O artigo O PIG voltou, publicado por Oliveiros Marques neste domingo (15), chama a atenção menos pelo que denuncia sobre a Folha de S.Paulo e mais pela ilusão política que revela. Ao se mostrar indignado porque a imprensa burguesa teria, supostamente, “voltado” a agir como partido, o articulista expõe uma surpresa que, do ponto de vista da luta de classes, é totalmente absurda.
A imprensa burguesa não “voltou” a ser inimiga do povo. Ela sempre foi. Sempre atuou como instrumento político de uma classe social inimiga dos trabalhadores. A Folha, o conjunto da grande imprensa e todo esse aparato milionário pertencem à burguesia e servem aos interesses dela. Não se trata de um desvio momentâneo, nem de uma corrupção eventual do jornalismo, mas de sua própria natureza de classe.
O próprio texto de Oliveiros Marques, sem querer, demonstra isso. Ele recorda o apoio da Folha à ditadura militar, menciona sua colaboração com a repressão e lembra seu comportamento seletivo no tratamento dos escândalos políticos. Tudo isso está correto. O problema é o espanto tardio. Se a Folha apoiou o golpe de 1964, se serviu ao regime militar, se protege sistematicamente a direita e ataca seletivamente seus adversários, então por que exatamente haveria motivo para surpresa agora?
A resposta está no subtexto do artigo. O que o articulista revela é que, enquanto a imprensa mantinha uma postura mais dócil em relação ao governo Lula e ao PT, ele aceitava a convivência com essa mesma imprensa. Enquanto ela promovia figuras reacionárias como Alexandre de Moraes, defendia o aumento da repressão, atacava greves, se colocava contra os direitos dos trabalhadores dos Correios e endossava a ofensiva contra o povo palestino, isso não parecia despertar a mesma indignação. Nada disso era suficiente para caracterizá-la como inimiga. O problema, ao que tudo indica, surgiu apenas quando essa imprensa voltou sua artilharia de maneira mais direta contra o governo.
É justamente aí que está o erro central da análise. A questão não é moral, como se a Folha tivesse deixado de cumprir um ideal abstrato de neutralidade. A questão é política e social. Um jornal da burguesia não pode ser neutro diante do conflito entre exploradores e explorados. Ele necessariamente tomará partido. E tomará o partido de sua classe. Esperar algo diferente disso é pura ilusão.
Por isso, quando Oliveiros afirma que a Folha “deixa de atuar apenas como imprensa” e “passa a agir como partido”, ele inverte o problema. A imprensa burguesa sempre age como partido político, ainda que nem sempre de maneira aberta. Em alguns momentos, atua com mais agressividade; em outros, adota um tom mais moderado. Mas seu papel permanece o mesmo: manipular o debate público em prol dos interesses da burguesia, atacar a mobilização popular e pressionar qualquer governo a se submeter aos interesses do grande capital.
O caso citado pelo articulista sobre o tratamento dado a Flávio Bolsonaro, ao INSS e ao Banco Master apenas reforça esse funcionamento seletivo. A grande imprensa escolhe o que destacar e o que esconder conforme a conveniência política da classe dominante. Isso não começou agora, não terminou antes e não recomeçou recentemente. É uma prática permanente.
Dizer, portanto, que “o PIG voltou” é um erro crasso. O PIG nunca foi embora. O que mudou foi o grau de ilusão de setores governistas em relação a ele. Enquanto parecia possível uma coexistência pacífica com a imprensa burguesa, muitos fingiram não ver seu caráter reacionário. Enquanto a burguesia tolerava o governo e mantinha abertas certas mediações, preservou-se a fantasia de que haveria espaço para um entendimento estável. Agora que essa fantasia se desfaz, aparecem as reclamações indignadas.
Mas a burguesia não respeita o PT, como não respeita nenhum instrumento de organização popular quando este deixa de ser útil. Sua imprensa tampouco será parceira de qualquer política minimamente favorável às massas. Toda a experiência histórica do País mostra isso. Da ditadura à perseguição contra Lula, do apoio à Lava Jato à campanha permanente contra direitos trabalhistas, a imprensa monopolista sempre esteve no mesmo lado da trincheira.
A conclusão correta não é que a Folha deva ser tratada “como partido” apenas agora, por ter se excedido. A conclusão é que a esquerda jamais deveria ter nutrido qualquer confiança nessa corja. A política de conciliação com a burguesia leva inevitavelmente a esse tipo de desilusão: primeiro a adaptação, depois o choque, por fim a lamúria.




