HISTÓRIA DA PALESTINA

Livro de Sinuar descreve contradições internas na Palestina

No capítulo IV do livro “O Espinho e o Cravo”, em pré-lançamento pela Editora Democritos, Sinuar mostra as diferentes traições que ocorriam na Palestina

A Editora Democritos realizou o pré-lançamento do romance O Espinho e o Cravo, do revolucionário palestino Iahia Sinuar. A obra, escrita ao longo de anos de isolamento nas prisões de “Israel”, entre elas a de Bersebá, foi preservada graças ao esforço coletivo de companheiros de cárcere do autor, que copiaram o texto à mão para burlar a vigilância dos guardas sionistas, em um trabalho paciente e persistente. A tradução para o português, em dois volumes, marca a primeira edição impressa da obra no Brasil. O lançamento oficial está previsto para 25 de abril, mas parte da história já pode ser lida com exclusividade no Diário Causa Operária (DCO).

Iahia Sinuar nasceu em 1962, no campo de refugiados de Khan Iunis, na Faixa de Gaza. Descendente de famílias expulsas da Palestina durante a Nakba de 1948, formou-se em Língua e Literatura Árabe na Universidade Islâmica de Gaza. Um dos pioneiros da resistência islâmica palestina, foi preso em 1988 e condenado a várias penas de prisão perpétua, permanecendo encarcerado até ser libertado em uma troca de prisioneiros entre a resistência e “Israel”. No prefácio de 2004, ainda escrito na prisão, ele explica o caráter do livro:

“Esta não é minha história pessoal, nem é a história de nenhum indivíduo em particular, embora todos os seus eventos sejam reais. Cada evento, ou cada conjunto de eventos, pertence a este ou aquele palestino. A única ficção nesta obra é sua transformação em um romance girando em torno de personagens específicos, para cumprir a forma e os requisitos de uma obra novelística. Todo o resto é real; eu vivi isso, e muito disso ouvi da boca daqueles que, eles próprios, suas famílias e seus vizinhos, vivenciaram isso ao longo de décadas na amada terra da Palestina.”

O romance é narrado em primeira pessoa pelo jovem Ahmad e acompanha sua família sob a ocupação sionista, desde a Naksa de 1967 até os primeiros anos da Segunda Intifada, a Intifada de Al-Aqsa, iniciada em 2000. Entre os temas centrais da obra estão a resistência armada e popular, o impacto da ocupação sobre a vida cotidiana, as divisões políticas palestinas, as prisões em massa, a tortura e as operações de infiltração conduzidas pelo inimigo sionista.

No quarto capítulo, Sinuar aprofunda o problema da infiltração sionista nos campos de refugiados, a execução de colaboradores pela resistência e os sinais de desagregação social produzidos pela pressão brutal da ocupação. O capítulo é narrado, inicialmente, a partir do olhar de uma criança que vai à escola pela primeira vez. A inocência dos primeiros momentos contrasta com o endurecimento da realidade palestina.

Ahmad se prepara com ansiedade para o primeiro dia de aula. Na véspera, experimenta roupas e sapatos novos diante do pequeno guarda-roupa da família, imaginando como será a escola. Sua mãe lhe pergunta: “O que você está fazendo, Ahmad?”, e ele responde: “Estou me preparando para a escola.” Ela ri e lembra que ainda falta tempo. Na manhã seguinte, o menino acorda com as orações do avô e, tomado pela excitação, ajuda a mãe a arrumar os irmãos. Ela o veste como se ele fosse a um casamento, elogia sua inteligência, sua maturidade e sua coragem, e entrega a cada criança um xelim, equivalente a cinco xequeles da libra “israelense”, além de um pedaço de pão colocado na mochila vazia.

A família então se organiza para a saída. Mohammed, irmão de Ahmad, está na terceira série da mesma escola; Maha estuda na quinta série da Escola Primária Feminina de Refugiados B; Hassan cursa a primeira série do intermediário na Escola Intermediária Masculina de Refugiados A; Fatima está na terceira série do intermediário na Escola Intermediária Feminina A; Mahmoud frequenta o segundo ano do ensino médio na Escola Carmel; e os primos Ibrahim e Hassan estudam em séries correspondentes. Todos saem juntos, enquanto Mohammed e Ibrahim seguram as mãos de Ahmad, que leva sua mochila de pano.

As ruas do campo fervilham de crianças a caminho das escolas. Os meninos usam roupas coloridas; as meninas vestem o uniforme al-Muraiol, listrado de azul e branco, com fitas brancas no cabelo; muitos meninos aparecem com a cabeça raspada. Ao chegar, Ahmad encontra um grande pátio cercado por árvores altas, salas distribuídas ao redor, um jardim com flores e plantas, além de um lago. Mohammed lhe mostra o lugar: as salas de aula de cada série, a sala dos professores, a diretoria, o refeitório, os banheiros e os bebedouros.

Quando o sinal toca, os alunos formam filas. Os professores reúnem os novatos da primeira série, chamam seus nomes e os dividem em grupos. O professor de Ahmad é o xeique Hassan, um homem idoso, de túnica e fez, formado em Al-Azhar. Ele organiza os alunos por altura, colocando três estudantes em cada banco de madeira, longo e estreito, com tábuas onde apoiam livros e mochilas. A sala possui três fileiras de sete bancos, a mesa do professor à frente e um quadro-negro, o al-loh, na parede.

O xeique Hassan se apresenta e procura conhecer cada aluno, perguntando por suas famílias. Demonstra conhecer todos do campo e chega a rezar pelo retorno seguro do pai desaparecido de Ahmad. Depois distribui os materiais: um livro ilustrado de leitura, um de matemática, uma parte do Alcorão, novos cadernos da UNESCO em verde e vermelho, lápis e borracha. Em seguida, explica como usar cada item e escreve os nomes dos alunos com capricho.

Os dias passam, e Ahmad aprende a ler, escrever e fazer contas, além de memorizar trechos do Alcorão. Nos intervalos, diverte-se em brincadeiras com os colegas e come sanduíches de tomilho ou pimenta, além de iogurte comprado de vendedoras no portão da escola. Em casa, almoça, trabalha na fábrica do tio Saleh ao lado de alguns irmãos e estuda à noite, ao redor de uma pia virada que serve de mesa com luminária, enquanto a mãe conversa com outras pessoas da família.

Mas a ocupação pesa sobre toda a rotina. Alto-falantes anunciam toques de recolher após operações da resistência, e as patrulhas sionistas avançam pelo campo sob explosões de granadas e tiroteios. Um dos episódios centrais do capítulo é o martírio de Abu Iusuf, um combatente da resistência que morava perto de Ahmad, e de outro militante, durante uma ação contra uma patrulha “israelense”. Os dois utilizam uma granada para forçar o recuo das tropas e atrair reforços da resistência, mas acabam vítimas de uma emboscada traiçoeira, atacados por trás. Ambos são martirizados. Sem o toque de recolher imposto pelo ocupante, o campo inteiro sai às ruas em luto, em um cortejo fúnebre grandioso, com cantos de solidariedade, os caixões percorrendo as ruas antes do enterro no cemitério próximo.

As conversas entre os mais velhos indicam que houve traição, devido à direção inesperada do ataque. Dias depois, ao pôr do sol, combatentes mascarados ocupam as vielas do campo. Abu Hatem, um militante palestino armado com uma vara de bambu e um fuzil, arrasta o homem apontado como responsável pela delação. Diante da população, o combatente afirma que Abu Iusuf, dirigente das Forças de Libertação Popular, caiu em combate por causa da denúncia feita pelo homem, apresentado como espião dos “israelenses”. Sob ameaça, o colaborador confessa que entregou os combatentes em troca de uma pequena quantia em dinheiro e alega que não sabia que eles seriam assassinados. Após a fala de Abu Hatem, a multidão exige sua execução.

No dia seguinte, os combatentes palestinos emboscam a patrulha sionista com granadas e tiros. Soldados são mortos e feridos. Em resposta, as forças invasoras de “Israel” enviam grande quantidade de tropas ao local e cercam os moradores. Homens são arrastados aleatoriamente de suas casas e postos contra a parede. Os soldados sionistas espancam os detidos, e depois um oficial de inteligência os interroga, um a um, dentro de um carro.

Após esse episódio, a rotina escolar é retomada. Ahmad observa meninos escalando o muro para olhar a escola ao lado, onde estudam os mais velhos. No caminho de volta para casa, flagra o primo Hassan fumando. Conta o que viu à mãe, que, a princípio, não acredita e manda o menino não repetir aquilo a outras pessoas. Mais tarde, porém, a mulher confronta Hassan. Em seguida, vêm à tona suas faltas às aulas, cigarros e dinheiro encontrados com ele. O primo acaba confessando que roubou a bolsa do avô, onde estava metade das despesas da família.

A mãe e o avô resolvem aplicar uma punição exemplar e o amarram a um poste no quintal. A mãe de Ahmad lamenta: “Oh, a tragédia de você, o filho de um mártir! Você entende o que é um mártir, Hassan? Seu pai é um mártir, e você rouba metade do que está na bolsa do seu avô? Metade das despesas de vida da nossa família, Hassan! Que vergonha.” Em seguida, ela impõe dentro de casa um toque de recolher próprio, além daquele decretado pelos sionistas: proíbe as crianças de sair do quarto à noite e as obriga a dormir cedo. O ambiente familiar passa a ser marcado por decepção, disciplina e severidade.

Nesse capítulo, Sinuar mostra como o invasor não apenas assassina e tortura, mas também estimula a divisão interna e a decomposição da vida social palestina. A resistência combate esse processo com firmeza. Isso aparece tanto no colaboracionismo do traidor executado quanto na degeneração que atinge a juventude submetida à brutalidade permanente da ocupação.

Gostou do artigo? Faça uma doação!

Rolar para cima

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Diferentemente de outros portais , mesmo os progressistas, você não verá anúncios de empresas aqui. Não temos financiamento ou qualquer patrocínio dos grandes capitalistas. Isso porque entre nós e eles existe uma incompatibilidade absoluta — são os nossos inimigos. 

Estamos comprometidos incondicionalmente com a defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo pobre e oprimido. Somos um jornal classista, aberto e gratuito, e queremos continuar assim. Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Diferentemente de outros portais , mesmo os progressistas, você não verá anúncios de empresas aqui. Não temos financiamento ou qualquer patrocínio dos grandes capitalistas. Isso porque entre nós e eles existe uma incompatibilidade absoluta — são os nossos inimigos. 

Estamos comprometidos incondicionalmente com a defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo pobre e oprimido. Somos um jornal classista, aberto e gratuito, e queremos continuar assim. Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.

Quero saber mais antes de contribuir

 

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.