Polêmica

Picaretagem identitária serve apenas para proteger os poderosos

Luta contra opressão racial não pode ser travada apenas pelos negros, assim como nenhuma luta de massas avança isolando um setor do povo

Uma matéria da Folha de S.Paulo, centrada na declaração de que a “luta antirracista precisa da participação de homens brancos”, retoma um dos cacoetes mais característicos da política identitária: deslocar o centro do problema da estrutura social para a consciência moral de determinados grupos. Em vez de explicar a opressão da população negra pela organização econômica da sociedade, pelo poder dos bancos, pela política neoliberal, pela repressão policial e pelo caráter de classe do Estado, esse tipo de formulação transforma a questão em um apelo à boa vontade de uma identidade social específica.

O primeiro problema dessa linha é que ela falseia o próprio terreno da luta. A situação inferior da população negra no Brasil não decorre, em primeiro lugar, de atitudes individuais de “homens brancos”, mas de um sistema econômico e político que concentra renda, destrói empregos e serviços públicos e reprime violentamente a população pobre. O negro trabalhador, sobretudo nas periferias, não enfrenta no dia a dia uma abstração chamada “homem branco”; enfrenta desemprego, subemprego, escola precária, transporte degradado, salários baixos, polícia, encarceramento e um regime montado para defender a riqueza dos de cima.

Quando se diz que a “luta antirracista” depende da participação de “homens brancos”, o eixo é desviado. O debate sai do terreno da luta contra os exploradores e entra no campo da pedagogia moral das identidades. O centro deixa de ser a luta da população explorada contra o capital e o Estado, e passa a ser a convocação de um grupo social para agir de maneira mais esclarecida. É uma política impotente porque não ataca o poder real. Os grandes responsáveis pela miséria e pela opressão continuam protegidos atrás de uma fumaça ideológica.

Essa política é conveniente para o regime. É muito mais fácil falar em sensibilização de grupos identitários do que colocar o dedo na ferida dos bancos, das grandes empresas, dos governos de turno, do Judiciário, da Polícia Militar e de toda a engrenagem que reproduz a desigualdade. O identitarismo fala sem parar de representatividade, privilégio e consciência, mas quase sempre evita a questão decisiva: quem manda na economia, quem controla o Estado e quem lucra com a situação atual.

Ao centrar o debate na questão racial, esse tipo de posição ainda cria uma falsa oposição entre negros e brancos no interior do próprio povo. Em vez de unir os explorados contra os exploradores, fragmenta a população em blocos identitários. O trabalhador branco pobre, que também sofre com a política neoliberal, com o desemprego e com a repressão estatal, deixa de ser visto como aliado potencial na luta contra os poderosos e passa a ser tratado como parte de uma categoria suspeita, que precisa antes ser reeducada moralmente. Isso interessa diretamente à burguesia, porque divide os de baixo e preserva os de cima.

É evidente que a luta contra a opressão racial não pode ser travada apenas pelos negros, assim como nenhuma luta de massas avança isolando um setor do povo. Mas o problema não se resolve por meio de convites morais a “homens brancos”. Resolve-se por meio de uma política que organize todos os explorados em torno de um programa contra a base material da opressão. A unidade necessária não é a unidade abstrata entre identidades, e sim a unidade concreta da classe trabalhadora contra o regime que mantém a população negra na posição mais oprimida.

No fim, esse tipo de formulação ajuda a blindar os verdadeiros responsáveis pela desigualdade. Em vez de dizer que bancos, governos neoliberais e forças repressivas impõem à população negra uma condição social mais dura, desloca-se a discussão para a participação ou não de determinados grupos raciais em uma agenda de conscientização. A exploração continua, a repressão continua, a pobreza continua, mas o debate público fica preso a categorias identitárias cada vez mais estreitas.

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