Os Estados Unidos suspenderam o envio de dólares em espécie ao Iraque, bloquearam a liberação de cerca de US$500 milhões da receita do petróleo iraquiano e congelaram parte dos programas de cooperação em segurança, segundo informações publicadas pelo The Wall Street Journal. A medida aprofunda a pressão de Donald Trump sobre Bagdá para que o governo iraquiano aja contra os grupos de resistência que atuam no país.
Desde a invasão de 2003, as receitas do petróleo iraquiano permanecem sob controle norte-americano no Federal Reserve Bank de Nova Iorque. De acordo com a reportagem do jornal norte-americano, os EUA vinham enviando aproximadamente US$13 bilhões por ano em dinheiro vivo para sustentar o funcionamento da economia iraquiana.
Autoridades iraquianas e norte-americanas ouvidas pelo jornal afirmaram que o Departamento do Tesouro barrou recentemente a transferência de quase US$500 milhões em cédulas, valor proveniente justamente das vendas de petróleo do Iraque. Esta foi a segunda remessa programada de dólares adiada pelos EUA desde o início da escalada em torno da guerra contra o Irã, no fim de fevereiro.
Além de reter o dinheiro iraquiano, o governo norte-americano informou a Bagdá que também interromperia o financiamento de determinados programas de “contraterrorismo” e de treinamento das forças armadas até que cessem os ataques das milícias e até que o governo tome medidas concretas para desmontar os grupos armados ligados à resistência.
A pressão se intensificou em meio a uma mudança no cenário político iraquiano. Em 11 de abril, o Parlamento elegeu Nizar Amedi, candidato da União Patriótica do Curdistão, para a presidência do país. Após a eleição, Amedi manifestou apoio aos esforços para encerrar a guerra entre o Irã e os Estados Unidos e condenou os ataques contra os grupos de resistência no Iraque. A escolha foi vista como um sinal de que Bagdá está menos disposta a se alinhar integralmente à política anti-iraniana imposta pelos EUA.
A declaração do porta-voz do Departamento de Estado, Tommy Pigott, deixou claro o caráter da ofensiva. Segundo ele, a relação entre os dois países estaria sendo prejudicada porque setores associados ao governo iraquiano dariam cobertura política, financeira e operacional às milícias. Na mesma declaração, afirmou que os EUA “não tolerarão” ataques contra seus interesses e esperam que o governo iraquiano adote imediatamente todas as medidas para desmontar os grupos alinhados ao Irã.
Relatos publicados nesta semana informaram que a Coalizão de Coordenação, bloco xiita que tem peso decisivo na política iraquiana, retirou a candidatura de Nouri al-Maliki ao cargo de primeiro-ministro em razão da pressão norte-americana. Maliki, ex-primeiro-ministro próximo do Irã e da resistência iraquiana, havia sido escolhido em janeiro, mas enfrentou oposição direta de Trump, que ameaçou “cortar” o Iraque caso seu nome fosse confirmado.
Outro informe, divulgado pela emissora saudita Al-Hadath, afirmou que os EUA suspenderam todo o financiamento, os envios de dólares e a cooperação em segurança até que seja formado em Bagdá um governo aceitável para Washington.
A ofensiva ocorreu poucas horas antes do fim do cessar-fogo entre EUA e Irã e da decisão unilateral de Trump de prorrogá-lo. Ao mesmo tempo, permanecem elevadas as tensões provocadas pela tentativa de bloqueio norte-americano aos portos iranianos e pela apreensão de embarcações em alto-mar supostamente vinculadas à República Islâmica. Um alerta recente do Conselho de Segurança da Rússia indicou, inclusive, que os EUA podem estar usando a trégua para se reorganizar e preparar uma ofensiva terrestre.
Antes do cessar-fogo, as organizações da resistência iraquiana realizaram dezenas de ataques contra grandes instalações militares norte-americanas no Iraque e em outros pontos da região. Entre os alvos citados estão a Base Vitória, a Base de Harir e o complexo da embaixada dos EUA. Como resposta, os norte-americanos promoveram diversos bombardeios no território iraquiano, com mortes e maior agravamento da crise.




