O artigo O Papa e a técnica, de Eugênio Bucci, publicado no sítio A Terra é Redonda neste domingo (31), busca fazer uma análise das posições do papa Leão XIV em relação às tecnologias. Segundo aponta, “comentaristas anotaram com precisão que o sumo sacerdote não sataniza nem glorifica os algoritmos sagazes”. No entanto, Lênin já havia pontuado há muito tempo que não existe neutralidade.
Bucci considera que “esse é um dos pontos fortes do documento, que, em lugar de polemizar, pede um pouco de juízo aos seres humanos, sobretudo aos que se ocupam da programação das novíssimas ferramentas e aos que são donos das empresas detentoras das patentes. Entre os méritos da escrita papal, os editoriais destacaram a serenidade.”
A programação das novas ferramentas é feita por funcionários, ou seja, pessoas que tiram seu sustento desse ofício, e que estão subordinadas a interesses maiores. A detenção de patentes diz respeito ao próprio funcionamento do capitalismo e ninguém vai mexer nisso.
Durante a pandemia, por exemplo, o governo poderia ter decretado a quebra da patente das vacinas, mesmo que fosse durante um período de dois anos, mas não. Isso deve ter acontecido em outros países, pois os grandes laboratórios lucraram bilhões de dólares.
Exaltação
Eugênio Bucci levanta a bola de Leão XIV, diz que “a leitura [da encíclica] nos traz conhecimento e, de sobra, reaviva o espírito”. Diz ainda que “os registros jornalísticos não realçaram o que há de mais magnífico no texto: o diagnóstico atordoante que ele nos traz. Com inteligência bem-informada e crítica, ao lado de uma sabedoria incomum (…)”.
Como era de se esperar, o Vaticano tinha que entrar na luta do imperialismo contra as “novas tecnologias”. O papa, prudente, na opinião de Bucci, “detecta o risco de que as transformações da era digital produzam mais desigualdade: ‘O poder técnico, se não for equilibrado, não nos torna mais capazes: torna-nos mais sós e mais expostos a lógicas de domínio e de exclusão’”.
Lendo a frase acima, a primeira coisa que se deve pensar é: quando houve um equilíbrio do poder técnico? O capitalismo é caótico. A indústria, a competição, exigem novas técnicas e estas vão se sucedendo. Domínio, exclusão, tudo isso está na ordem do dia. É assim que o imperialismo age e contra ele a Igreja não se levanta.
“Indo mais longe”, prossegue o autor, o papa “acusa ‘a idolatria do lucro, que sacrifica os mais fracos’ e alerta para perigos de enorme proporção, algo que nunca se viu: ‘O poder tecnológico assume, destarte, uma identidade inédita, predominantemente ‘privada’ e, portanto, ainda mais difícil de discernir, gerir e orientar para o bem comum’”.
Também o papa, e isso se vê constantemente na maioria da esquerda, diz que existe um ineditismo, proporções nunca vistas que, na verdade, são reflexo da crise imperialista. Em vez disso, coloca-se a culpa do problema nas empresas de tecnologia.
Esse senso de urgência criado acaba justificando medidas cada vez mais arbitrárias. Como está escrito, “o Papa exige regulação e, com igual ênfase, anota que apenas a regulação não bastará. Se as big techs dessem ouvidos, ainda que moucos, a essa mensagem, fechariam imediatamente suas atividades para balanço – não balanço econômico, mas balanço ético”.
A regulação das big techs é, na realidade, a regulação dos usuários. Os governos, em nome da ética, da proteção das crianças, etc., estão exigindo que as plataformas digitais apaguem postagens consideradas ofensivas, ou mesmo que cancelem contas nas plataformas.
Estado x big techs
Bucci destaca mais um texto da encíclica que diz que “em muitos casos, no contexto digital, o controle das plataformas, das infraestruturas, dos dados e da capacidade de computação não é prerrogativa dos Estados, mas sim de grandes sujeitos econômicos e tecnológicos. (…) Quando um poder desta magnitude se concentra na mão de poucos, ele tende a tornar-se opaco e a fugir ao controle público, aumentando o risco dum desenvolvimento distorcido que gera novas dependências, exclusões, manipulações e desigualdades.”
Ocorre que os Estados é que estão empurrando para as plataformas digitais a obrigação e o poder de censurar. O Supremo Tribunal Federal, a Justiça, pode multar quem deixar no ar determinado tipo de conteúdo. A reação natural das plataformas, para evitar uma enxurrada de processos, será a de bloquear postagens mesmo sem que tenha havido um processo ou ordem judicial.
Não é verdade, como sustenta o articulista, que “uma criança de quatro anos de idade ‘brincando’ com um ‘joguinho’ na tela do celular não está se ‘divertindo’, como os pais acreditam: ela está trabalhando para as plataformas, está gerando valor para um negócio que opera na escala dos trilhões de dólares.” O que se está fazendo é alimentar automaticamente um banco de dados com hábitos e preferências. Isso já era feito pelas empresas de pesquisa de opinião. Antigamente, pesquisadores ligavam para as pessoas nos horários nobres para saber o que estavam assistindo, ou as entrevistavam nas ruas.
De posse dessas informações, as plataformas vão direcionar as propagandas, vender anúncios ou mesmo funcionar como lojas. Ou seja, o valor está nas mercadorias.
É impossível afirmar que “essa criança de quatro anos está sendo explorada do mesmo modo que, há 150 anos, outras crianças eram exploradas nas fábricas em Londres, em jornadas que se estendiam por mais de 14 horas”, são situações completamente diferentes. De um lado, temos uma criança alimentando involuntariamente uma base de dados, do outro, eram crianças produzindo mercadorias e sendo massacradas em alguma empresa.
Novo trabalho?
Segundo Bucci, “há um trabalho que ainda não foi bem descrito e bem quantificado: o trabalho do olhar e da atenção. Olhando para a tela, a magnifica humanitas trabalha para sedimentar signos que carregam valor. Olhar é trabalhar, e trabalhar de modo desumanizado.”, mas essa avaliação está incorreta. Não se extrai mais-valia do olhar. A big tech só vai lucrar se conseguir vender algum anúncio ou algum produto.
Finalmente, as novas tecnologias não são em si uma ameaça, cumprem o papel que sempre cumpriram. Quanto ao papa, também cumpre o papel reacionário de sempre.





