Literatura

Iahia Sinuar conta sua história, que é a história de seu povo

No romance “O Espinho e o Cravo”, o revolucionário palestino Iahia Sinuar conta a sua história misturando a biografia com a ficção e a história da Palestina

A Editora Demócritos publicará tradução de romance de Iahia Sinuar, um dos líderes da resistência palestina mais importantes da história, com lançamento oficial previsto para 25 de abril. A vida e o legado do revolucionário ganham nova luz com o pré-lançamento no Brasil do romance O Espinho e o Cravo, obra escrita por ele durante seus longos anos de prisão em cárceres israelenses, marcando a estreia da tradução da narrativa diretamente do árabe no Brasil.

Nascido em 29 de outubro de 1962 no campo de refugiados de Khan Iunis, no sul da Faixa de Gaza, Iahia Sinuar veio ao mundo como consequência da Nakba de 1948, a catástrofe, quando “Israel” expulsou cerca de um milhão de palestinos de suas terras, incluindo sua família, originária de Majdal Ascalão, hoje ocupada pelo sionismo. Criado em condições de extrema precariedade, sob ocupação egípcia inicialmente e depois israelense a partir de 1967, Sinuar teve sua juventude moldada pela opressão cotidiana: prisões precoces (a primeira em 1982, por “atividades islâmicas”, e outra em 1985), contato com o xeique Ahmed Iassin, fundador do Hamas, e ingresso na resistência organizada.

Formado em Língua e Literatura Árabe pela Universidade Islâmica de Gaza, Sinuar destacou-se não apenas como ativista, mas como intelectual poliglota e autodidata. Na prisão, onde passou 23 anos, de 1988 a 2011, condenado à perpétua por ações de resistência, incluindo confrontos armados, aprendeu hebraico fluentemente, traduziu obras sobre os serviços de inteligência israelenses, como o Shin Bet entre os cismas, de Carmi Gillon, e desenvolveu uma visão estratégica aguçada. Ele previu fissuras internas na sociedade israelense que, segundo ele, enfraqueceriam o ocupante ao longo das décadas.

Em 1987, aos 25 anos, Sinuar integrou a ala de segurança interna do Hamas al-Majd, grupo criado para combater infiltrações e colaborações. Libertado em 2011 na troca de prisioneiros pelo soldado Gilad Shalit, ascendeu rapidamente: a partir de 2017, liderou o Hamas em Gaza; em agosto de 2024, sucedeu Ismail Hanié, assassinado por “Israel”, como chefe do birô político do partido palestino, com apoio unânime dos grupos do Eixo da Resistência, incluindo Hesbolá, Ansar Alá, Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP) e Jiade Islâmica, que o qualificaram como “o melhor sucessor” e “líder combatente” presente nas trincheiras ao lado do povo sitiado.

Sinuar orquestrou a operação Dilúvio de Al-Aqsa em 7 de outubro de 2023, marco de escalada na resistência armada contra a ocupação. Martirizado em 16 de outubro de 2024 durante confronto direto em Rafá, foi assassinado combatendo ferido até o último instante, acabando com as mentiras sionistas de que ele era covarde ou isolado em luxo. Imagens divulgadas pelo exército israelense, pretendendo humilhá-lo, acabaram reforçando sua imagem de herói: um combatente que viveu e morreu nas mesmas condições de seu povo, derrubando calúnias sobre líderes palestinos como “marajás distantes”.

Essa dimensão humana e intelectual, menos explorada pela imprensa burguesa, que o rotulou como “carniceiro de Khan Iunis”, revela-se plenamente em sua produção literária. O Espinho e o Cravo, escrito em 2004 na prisão de Bersebá, não é mera autobiografia. Sinuar explica no prefácio:

“Esta não é minha história pessoal, nem é a história de nenhum indivíduo em particular, embora todos os seus eventos sejam reais. […] Todo o resto é real; eu vivi isso, e muito disso ouvi da boca daqueles que, eles próprios, suas famílias e seus vizinhos, vivenciaram isso ao longo de décadas na amada terra da Palestina.”

O manuscrito foi preservado por prisioneiros que o copiaram manualmente e o contrabandearam, um esforço comparado por Sinuar a “uma colônia de formigas”. A trama acompanha uma família palestina expulsa de Majdal Ascalão para campos de refugiados em Gaza, abrangendo da Naksa de 1967 (ocupação de Gaza, Cisjordânia, Jerusalém Oriental etc.) aos primórdios da Segunda Intifada (Intifada de Al-Aqsa, 2000). Personagens fictícios, ancorados em eventos verídicos, vivenciam prisões em massa, torturas, divisões políticas entre blocos seculares e islâmicos nos anos 1970, operações de inteligência israelenses e a formação de lideranças resistentes.

O protagonista Ibrahim é um jovem inteligente, autodidata, especialista em rastrear agentes sionistas e decifrar códigos, que opta por permanecer em Gaza para construir a Universidade Islâmica em vez de estudar no exterior. Ele personifica a autodeterminação: um “homem feito por si mesmo”, que aprende ofícios, assume responsabilidades e prioriza o coletivo sobre o individual. Temas centrais incluem sacrifício pessoal, ascetismo islâmico, influenciado por figuras como o xeique Ahmad, que incentiva oração e renúncia aos desejos mundanos, educação, tensão entre fé e nacionalismo, e a jiade como esforço integral, espiritual, ideológico e armado, pela libertação.

Publicado agora pela Demócritos, após censura na Amazon por pressões sionistas, O Espinho e o Cravo chega em momento crucial: após o martírio de Sinuar, em meio ao genocídio em Gaza e à expansão da agressão imperialista para o Irã. Como ele dedicou a obra “àqueles cujos corações se apegam à terra de Isra e Miraj, do oceano ao Golfo, na verdade, de oceano a oceano”, o livro convoca a solidariedade global à causa palestina.

Gostou do artigo? Faça uma doação!

Rolar para cima

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Diferentemente de outros portais , mesmo os progressistas, você não verá anúncios de empresas aqui. Não temos financiamento ou qualquer patrocínio dos grandes capitalistas. Isso porque entre nós e eles existe uma incompatibilidade absoluta — são os nossos inimigos. 

Estamos comprometidos incondicionalmente com a defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo pobre e oprimido. Somos um jornal classista, aberto e gratuito, e queremos continuar assim. Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Diferentemente de outros portais , mesmo os progressistas, você não verá anúncios de empresas aqui. Não temos financiamento ou qualquer patrocínio dos grandes capitalistas. Isso porque entre nós e eles existe uma incompatibilidade absoluta — são os nossos inimigos. 

Estamos comprometidos incondicionalmente com a defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo pobre e oprimido. Somos um jornal classista, aberto e gratuito, e queremos continuar assim. Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.

Quero saber mais antes de contribuir

 

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.