de responsabilidade fiscal, preservando os lucros dos banqueiros e se recusando a romper com as amarras econômicas da burguesia, eles frustram as expectativas de mudança da classe operária.

O trabalhador que se vê esmagado pela precarização não adere às mentiras de Nikolas Ferreira por pura ignorância. Ele o faz porque a esquerda pequeno-burguesa esvaziaram o debate, substituindo a luta pela destruição da exploração por discursos institucionais estéreis.

O perigo real dessa cruzada moralista contra a mentira manifesta-se quando a análise abre as portas, de forma aberta ou velada, para a intervenção repressiva do aparato de Estado sobre o debate público. Ao decretar que a falsificação dos fatos é uma ameaça contínua que corrói a “estabilidade democrática”, a esquerda pequeno-burguesa passa a defender o cerco institucional às liberdades democráticas, legitimando a censura judicial e a tutela dos tribunais sobre o que pode ou não ser dito.

Ideias reacionárias, como a redução da maioridade penal, e o charlatanismo da direita não se combatem com a polícia do pensamento ou com a expansão dos poderes repressivos do Estado. Combatem-se no terreno da luta política real, contrapondo à demagogia burguesa a força de um programa independente que unifique a classe trabalhadora pelo bolso e pelo estômago.

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