A Central Operária Boliviana (COB), maior entidade sindical da Bolívia, declarou na sexta-feira (1º) greve geral por tempo indeterminado contra o governo de Rodrigo Paz. A decisão foi aprovada durante um cabildo — tipo de conselho popular reconhecido por lei — realizado em El Alto, cidade vizinha a La Paz, no Dia Internacional de Luta dos Trabalhadores.
A medida começou efetivamente no sábado (2), com mobilizações em todo o País. Segundo a agência Prensa Latina, o cabildo reuniu representantes dos nove departamentos bolivianos e contou com a participação de centenas de operários, trabalhadores da saúde, fabris, mineiros e professores.
O anúncio foi feito pelo secretário-executivo da COB, Mario Argollo. Diante dos trabalhadores reunidos, o dirigente afirmou que a paralisação seguirá até que o governo atenda às reivindicações aprovadas pela assembleia.
“A partir do dia de hoje, declara-se o paro geral indeterminado mobilizado até que o Governo atenda ao pedido do povo, e se não cumprir, que vá para sua casa”, declarou Argollo, segundo informações publicadas pelo Infobae e pelo Diario Las Américas.
Em outro momento, o dirigente foi ainda mais direto contra o governo Paz: “que vá para sua casa, caralho!”.
O cabildo aprovou uma série de reivindicações sociais e econômicas. Entre elas, estão aumento salarial de 20%, corte dos salários dos altos cargos do Estado, rejeição à privatização de empresas estatais, eliminação de uma reforma tributária dirigida aos pequenos comerciantes, aumento das aposentadorias e limitação da exportação de alimentos para garantir o abastecimento interno.
Também foram aprovadas reivindicações como a estabilização do câmbio e a revogação da Lei 1720, que altera o regime da pequena propriedade de terras produtivas, convertendo-a em média propriedade e abrindo a possibilidade de hipoteca. Os setores mobilizados denunciam que a medida favorece o avanço do latifúndio.
A greve expõe a crise do governo Rodrigo Paz, presidente golpista neoliberal que completará seis meses no cargo em 8 de maio. No mesmo dia em que a COB realizava o cabildo em El Alto, Paz participou de uma reunião com sindicatos no município de Quillacollo, em Cochabamba.
Ao responder à reivindicação de aumento salarial de 20%, Paz afirmou que a economia boliviana está “quebrada”. O presidente disse ainda que 85% da economia do País é informal e apenas 15% formal, usando esse argumento para rejeitar a reivindicação dos trabalhadores.
“Se a economia estivesse bem, eu diria: coloquem os 20%, claro que sim. Mas se nos deixaram um país quebrado, quer dizer que esses estão pensando como no passado e não estão pensando na pátria”, declarou Paz, segundo o jornal El Litoral.
A fala do presidente foi dirigida indiretamente contra o legado do Movimento ao Socialismo (MAS), que governou a Bolívia nos anos anteriores. O governo, no entanto, tenta utilizar a situação econômica para justificar uma política de ataques aos salários, à propriedade estatal e aos direitos dos trabalhadores.
Em sua conta oficial no Facebook, Paz afirmou: “a Bolívia quer mudança e eu não tenho medo das mobilizações; sou um construtor da democracia que cresceu entre marchas e lideranças históricas”, de acordo com a ICRT.
O porta-voz da Presidência, José Luis Gálvez, classificou a exigência de renúncia feita pela COB como “conspiração”. “Lamentamos profundamente a falta de vocação democrática daqueles que se atrevem a pedir a renúncia de autoridades eleitas constitucionalmente”, declarou, segundo o jornal Opinión Bolivia.
A nova greve não é o primeiro enfrentamento entre a COB e o governo Paz. Em dezembro de 2025, a entidade liderou três semanas de greve geral contra o Decreto Supremo 5503, que retirava a subvenção dos combustíveis, vigente havia mais de duas décadas.
O decreto também abria caminho para maior presença de transnacionais nos recursos naturais bolivianos, desmontava regulações ambientais e atacava a estabilidade no emprego. O conflito terminou com a substituição parcial da medida. Algumas disposições foram eliminadas, mas a retirada da subvenção aos combustíveis foi mantida.
Na ocasião, o salário mínimo foi elevado de 2.750 para 3.300 bolivianos, de US$395,00 para US$474,00, segundo o Infobae. A concessão, no entanto, não resolveu a crise enfrentada pela população trabalhadora.
No cabildo de El Alto, Argollo lembrou que os preços da cesta básica não recuaram. O dirigente também afirmou que, apesar do fim da subvenção, o combustível comercializado é de má qualidade e continua em falta em diversas regiões.
A COB afirmou ainda que a greve geral é um ato de solidariedade com setores que já estão mobilizados contra o governo. Entre eles estão camponeses e índios que caminham há 23 dias desde Pando e Beni rumo a La Paz para exigir a anulação da Lei 1720.
Argollo declarou que as mobilizações seguirão de maneira sustentada, com reuniões permanentes e escalada coordenada nacionalmente.
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