Polêmica

‘Civilização’ é nome fantasia para ditadura neoliberal

Espantalho da barbárie é agitando para que os trabalhadores aceitem passivamente a continuidade do programa econômico

Um artigo de Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, publicado no Poder360, é altamente representativo do impasse ideológico no qual se encontra a esquerda pequeno-burguesa. Ao tentar analisar a atual conjuntura eleitoral, o autor recorre à clássica retórica da “defesa da democracia” abstrata, transformando um profundo conflito econômico e de classes em uma batalha puramente ética entre o bem e o mal.

Kakay apresenta uma idealização nostálgica do regime político anterior à ascensão do bolsonarismo. O autor evoca um passado recente no qual as disputas palacianas ocorriam sem grandes sobressaltos institucionais, afirmando textual e tranquilamente:

“O Brasil seguia desigual e difícil, mas o fascismo não nos rondava. A democracia parecia consolidada.”

Essa formulação revela a essência do pensamento da esquerda pequeno-burguesa, que confunde a estabilidade dos negócios da burguesia com a existência de uma democracia real. O regime que o autor classifica como “consolidado” já era a ditadura do capital sobre o trabalho. Sob esse manto democrático, a esmagadora maioria da população operária continuava submetida à miséria, ao subemprego e à violência sistemática do aparato policial nas periferias.

A estabilidade que o articulista recorda com saudosismo nada mais era do que o período em que as frações da classe dominante conseguiam gerenciar o Estado e aplicar o arrocho fiscal sem a necessidade de recorrer a métodos abertamente ditatoriais ou de exceção.

“Agora, mais do que nunca, o que estamos vivendo nestas eleições é, novamente, o confronto da civilização com a barbárie.”

Essa tese da “civilização contra a barbárie” é uma ferramenta de propaganda destinada a paralisar a independência política da classe trabalhadora. Ao enquadrar o processo eleitoral nesses termos, as correntes reformistas forçam o eleitorado operário a aceitar uma aliança espúria com setores “civilizados” da própria burguesia — representados pelo sistema financeiro, pela imprensa capitalista e pela casta judicial do Supremo Tribunal Federal —, sob o argumento de que qualquer divergência programática deve ser sacrificada em nome da salvação da democracia.

A consequência prática dessa política de Frente Ampla é o completo esvaziamento das demandas econômicas dos explorados. Em nome da unidade com a “civilização”, a esquerda pequeno-burguesa renuncia abertamente a lutar contra o teto de gastos, contra a autonomia do Banco Central, contra as privatizações. O espantalho da barbárie é agitando para que os trabalhadores aceitem passivamente a continuidade do programa econômico neoliberal, sob a falsa promessa de que a manutenção das instituições republicanas é o bem supremo a ser preservado.

A incapacidade de enxergar as forças sociais profundas que movem a história leva o autor a personificar o processo político na figura de líderes providenciais e a depositar suas fichas no funcionamento dos tribunais. O artigo reproduz essa visão ao relatar uma conversa com o atual presidente da República:

“Lula me disse, em minha casa, na festa da diplomação do 3º mandato, em 2023, que só foi candidato porque era o único que tinha chance de vencer Bolsonaro, que tentava a reeleição. Uma eleição histórica que tirou o Brasil do caos. Devemos isso e muito mais à força desse político excepcional.”

Acreditar que a força de um “político excepcional” ou o “julgamento soberano pelo Supremo Tribunal Federal” são barreiras definitivas contra o fascismo é ridículo. O mesmo STF que hoje condena golpistas por conveniência do regime político é o que amanhã chancelará o esmagamento das greves operárias e a ilegalidade dos movimentos populares se a estabilidade do capitalismo for ameaçada.

Ao saudar as ações repressivas do Estado e se colocar como espectador de um jogo onde a soberania nacional e os direitos do povo dependem do resultado de delações premiadas de banqueiros, o discurso de Kakay desarma os explorados. A única resistência real e duradoura contra a reação e contra o entreguismo imperialista não virá da defesa jurídica da velha ordem que gerou a própria crise. Ela só pode surgir da organização independente das massas operárias.

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