Argentina

Porteiro admite que mentiu para incriminar Cristina Kirchner

Julio César Silva afirmou que lhe perguntaram repetidamente sobre suas filhas e que entendeu a menção como uma ameaça

O porteiro Julio César Silva negou parte de seu testemunho contra Cristina Fernández de Kirchner, em Comodoro Py, na quinta-feira (21), durante depoimento na chamada Causa Cadernos. O ex-porteiro do edifício onde vivia a ex-presidenta argentina afirmou que assinou uma declaração sem concordar com seu conteúdo e admitiu ter cometido um delito ao fazê-lo. Ele também disse ter sido pressionado pelo falecido juiz Claudio Bonadio e pelo fiscal Carlos Stornelli, que teriam mencionado suas duas filhas durante o interrogatório. 

Silva era apontado como testemunha importante por ter supostamente declarado que Daniel Muñoz, ex-secretário privado de Néstor Kirchner, entrava com frequência no prédio com bolsas e malas entre 2007 e 2010. No novo depoimento, ele negou ter afirmado essa parte. Disse que não leu integralmente o documento e que o assinou mesmo sem estar de acordo. Ao reconhecer que assinou algo que não considerava verdadeiro, admitiu a gravidade do ato.

Segundo o relato, Silva foi pressionado durante o interrogatório. Ele afirmou que lhe perguntaram repetidamente sobre suas filhas e que entendeu a menção como uma ameaça. A frase atribuída ao episódio foi a de que ele não deveria se esquecer de que tinha duas filhas. O porteiro disse ainda que foi chamado como testemunha durante o mandado de busca no antigo apartamento de Cristina, em agosto de 2018, e que permaneceu no local por 11 horas e meia.

O depoimento ocorre após outros acusados colaboradores também terem afirmado que prestaram declarações falsas sob coação. A Causa Cadernos começou em 2018 e se baseia em cadernos atribuídos ao motorista Oscar Centeno, que teria registrado supostos traslados de dinheiro ligados a empresários e ex-funcionários públicos. A acusação fiscal sustenta que Cristina Fernández de Kirchner teria desempenhado papel central em um sistema de arrecadação ilegal, tese negada pela ex-presidenta.

O advogado Gregorio Dalbón afirmou que, quando uma testemunha diz em julgamento que sua declaração foi obtida sob ameaças, pressões e condicionamentos ilegais, a discussão deixa de ser apenas probatória e passa a envolver possível contaminação estrutural do processo. A nova declaração de Silva atinge um dos pontos usados para sustentar a acusação contra Cristina, pois recoloca sob suspeita a forma como testemunhos foram produzidos no caso. 

A nova etapa do caso de Cristina Kirchner mostra o tipo de tática suja usada pelo imperialismo para impulsionar a onda de golpes de Estado na América Latina na década de 2010. No Brasil, a Lava Jato contou com a colaboração do juiz Sérgio Moro com o promotor Deltan Dallagnol e, de uma forma geral, com o Ministério Público na região. Uma série de práticas ilegais, como grampos, foi utilizada para desgastar a imagem dos políticos petistas, em especial Dilma e Lula.

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