O governo do presidente boliviano Rodrigo Paz enfrenta uma semana de forte pressão popular. Setores sindicais, educacionais, camponeses, organizações de índios e mineradores convocaram mobilizações em diferentes regiões do país para cobrar soluções para a falta de combustível, melhorias salariais e trabalhistas e a anulação de leis agrárias favoráveis à burguesia.
Diante da possibilidade de paralisação em setores importantes, Paz publicou uma mensagem nas redes sociais tentando apresentar o governo como defensor da democracia. “Bolívia quer mudança e eu não tenho medo das mobilizações; sou um construtor da democracia”, afirmou. O presidente, no entanto, não apresentou medidas concretas para enfrentar as reivindicações dos trabalhadores e dos setores populares.
A Central Operária Boliviana (COB), que durante as últimas duas décadas manteve uma relação próxima com os governos do Movimento ao Socialismo (MAS), especificamente de Evo Morales, afastou-se do Executivo. Finalmente, trata-se da principal representante dos trabalhadores bolivianos e uma das principais forças que lutou contra o golpe. A entidade sindical ratificou uma lista de reivindicações que inclui aumento salarial de 20%. O governo já descartou a proposta, alegando que o salário mínimo havia sido elevado no início do ano para 3.300 bolivianos, o equivalente a US$474,00.
Além da questão salarial, a COB se opõe ao possível fechamento de empresas estatais deficitárias e rejeita a proposta de “atualização” da Lei Geral do Trabalho, apresentada pelo governo. Uma grande concentração está prevista para 1º de maio, em El Alto, depois de uma reunião nacional de dirigentes marcada para esta terça-feira (28).
Os professores urbanos também reforçaram as mobilizações. Contingentes do interior do país devem se somar aos protestos para exigir maior orçamento para a educação e rejeitar a descentralização educacional defendida pelo governo.
Um dos principais pontos de desgaste do governo Paz é a crise energética. A irregularidade na distribuição de diesel por parte da Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos (YPFB) provocou longas filas em La Paz, El Alto, Cochabamba e Santa Cruz. Na quinta-feira, assumiu o terceiro presidente executivo da estatal em menos de três meses, o que expõe a instabilidade na condução da empresa.
Sem respostas do governo, o dirigente camponês Carlos Tancara anunciou bloqueios de estradas por tempo indeterminado no norte de La Paz a partir desta segunda-feira. A medida deve ampliar a pressão sobre o Executivo, já desgastado pela crise de abastecimento.
No departamento de Pando, organizações de índios e camponeses, agora com apoio do setor minerador, mantêm uma marcha em direção a La Paz para exigir a anulação da Lei 1720. O governo afirma que a norma facilita o acesso a crédito ao reclassificar a pequena propriedade como média. Os índios denunciam, porém, que a lei favorece o empresariado, estimula o desmatamento e ameaça os territórios ocupados pelas populações locais.





