A União Europeia aprovou nesta quarta-feira (22) a liberação de um empréstimo de €90 bilhões para a Ucrânia, com desembolso previsto para esta quinta-feira (23), segundo informações divulgadas pela imprensa internacional. A medida foi aprovada pelos embaixadores do bloco e deve receber a formalização dos 27 Estados-membros, atingindo um dos principais objetivos perseguidos pelo imperialismo europeu desde a derrubada do obstáculo representado pelo governo húngaro de Viktor Orbán.
A aprovação do pacote veio logo após a Hungria retirar o veto que vinha mantendo sobre o financiamento do regime ucraniano. A mudança ocorreu após a vitória eleitoral do partido Tisza, de Péter Magyar, resultado apresentado pelo bloco europeu como a volta da Hungria ao “caminho europeu”. Na prática, a queda do governo Orbán abriu caminho para destravar uma medida que estava paralisada havia meses.
O impasse girava em torno do oleoduto Druzhba, fundamental para o abastecimento energético da Hungria e também da Eslováquia. Orbán havia congelado a liberação dos recursos à Ucrânia em resposta à interrupção das entregas feita em janeiro. Agora, com a retomada do fornecimento pelo antigo oleoduto soviético, exigida por Magyar, a barreira húngara caiu e o pacote europeu avançou imediatamente.
O episódio mostra com clareza o que estava em jogo na crise húngara. Orbán havia se transformado em um dos principais focos de resistência, dentro da própria União Europeia, à escalada contra a Rússia e ao financiamento permanente do regime de Quieve. A derrota do Fidesz retirou do caminho uma oposição que vinha dificultando tanto o envio de dinheiro quanto a adoção de novas sanções econômicas.
A própria União Europeia já indicava, desde os primeiros dias após a eleição, que pretendia usar a mudança de governo para enquadrar a Hungria. A Comissão Europeia iniciou contatos com Péter Magyar para discutir a liberação de cerca de €35 bilhões em recursos congelados, vinculando essa liberação a um conjunto de exigências políticas e institucionais. Entre elas, estava justamente a retomada do alinhamento húngaro com a política europeia para a guerra na Ucrânia.
A pressão não se limitou ao terreno financeiro. Magyar, que assumirá o governo após a derrota de Orbán, passou a defender uma rápida reorganização do aparelho de Estado e exigiu a saída de uma série de autoridades instaladas durante os anos de domínio do Fidesz. Com maioria de dois terços no Parlamento, o novo bloco governante ganhou condições de alterar a Constituição e reordenar inteiramente o regime político húngaro, numa mudança de grande alcance.
Ao mesmo tempo, a União Europeia prepara o 20º pacote de sanções contra a Rússia. Hungria e Eslováquia, que até então vinham resistindo a essa política por causa de seus próprios interesses econômicos, tendem agora a abandonar a oposição. Orbán e o primeiro-ministro eslovaco Robert Fico criticavam essa política por atingir mais os próprios países europeus do que a Rússia, além de não produzir qualquer resultado decisivo no conflito.
Mesmo procurando se apresentar como moderado em alguns pontos, Magyar já deixou claro que sua chegada ao governo não significará continuidade da política externa de Orbán. Ele afirmou que a Hungria não enviará armas a Quieve e não participará diretamente do custeio do empréstimo, mas aceitou as condições políticas que permitiram destravar o pacote. Isso basta, por enquanto, para o imperialismo europeu: retirar um veto estratégico e restabelecer a disciplina do país dentro do bloco.
A operação financeira também revela outra dificuldade da União Europeia. A Comissão Europeia havia tentado originalmente bancar o regime ucraniano por meio do confisco de ativos soberanos russos congelados, mas não conseguiu superar a resistência de alguns membros do bloco, principalmente da Bélgica, onde se concentra a maior parte desses recursos. Diante desse fracasso, passou a buscar outras formas de manter Quieve funcionando com dinheiro europeu.
A aprovação dos €90 bilhões é, portanto, uma das primeiras consequências concretas da mudança de regime na Hungria. Derrubado o principal entrave interno à política de guerra da União Europeia, o bloco imperialista se moveu rapidamente para garantir mais recursos ao regime ucraniano e aprofundar o confronto com a Rússia.




