Polêmica

‘Imprevisibilidade’ é o resultado da crise terminal imperialista

A crise do imperialismo está empurrando o mundo para um cenário muito turbulento, que só pode ser solucionado com sua derrota

Crise do EUA

O artigo IA sem controle, avanço do protecionismo e riscos geopolíticos tornam futuro ainda mais imprevisível, de Ian Bremmer, publicado na Folha de S. Paulo nesta quinta-feira (4), levanta alguns pontos que é preciso rebater.

No primeiro parágrafo, o autor diz que “é um momento fascinante para a política mundial e os mercados globais. Geopoliticamente, o mundo está em turbulência, principalmente porque os Estados Unidos, ainda a superpotência, tornaram-se um ator fundamentalmente imprevisível.”

A turbulência, na realidade, é fruto da crise sem precedentes do imperialismo que tem como ponto de inflexão a “Fuga de Cabul”. Em agosto de 2021, um país atrasado expulsou os EUA e a OTAN, que ocupavam o Afeganistão havia 20 anos.

Naquele momento, a União Europeia criticou duramente o governo Biden, pois tinham ficado sem nenhuma posição importante na Ásia Central. Na outra ponta, a The Economist, uma revista que está entre os principais porta-vozes do imperialismo, declarou que a derrota abriria uma onda de revoltas, pois os países oprimidos pelo grande capital, ao verem que mesmo os mais pobres poderiam vencer o império, acabariam se inspirando e seguindo o exemplo.

Na sequência da vitória do Talibã, a Rússia iniciou sua operação militar na Ucrânia, diversos países africanos entraram em choque com o imperialismo, e no Oriente Médio o Eixo da Resistência provou que “Israel”, ao contrário da propaganda, não é invencível.

Para Bremmer, “o presidente Donald Trump está ativamente desmontando a ordem internacional que Washington construiu e liderou nos últimos 80 anos. No entanto, os mercados financeiros estão em alta –nos EUA, no Leste Asiático, na América do Sul e em grande parte da Europa”, quando, de fato, Trump é mais um fator de crise do imperialismo.

Embora o atual governo americano venha cedendo em muitos pontos, como na guerra de agressão contra o Irã, a plataforma eleitoral de Trump era o fim das guerras eternas, a repatriação de indústrias e a retomada do crescimento econômico dos Estados Unidos.

A dívida pública norte-americana drena uma fortuna para o sistema financeiro e para a indústria da guerra, o que tem provocado enormes pressões sobre a população e mesmo sobre o grande capital doméstico.

Inteligências artificiais

Segundo Bremmer, “não há restrições políticas ao desenvolvimento acelerado da inteligência artificial. Essa é a força motriz por trás da alta dos mercados nos EUAs e em outros lugares e, para o bem e para o mal, ela deve continuar praticamente sem obstáculos.” Ao mesmo tempo, está em andamento uma política de restrição de uso das IAs e das plataformas digitais por parte do imperialismo, que precisa controlar o fluxo de informações, pois a democratização das redes sociais foi crucial para a destruição da propaganda sionista.

A alta dos mercados que as IAs estão promovendo é um fator de perigo, pois está se formando uma enorme bolha financeira, cujas consequências podem ser bem piores que aquela que gerou a crise de 2008.

O imperialismo tem dificuldade em controlar as IAs porque existe uma competição interna e contra a China, que tem produzido diversos modelos que têm obtido resultados muito positivos.

Guerra de agressão

Sobre a guerra de agressão dos Estados Unidos e “Israel” contra o Irã, Bremmer diz que “a decisão de Trump de atacar o Irã nasceu do excesso de confiança, mas também da deterioração das relações dos EUA com seus aliados – que não tiveram influência na tomada de decisão de Trump.” Porém, os aliados dos EUA estiveram juntos na agressão. Trump foi apoiado, assim como “Israel” recebe apoio para o genocídio que promove na Faixa de Gaza e nos ataques ao Líbano.

As críticas a Trump apareceram somente porque o Irã obteve uma vitória espetacular sobre o imperialismo que forçou um recuo.

A guerra, no entanto, não acabou, o imperialismo não vai aceitar sem reagir ao controle imposto pelo Irã ao Estreito de Ormuz. O Irã, por sua vez, declarou que a retomada da guerra vai ampliar seu alcance, que ficou restrito à região do Golfo.

É curioso que Bremmer escreva que “de forma mais ampla, um Oriente Médio mais perigoso, com mais espaço para atores desonestos operarem e menos restrições à retaliação americana, radicalizará mais atores – sejam grupos combatentes como os houthis no Iêmen, ou grupos terroristas como o Estado Islâmico e seus descendentes, ou lobos solitários empoderados por novas tecnologias perigosas.” Os desonestos são exatamente os agressores: EUA, “Israel” e UE. Aliás, são eles que estão financiando o Estado Islâmico e eventuais “lobos solitários”.

O autor se “esqueceu” de que o Irã foi atacado duas vezes em meio a negociações. Passou por cima do fato de os “israelenses” cometerem todo tipo de crimes, não respeitarem cessar-fogo; mas, obviamente, a desonestidade está do lado do agredido.

Leste Europeu

A visão sobre o que acontece no Leste Europeu do autor está distorcida. Para ele, “no momento, parece que a Ucrânia tem impulso em sua guerra contra os invasores russos, deixando Vladimir Putin em um isolamento cada vez mais perigoso. Quanto mais essa guerra se aproxima de uma humilhação para o Kremlin, maior o risco de que um Putin desesperado possa recorrer a um ataque nuclear tático contra a Ucrânia ou ataques mais agressivos e diretos a países da Otan na linha de frente para mudar o jogo.”

Não se pode esquecer que Trump tentou acabar com a guerra na Ucrânia, mas o imperialismo não permitiu e tem seguido em frente com sua guerra por procuração contra a Rússia.

Os russos também foram induzidos à guerra devido ao cerco promovido pela OTAN e não parece que Putin esteja planejando um ataque nuclear tático, embora a UE tenha aumentado a agressividade e tenha provocado respostas cada vez mais duras da Rússia.

Os anos “excepcionalmente difíceis” que o autor antevê serão consequência direta da crise terminal do imperialismo, a cada dia mais agressivo, conforme se aprofunda a crise e se deteriora sua capacidade de controlar os mercados globais.

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