O artigo de Valerio Arcary, Rússia e China na guerra no Irã, publicado no Brasil247 nesta quinta-feira (19), faz uma análise bastante equivocada sobre o que está acontecendo no Oriente Próximo. O problema começa já no olho do artigo que afirma que “no xadrez geopolítico da guerra contra o Irã, Rússia e China movem suas peças com cautela: Moscou não pode, Pequim não quer – e o regime persa descobre, na solidão estratégica, que alianças têm limites quando os interesses das potências apontam em outra direção”.
Antes dos bombardeios, quando já ninguém duvidava que as negociações não passavam, novamente, de cortina de fumaça para um ataque covarde, inúmeros aviões “misteriosos” de carga chineses pousaram no Irã. Não falta quem diga que se tratava de equipamentos militares, ou mesmo radares de vigilância 3D, como os provavelmente utilizados para derrubar um F-35 americano, supostamente furtivo, neste 19 de março.
A Rússia não precisa colocar a cara quando o Irã está se saindo bem. Os veículos aéreos não tripulados (VANTs) Shahed, exportados pelo Irã para a Rússia, que os utilizou extensivamente contra a Ucrânia, recebeu melhorias russas, como a nova antena “blindada” que agora passa a integrar o arsenal iraniano.
Em 2025, os dois países assinaram o Tratado de Parceria Estratégica Abrangente Irã–Rússia, que prevê cooperação em defesa e segurança; inteligência e cibersegurança, combate ao terrorismo; coordenação política e militar mais estreita. Além disso, prevê uma parceria de longo prazo (cerca de 20 anos) o que aprofunda bastante a relação estratégica entre os dois países, que promovem treinamento conjunto de oficiais, exercícios militares, visitas de navios e cooperação entre serviços de segurança.
O pacote contempla ainda venda de armas, sistemas de defesa aérea (como mísseis portáteis), helicópteros de ataque e outros equipamentos; e também troca de tecnologia de VANTs. Lembrando que Rússia e Irã têm interesses geopolíticos comuns (contra sanções, contra influência dos EUA), mas mantêm autonomia total em guerras.
Solidão estratégica?
Como se pode falar em isolamento quando Irã, Rússia e Índia estão envolvidos no Corredor Internacional de Transporte Norte–Sul — em inglês, International North-South Transport Corridor (INSTC). Uma rede logística (ferrovias, rodovias e rotas marítimas) ligando Rússia, Mar Cáspio, Irã, Golfo Pérsico/Oceano Índico e Índia?
O corredor tem cerca de 7.200 km de extensão e serve como alternativa ao Canal de Suez, encurtando tempo e custos de transporte. O empreendimento ganhou importância após as sanções contra a Rússia (principalmente depois de 2022), pois permite à Rússia contornar rotas controladas pelo Ocidente e ampliar comércio com Ásia.
O trajeto tem origem na Rússia, mercadorias saem de Moscou e descem até portos do Mar Cáspio. Atravessam o mar até o norte do Irã por ferrorivas/rodovias ate o sul do país (a ferrovia Rasht-Astara ainda em expansão) e chegam a portos como Chabahar (Índia) ou Bandar Abbas (Estreito de Ormuz), tendo como final a Índia, o Oriente Médio e a África. O resultado é se tem aí uma rota mais curta que pelo Canal de Suez.
Para a Rússia, é muito importante, pois desde o início do conflito com a Ucrânia, o país sofreu isolamento, perdeu acesso fácil à Europa e por isso precisa priorizar rotas “não ocidentais”. Com o INSTC, pode vender energia e outras commodities, bem como acessar mercados asiáticos sem ter de passar por áreas sob influência dos EUA e UE.
O Irã, por sua vez, está há quase 50 anos sob sanções e ganha enorme relevância fazendo uma ponte continental, o que vai fortalecer sua economia e seu peso internacional.
Para a Índia, haverá redução de custos nos transportes com Rússia e Ásia Central e assim não precisa depender totalmente da China.
E a China? O país tem seu próprio projeto a Nova Rota da Seda, ou BRI (Belt and Road Initiative), que é uma rede global de infraestrutura de portos, ferrovias e estradas, que liga a China à Europa, África e Ásia.
A relação entre as duas é que, enquanto o INSTC é um eixo norte-sul,a BRI é leste-oeste. Lembrando que o Irã pode ser uma alternativa no BRI via Afeganistão, caso o Paquistão, infiltrado por EUA e Reino Unido, coloque obstáculos à Rota.
Desse modo os dois eixos podem formar um complexo do qual o Irã é peça central nos dois sistemas, por isso os chineses têm investido pesado.
O Irã é centro de interesses que reduzem a dependência dos países imperialistas, e de uma reorganização do comércio mundial, e esse é um dos principais motivos do imperialismo querer a todo custo destruir o país.
Nostradamus de pijama
Valério Arcary diz que “três semanas e meia depois do início dos bombardeios em Teerã e do assassinato de Ali Khamenei, e agora de Ali Larijani, a questão central consiste em explicar as razões da guerra contra o Irã. Não há perigo real e imediato de uma Terceira Guerra Mundial. A Rússia não pode e a China não quer uma internacionalização da guerra”.
Além dos motivos elencados acima, o Irã montou o Eixo da Resistência, um projeto formidável que envolve principalmente a Líbia, Palestina, Iêmen, Síria (agora enfraquecida) e o próprio Irã. Esses países colocam em xeque a dominação da região que o imperialismo impõe por meio de “Israel”, um Estado assassino de aluguel que, durante décadas tem promovido massacres contra os palestinos e destruição na Líbia e na Síria.
Isso tudo mudou quando a Resistência começou a se desenvolver tecnologicamente e apresentar um alto poder de combate no Líbano e na Faixa de Gaza. O imperialismo entendeu que não pode conviver com esse tipo de enfrentamento e partiu para o ataque, mas está encontrando uma resistência com a qual não contava.
Toda vez que Arcary diz “não há perigo de…”, é preciso apostar no contrário, como quando afirmou que não haveria golpe contra Dilma Rousseff.
Entre o final de 2015 e início de 2016, Arcary defendia que não havia perigo de golpe. Segundo argumentava, não havia “unidade na burguesia” para derrubar a presidenta. Para ele, a nomeação de Joaquim Levy para a Fazenda e a aplicação de um “ajuste fiscal severo”, seria já a aplicação dos planos da burguesia e que a derrubada da petista poderia provocar instabilidade social e seria um risco desnecessário.
Arcary sustentava que não havia “clima internacional” para derrubar governo no Brasil como se fez em 1964. Pois, segundo dizia, no século XXI o imperialismo não teria interesse em “golpes clássicos”, pois isso poderia incendiar a América Latina. No entanto, se estivesse acompanhando os acontecimentos, teria visto o golpe judiciário em Honduras em 2009, quer sacou Manuel Zelaya da presidência; em 2012, no Paraguai, quando Fernando Lugo sofreu impeachment.
A III Guerra Mundial, pode-se dizer, já começou, isso é consenso para analistas dos mais variados matizes políticos.
Desde sua derrota no Afeganistão, o imperialismo partiu para cima da China utilizando Taiuã como subterfúgio. Consolidou alianças militares na região que chama de Indo-Pacífico.
Em seguida, planejava um avanço na Ucrânia, mas a Rússia se antecipou e desde então o conflito não cessa, com a OTAN se empenhando em rearmar toda a Europa com aumento massivo nos orçamentos militares.
Simultaneamente, o continente africano está se rebelando, e no Oriente Médio a situação tem escalado, pois o Irã, apesar dos ataques brutais, está destruindo “Israel”, que abriu uma frente no Líbano e sofre baixas pesadíssimas do Hesbolá.
O Iêmen ainda não entrou no conflito, mas como eles mesmos dizem: já estão com o dedo no gatilho.
continua…





