O texto do Resistência/PSOL (Esquerda Online), publicado em 28 de fevereiro de 2026, descreve a escalada militar dos Estados Unidos e de “Israel”, para terminar desembocando numa conclusão política típica da frente ampla: usar a guerra para defender “unidade ampla” com “setores democráticos” que “mesmo que não sejam diretamente de esquerda” deveriam compor uma aliança contra a extrema direita.
A picaretagem está concentrada no fecho. Depois de apontar a “política de guerra permanente” do governo norte-americano, o autor afirma que, “diante da gravidade do momento, a tarefa número 1 da esquerda, dos movimentos sociais e de todos os setores democráticos que se opõem à extrema direita no mundo, mesmo que não sejam diretamente de esquerda, é lutar para frear e derrotar a política trumpista, antes que seja tarde demais.” Em seguida, arremata: “Esta tarefa exige da esquerda uma política de frente única e de unidade ampla contra Trump e a extrema direita mundial, sem nunca deixar de apresentar sua saída e um programa de transformações anticapitalistas e socialistas na sua política cotidiana.”
Não é uma formulação inocente. No Brasil, “unidade ampla” com “setores democráticos” que “não sejam diretamente de esquerda” é a senha conhecida da frente eleitoral com a direita, a política de bloco com partidos burgueses apresentada como “necessidade histórica” para “derrotar a extrema direita”. O texto nem tenta esconder: ele não fala em frente única de luta, baseada nas organizações da classe trabalhadora e nos movimentos populares, com programa claro de enfrentamento ao imperialismo. Ele fala em puxar para dentro da “unidade” setores de fora da esquerda — isto é, setores que, na prática, defendem a conciliação com o imperialismo e a submissão do país às instituições do inimigo.
O problema não é apenas terminológico. Em uma guerra como a que o próprio texto descreve — agressão norte-americana e sionista contra o Irã, expansão militar, cerco internacional — não existe “unidade” eficaz com setores burgueses “democráticos”. São esses setores, em escala mundial, que sustentam sanções, bloqueios, “negociações” fraudulentas e o alinhamento com Washington. A tal “unidade ampla” proposta para “frear e derrotar a política trumpista” serve, na prática, para desarmar a luta anti-imperialista, subordinando-a a acordos com gente que não rompe com o imperialismo.
O mais revelador é que o texto tenta conciliar o inconciliável numa frase só: pede “unidade ampla” e, ao mesmo tempo, promete “sem nunca deixar de apresentar sua saída e um programa de transformações anticapitalistas e socialistas na sua política cotidiana.” Na vida real, a frente ampla funciona justamente para impedir que esse programa exista como orientação concreta. O preço da “unidade” com quem “não é diretamente de esquerda” é calar, diluir e rebaixar a política, transformando a esquerda em cabo eleitoral de alianças com a direita — e, portanto, em base para a continuidade do mesmo regime que abre caminho para a extrema direita.
Se o tema é a guerra e a agressão imperialista, a linha consequente não é frente ampla: é frente única de luta anti-imperialista, com independência de classe, mobilização real e medidas concretas (luta contra o alinhamento do Brasil aos EUA, denúncia de sanções e bloqueios, solidariedade ativa ao país atacado, combate à propaganda de guerra). Quando o Resistência/PSOL encerra defendendo “unidade ampla” com “setores democráticos”, ele não está propondo derrotar Trump; está usando Trump como argumento para vender, aqui, a velha receita da conciliação com a direita.




