América do Sul

Todo apoio ao povo boliviano! Não à intervenção dos EUA!

Mobilizações contra Rodrigo Paz entram na terceira semana, com bloqueios, confrontos em La Paz, mais de 100 presos e chantagem do imperialismo

A revolta popular contra o governo de direita de Rodrigo Paz aumentou nesta segunda-feira (18), na Bolívia, com a chegada de milhares de manifestantes a La Paz, capital administrativa do país. Operários, mineiros, camponeses, professores, motoristas, comerciantes e moradores de El Alto tentaram chegar à praça Murillo, onde fica a sede do governo, para exigir a renúncia do presidente.

Os protestos já entram na terceira semana. A situação se agravou após o governo de Paz retirar subsídios aos combustíveis, sem conseguir estabilizar o abastecimento, ao mesmo tempo em que aumentaram as denúncias de alta do custo de vida, salários baixos, falta de combustível e planos de privatização de empresas estatais.

Durante mais de duas horas, os manifestantes e a Polícia se enfrentaram no centro de La Paz. Os setores mobilizados utilizaram pedras, paus, fogos e dinamite. A Polícia respondeu com gás lacrimogêneo e tentou impedir o avanço das colunas que vinham de diferentes pontos da cidade.

Segundo relatos publicados na Bolívia, os manifestantes arrancaram portas, janelas, cartazes e outros materiais de prédios para organizar barricadas nas ruas. Também acenderam fogueiras para reduzir o efeito do gás lançado pela Polícia. Várias pessoas ficaram feridas durante os confrontos. Uma jornalista desmaiou em meio à repressão.

As mobilizações desta segunda reuniram mais de quatro colunas em La Paz, todas com a mesma reivindicação: a saída de Rodrigo Paz. Entre os setores presentes estavam mineiros, Ponchos Vermelhos, comerciantes, professores, integrantes de juntas de vizinhos e trabalhadores ligados à Central Operária Boliviana (COB).

A repressão resultou em mais de 100 prisões. Fontes policiais informaram que cerca de 105 pessoas foram detidas e levadas a dependências da Força Especial de Luta Contra o Crime. Outros levantamentos citados por organizações bolivianas falam em 124 detidos em La Paz desde o início da escalada repressiva.

No mesmo dia, o procurador-geral da Bolívia, Roger Mariaca, confirmou que o Ministério Público emitiu mandado de prisão contra Mario Argollo, dirigente da COB. Ele é acusado de supostos crimes de incitação pública ao crime, terrorismo e outros delitos. Argollo é uma das principais lideranças das mobilizações contra o governo.

Após o anúncio do mandado, a COB denunciou perseguição contra seu dirigente e a repressão contra os trabalhadores mobilizados. Argollo afirmou que as ações judiciais não interromperão a mobilização.

“Eles não vão nos derrotar na luta que empreendemos; estão tentando nos silenciar como líderes com ações populares e processos criminais”, declarou o dirigente sindical.

A COB também afirmou que as Forças Armadas e a Polícia estavam sendo abastecidas com gás lacrimogêneo transportado por uma aeronave do tipo Hércules. Em nota, a central sindical acusou o governo de responder às reivindicações populares com repressão.

“O governo responde com militarização e repressão em vez de ouvir o povo. A história lembrará quem defendeu os cidadãos e quem lhes virou as costas. Nenhuma força deve estar acima do povo ou de seus direitos”, afirmou a central.

A mobilização partiu principalmente de El Alto, cidade operária que tem papel decisivo nas crises políticas bolivianas. A marcha foi organizada pela COB, pela Confederação Sindical Única dos Trabalhadores Camponeses da Bolívia (CSUTCB), pela Federação Camponesa de La Paz Tupac Katari, os Ponchos Vermelhos, além de professores e mineiros cooperativistas.

Segundo os dados divulgados pelos organizadores, a greve por tempo indeterminado mantém mais de 70 bloqueios de estradas no país. Há dificuldades de circulação, problemas no abastecimento de alimentos, medicamentos e combustível e pressão crescente sobre o governo.

Nesta terça-feira (19), a Federação Andina de Transporte 1º de Maio de El Alto decidiu aderir à greve por tempo indeterminado com bloqueios. A decisão foi anunciada pelo dirigente Reynaldo Luna, após assembleia do setor.

“Na assembleia se determinou o recolhimento de todos os nossos veículos para resguardo. O outro ponto é uma greve por tempo indeterminado com bloqueios de acordo com o cronograma que pediram os secretários-gerais”, disse Luna.

O dirigente afirmou que os motoristas decidiram paralisar por causa do descumprimento de compromissos assumidos pelo governo, entre eles a compensação econômica por danos causados pela má qualidade da gasolina.

“Estivemos abertos ao diálogo, mas infelizmente não cumpriram com o ressarcimento dos danos pela má qualidade do combustível. Por isso os companheiros não querem mais diálogo e determinaram ir à greve por tempo indeterminado com bloqueios”, afirmou.

Luna também declarou que o setor se somará ao pedido de várias organizações de El Alto pela renúncia de Rodrigo Paz. A federação anunciou ainda o congelamento de pagamentos a bancos como parte das medidas aprovadas.

Enquanto a revolta aumentava, o governo boliviano negou qualquer possibilidade de renúncia. O ministro das Relações Exteriores, Fernando Aramayo, declarou nesta terça-feira que a saída de Paz “não está em discussão” e classificou como absurdas as informações sobre uma possível renúncia ou saída do país do presidente e de integrantes do gabinete.

A declaração foi feita no momento em que o governo enfrenta a maior crise desde a posse de Paz, ocorrida há seis meses. O presidente, ligado ao Partido Democrata Cristão, governa com apoio da direita e aproximou a Bolívia dos Estados Unidos.

A intervenção norte-americana apareceu de maneira aberta na crise. O vice-secretário de Estado dos EUA, Christopher Landau, declarou apoio a Rodrigo Paz e classificou os protestos como tentativa de golpe de Estado. Landau disse ter conversado por telefone com o presidente boliviano.

“Trata-se de um golpe financiado por essa aliança nefasta entre a política e o crime organizado em toda a região”, declarou Landau. “Não é possível que tenha havido um processo democrático no qual Paz foi eleito de forma esmagadora pelo povo boliviano há menos de um ano, e agora tenhamos manifestantes violentos bloqueando as ruas.”

A declaração do governo dos Estados Unidos ocorreu depois de o governo anunciar, em março, o chamado Escudo das Américas, uma aliança de segurança com 17 países da região, incluindo a Bolívia. Landau afirmou que a divisão central na região não seria entre esquerda e direita, mas entre países que, segundo ele, combatem o crime organizado e países “cúmplices” do crime organizado. A declaração serviu para dar cobertura política ao governo de Paz em meio à repressão contra trabalhadores e camponeses.

O ex-presidente Evo Morales denunciou que os Estados Unidos estão dirigindo uma operação contra o povo boliviano. Nesta terça-feira (19), Morales afirmou que está em andamento na Bolívia um “Plano Condor 2026”, dirigido por Donald Trump e executado por governos de direita da região.

“Nestes dias, para aplacar a sublevação do povo contra o Estado neocolonial, neoliberal e racista, EUA, ‘Israel’ e vários governos direitistas não apenas estão apoiando o regime boliviano com declarações e comunicados, mas com diversos ‘materiais’”, afirmou Morales.

O ex-presidente comparou a operação atual ao Plano Condor dos anos 1970, quando ditaduras militares da América do Sul coordenaram a perseguição e o assassinato de opositores. Morales também acusou o governo de Javier Milei, na Argentina, de participar da repressão de Rodrigo Paz.

Segundo Morales, Milei enviou a La Paz o ex-assessor Fernando Cerimedo, apresentado como estrategista de comunicação, para atuar em campanhas contra dirigentes e organizações populares. O ex-presidente também afirmou que operadores ligados ao governo argentino promovem ataques contra camponeses e setores populares bolivianos a partir de plataformas localizadas na Argentina.

Morales acusou ainda o governo argentino de enviar material repressivo à Bolívia por meio de duas aeronaves militares Hércules.

“Militares bolivianos patriotas denunciaram que se transportou material bélico antimotim para reprimir manifestantes, tal como fizeram em 2019 Mauricio Macri e Patricia Bullrich, fato pelo qual ambos têm um julgamento pendente aqui”, afirmou.

Na Argentina, deputados peronistas do bloco União pela Pátria apresentaram um pedido de informações ao governo Milei sobre o envio das duas aeronaves C-130 Hércules para a Bolívia. O deputado Juan Marino afirmou que o Congresso precisa saber qual era a carga transportada, quem estava a bordo, quais acordos militares existem com a Bolívia e se a operação tem relação com o Escudo das Américas.

“É essencial que o Congresso tenha garantias de que esta operação não será usada para reprimir o povo boliviano. A mera palavra do governo argentino, após o precedente de 2019, não basta”, afirmou Marino.

O parlamentar também lembrou que Rodrigo Paz nomeou, em 24 de abril, o general Rodolfo Montero Torrico como vice-ministro da Segurança Cidadã. Montero Torrico foi comandante-geral da Polícia Boliviana durante os massacres de Sacaba e Senkata, em 2019. O Grupo Interdisciplinar de Peritos Independentes da Comissão Interamericana de Direitos Humanos identificou o militar como parte da cadeia de comando responsável pelos acontecimentos, e o Ministério Público boliviano o acusa de genocídio, homicídio e lesões corporais graves.

“É falso que as manifestações sejam desestabilizadoras, como Milei e o governo dos EUA alegam. Violar o Estado de Direito significa massacrar os manifestantes e impedir o exercício do direito de protestar”, afirmou Marino.

A denúncia de intervenção estrangeira também ganhou força depois que Erik Dean Prince, empresário, ex-militar e fundador de uma empresa privada de mercenários, aliado de Trump e da direita internacional, pediu intervenção na Bolívia para derrotar o povo mobilizado. Morales citou a declaração como parte do plano dos EUA contra o país.

“Essas são algumas provas do plano macabro que tem o império de Trump e seus fiéis servidores”, disse o ex-presidente.

Em meio à crise, a Igreja Católica, a Defensoria do Povo e a Assembleia Permanente de Direitos Humanos de El Alto convocaram um “Diálogo pelo Bem Comum” para tentar conter o conflito. A convocação foi dirigida ao governo, à COB, à Confederação Nacional de Mulheres Camponesas Bartolina Sisa e à Federação Departamental Única de Trabalhadores Camponeses de La Paz Tupac Katari.

A Comissão Ibero-Americana de Direitos Humanos para o Desenvolvimento das Américas também se pronunciou sobre a situação. A entidade denunciou uso desproporcional da força, prisões em massa, problemas no livre trânsito e desabastecimento de alimentos, combustíveis e serviços médicos. A comissão pediu investigações independentes sobre os episódios de violência e cobrou que o Estado boliviano respeite os direitos da população durante as ações de controle das ruas.

Também houve atos menores favoráveis ao governo. Relatos bolivianos indicam que uma contramarcha em defesa de Rodrigo Paz atacou a sede da Federação Sindical de Trabalhadores Mineiros, no Prado de La Paz. Foram registrados ataques contra civis e danos a estruturas estatais. Apoiadores de Paz também pediram que o governo declare estado de emergência.

A tensão aumentou no domingo, quando apoiadores de Evo Morales ocuparam um aeroporto em Chimoré para impedir uma suposta prisão do ex-presidente por forças apoiadas pelos EUA. A ação resultou em 57 prisões, segundo os relatos divulgados.

As manifestações continuam em La Paz, El Alto e em estradas do país. O governo insiste que Paz não renunciará. As organizações operárias, camponesas e populares mantêm a greve por tempo indeterminado, os bloqueios e a exigência de renúncia do presidente.

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