Estados Unidos

Deus criou Trump, e assim nasceu o mal, diz Bíblia da esquerda filo-imperialista

O idealismo pueril de quem acha que a crise mundial nasceu na cabeça de um homem

Trump

O artigo de João Antonio da Silva Filho intitulado O medo e o retrocesso anticivilizatório e publicado no Brasil 247 é um exemplo acabado de análise política idealista, superficial e completamente desarmada diante da realidade. Para explicar os grandes acontecimentos mundiais, ele recorre a uma fábula moral: de um lado, a “civilização”, o “diálogo”, as “instituições”, a “diplomacia”; de outro, Donald Trump, apresentado como expressão acabada da “lógica da força” e do “retrocesso anticivilizatório”. O mundo, para o articulista, estaria mudando porque um sujeito chegou à Casa Branca com más ideias na cabeça. É uma explicação infantil para uma crise histórica colossal.

O autor escreve que “a retórica política que emergiu com a ascensão de Donald Trump nos Estados Unidos” e “as intervenções militares envolvendo o Irã” revelariam uma “reedição de uma lógica geopolítica fundada na imposição de poder”. Mas que “lógica” é essa que, segundo ele, “emergiu” com Trump? Quem armou e impulsionou a guerra na Ucrânia? Foi o governo Biden. Quem sustentou, financiou e cobriu politicamente a carnificina sionista na Palestina? Foi o governo Biden. Quem aprofundou a militarização do planeta, cercou a Rússia, armou até os dentes a OTAN e transformou a Europa numa plataforma de guerra? Também foi o governo Biden. A tentativa de apresentar a brutalidade imperialista como uma espécie de desvio subjetivo de Trump é uma mistificação barata.

O que o articulista faz é personalizar um processo histórico objetivo. Em vez de analisar a crise econômica, política e militar do imperialismo, ele prefere reduzi-la às escolhas de um governante. Como se a política externa norte-americana fosse uma excentricidade psicológica do presidente da vez. Como se o imperialismo, ao entrar em decadência, não fosse levado necessariamente a uma política cada vez mais agressiva, mais militarista, mais golpista e mais destrutiva. Como se a guerra fosse uma opção caprichosa, e não a continuação inevitável da política de dominação de um sistema em decomposição.

Quando o autor afirma que “esse tipo de prática remete à ideia de uma espécie de ‘polícia do mundo’”, ele também encobre o fundamental. Não se trata de uma “espécie” de polícia do mundo. Trata-se precisamente disso: da dominação imperialista exercida por um bloco de potências que, em crise, tenta impor pela força uma ordem mundial que já não consegue manter pela simples superioridade econômica. E não é apenas os Estados Unidos. Toda a política do imperialismo caminha nessa direção. A União Europeia e o Japão estão plenamente alinhados com esta política. O imperialismo inteiro se move na mesma direção, porque a crise é do sistema, não do temperamento de Trump.

O autor procura salvar uma suposta “ordem civilizatória” fundada no direito internacional, na ONU e nos mecanismos multilaterais. Aqui, sua análise sai do terreno do erro e entra no da fantasia. Que “ordem civilizatória” é essa? A ordem saída da Segunda Guerra Mundial foi a ordem dos vencedores imperialistas. Foi a ordem da partilha do mundo entre as grandes potências, dos golpes de Estado organizados pela CIA, das guerras “regionais” fomentadas em todos os continentes, das intervenções militares, dos bloqueios, das sanções e da espoliação econômica dos países atrasados. A ONU nunca foi o governo da humanidade civilizada; foi, no melhor dos casos, um cartório da correlação de forças entre os países imperialistas e, no pior, uma cobertura jurídica para a política do imperialismo.

O articulista escreve, com solenidade, que “a Carta das Nações Unidas estabeleceu princípios destinados a orientar a convivência entre os povos”. Muito bonito. No papel, certamente. Na realidade, os próprios imperialistas passaram por cima desses princípios sempre que lhes convinha. Invadiram países, promoveram guerras, armaram mercenários, financiaram golpes, ocuparam territórios e esmagaram povos inteiros. A história do pós-guerra não é a história do triunfo do direito. É a história da hipocrisia imperialista, que fala em legalidade enquanto bombardeia, ocupa e saqueia.

Por isso, é simplesmente ridículo atribuir o “retrocesso anticivilizatório” à ascensão de Trump. A barbárie imperialista não começou com Trump e não terminará com sua saída. Antes dele, os democratas já haviam devastado o Iraque, a Líbia, a Síria, o Afeganistão e a Ucrânia. Antes dele, já haviam convertido o Oriente Médio num laboratório de destruição. Trump é apenas uma forma política particular de um processo muito mais profundo: o apodrecimento do imperialismo.

E isso aparece de maneira cristalina justamente nos exemplos que o autor evita examinar com seriedade. A guerra da Ucrânia não caiu do céu por obra de uma “lógica da força” abstrata. Foi preparada por anos de expansão da OTAN, de cerco à Rússia, de ingerência norte-americana na política interna ucraniana, de golpes e provocações. A guerra na Palestina tampouco nasceu de um surto repentino de irracionalidade. Ela é produto da política sistemática do imperialismo, em aliança com o Estado sionista, para subjugar o povo palestino e manter o Oriente Médio sob seu domínio.

O artigo inteiro soa como o lamento impotente de um pequeno-burguês diante de um mundo que ele não compreende. Ele vê a violência, mas não entende sua causa. Vê a crise, mas a atribui a más escolhas individuais. Vê a decomposição da ordem mundial, mas imagina que ela possa ser revertida com um retorno ao bom comportamento institucional. É uma visão idealista no sentido mais vulgar da palavra: em vez de partir da base material da política, parte das ideias, dos discursos, das intenções e das preferências de determinados governantes.

João Antonio da Silva Filho quer explicar a barbárie contemporânea como um desvio da civilização. Mas a barbárie não é um acidente externo à ordem imperialista: ela é o seu produto necessário. Trump não inventou nada. Quem quiser compreender o mundo atual precisa abandonar esse moralismo impotente e encarar a realidade: não é a cabeça de Trump que move a história. É a luta de classes entre o imperialismo e os povos oprimidos.

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