Milly Lacombe, em coluna intitulada Futebol e estupro coletivo: uma relação de horror, busca associar o estupro coletivo ao futebol. Segundo ela, o futebol é um “ambiente repleto de masculinidade, altamente misógino e machista, onde eventos como crimes sexuais encontram campo fértil para acontecer”.
Tal como está descrito, é melhor levar seu filho em uma cracolândia que em uma escolinha de futebol. Lacombe às vezes fornece uma impressão de que gosta de futebol, mas na realidade, ela não gosta, e, apesar de todo disfarce, ela não gosta porque é esporte de gente pobre.
Depois de citar o caso Robinho, que atualmente cumpre pena sob acusação de estupro, ela afirma que “um dos denunciados por estupro é atleta de futebol do Serrano. Outros três são maiores de idade e alunos da escola Pedro II. Um quinto é menor de idade. A vítima tem 17 anos”.
Citando um caso de estupro (Robinho) e um rapaz envolvido em outro caso, mas que também é jogador de futebol, conclui-se, obviamente, que o futebol é o lugar ideal para o estupro coletivo. E se ninguém vê, é porque ninguém denuncia.
Fechando a tese furada, ela diz: “95% das violências praticadas no mundo são praticadas por homens. Crimes sexuais têm um percentual semelhante: cerca de 90% praticados por homens. Como não dizer que existe um problema com a masculinidade”.
Não existe um problema com a masculinidade, existe um problema com a força física e econômica. E a saída está aí, não nas prisões e penas maiores ou na fictícia e demagógica “desconstrução”, como alguns homens da esquerda se propõe a fazer.
Os homens cometem atos violentos porque possuem os meios para tal. As mulheres, não. O problema reside em fornecer os meios para as mulheres se protegerem de atos violentos, como armamento, comitês de autodefesa etc.
Por outro lado, o problema mais grave que ninguém quer resolver: a situação social da mulher. O mais fácil é apelar para o sistema penal, que vai prender um monte de gente sem resolver o problema do estupro, ou de acusar a “masculidade” de possuir um defeito sobrenatural e que, como tal, não pode ser resolvido.
A propaganda (de esquerda e de direita) diz a todo instante que a mulher pode tudo. Mas a realidade é que ela não pode nada. Essa realidade ninguém quer mudar, pois implica em organizar uma luta por pleno emprego, creches públicas 24 horas, salário igual para trabalho igual, direito irrestrito ao aborto etc.
Isso é difícil de conseguir, pois envolve organização, luta, e, mais importante, a associação com os trabalhadores, todos, homens e mulheres. Lacombe, a CIA/FBI e o identitarismo são contra isso, pois, no final das contas, essa luta coloca em questão o funcionamento do próprio capitalismo, por isso a “luta” é contra o homem, a chamada “masculinidade”. Obviamente não vai dar resultado algum, jamais.
Mas o mais interessante é o asco que os identitários, a esquerda e Lacombe exalam quando tratam de futebol, e isso tem uma explicação de classe. Futebol é esporte de pobre, de trabalhador, de operário, sempre foi. Já a classe média de Lacombe gosta das coisas da “alta”, são bem pensantes, e, por sinal, nesses locais, não parece ter crime algum, embora o caso Epstein e cia. limitada ainda tenham algumas coisas a revelar sobre isso.
O desejo de Lacombe é o futebol se tornar um meio deste, de gente da alta, onde muita coisa acontece mas ninguém fica sabendo, e todos saem lindos, cheirosos e bem vestidos nas fotos, e, mais importante, impunes.
Essa ideologia é exatamente a mesma que fez aumentar o valor do ingresso dos estádios e é a mesma que embasa a política de perseguição contra as torcidas organizadas. É um projeto amplo para promover a limpeza social dos estádios, das torcidas e do próprio futebol, não tem absolutamente nada a ver com combate ao machismo, racismo ou o que quer que seja.
O identitarismo é uma política muito bem desenvolvida pelos donos do capital. Ela tira de questão a luta pelo fim do capitalismo e a luta de classes, abre uma confusão gigantesca na esquerda e joga todos contra todos. Afinal, todo mundo tem uma identidade. É realmente genial.





