O Fundo Monetário Internacional anunciou na quarta-feira (29) um acordo técnico para conceder US$1,9 bilhão à Bolívia por meio de um programa de facilidade ampliada com duração de 36 meses.
O valor corresponde a 1,369 bilhão de Direitos Especiais de Saque, unidade utilizada pelo FMI, e equivale a 570% da cota boliviana no organismo.
O acordo ainda depende da aprovação da Diretoria Executiva do Fundo. A liberação também está condicionada ao cumprimento de medidas previamente negociadas com o governo do presidente Rodrigo Paz.
A missão do FMI foi comandada por Joana Pereira. O comunicado do organismo afirma que o dinheiro servirá para apoiar o programa de reformas econômicas do governo boliviano.
A Bolívia procura recursos para sustentar o novo regime cambial implantado em 29 de junho. Desde então, a moeda do país sofreu uma desvalorização de 72%.
O acordo poderá abrir caminho para novos financiamentos do Banco Mundial, do Banco Interamericano de Desenvolvimento e de outros organismos. O pacote total pode superar US$5 bilhões durante os três anos de duração do programa.
O empréstimo é apresentado como uma solução para a crise. Na realidade, servirá para manter o governo enquanto Rodrigo Paz aplica as medidas exigidas pelo capital financeiro.
O próprio comunicado deixa claro que existem ações que devem ser executadas antes da aprovação definitiva. O conteúdo completo dessas exigências não foi apresentado à população boliviana.
A política econômica do governo já produziu uma desvalorização brutal da moeda. O resultado recai sobre os trabalhadores, que passam a pagar mais caro por alimentos, combustíveis, remédios e produtos importados.
Os dólares do FMI não serão entregues sem contrapartida. O Fundo exigirá que a Bolívia mantenha as reformas, abra sua economia e garanta condições favoráveis ao capital estrangeiro.
O acordo ocorre no momento em que Rodrigo Paz intensifica a repressão contra os movimentos sociais e a perseguição ao ex-presidente Evo Morales.
Na própria quarta-feira, o Ministério Público boliviano expediu uma nova ordem de prisão contra Morales sob as acusações de “terrorismo” e “levante armado”. A investigação procura responsabilizá-lo pelos protestos e bloqueios de estradas que atingiram o país entre maio e junho.
Os manifestantes permaneceram mobilizados por mais de 50 dias. Em vez de atender às reivindicações dos trabalhadores, camponeses e cocaleiros, o governo decidiu transformar a mobilização em crime de terrorismo.
A perseguição a Morales está diretamente ligada ao programa econômico. Para privatizar empresas, retirar subsídios e entregar os recursos naturais, Rodrigo Paz precisa enfraquecer os setores capazes de organizar resistência.
Morales mantém forte influência entre os camponeses, os cocaleiros, as populações indígenas e outros setores populares. Sua prisão retiraria do caminho uma das principais referências da oposição ao governo.
A Bolívia possui enormes reservas de gás, lítio e minerais cobiçados pelos monopólios estrangeiros. O aumento da dívida amplia a pressão para que essas riquezas sejam entregues como garantia aos credores.
Quanto mais o país deve, maior é o poder do FMI para exigir cortes, privatizações e mudanças na legislação. Os novos financiamentos do Banco Mundial e do BID ampliarão essa dependência.
O FMI não demonstrou preocupação com a repressão ou com a tentativa de prender Evo Morales. Ao contrário, escolheu esse momento para anunciar um financiamento correspondente a 570% da cota boliviana.
O empréstimo é uma recompensa pelo serviço prestado por Rodrigo Paz. O governo reprime os movimentos populares, prepara as privatizações e garante a entrada do capital estrangeiro. Em troca, o Fundo fornece os dólares necessários para sustentar o regime e amarra a Bolívia a uma dívida ainda maior.





